O futebol venceu

  • por João Rabay
  • 6 Anos atrás
Alex Grimm/Associated Press

Alex Grimm/Associated Press

Partidas de futebol, especialmente as mais importantes e decisivas, têm algumas camadas. Pode-se dividir essas camadas em duas zonas principais, a zona superficial e a zona essencial.

A zona superficial é, basicamente, o resultado da partida. Quem ganha, quem perde, quem é campeão, quem decide o jogo, quem joga bem e quem joga mal. Entra aí, além do trabalho mais visível dos jogadores, a estratégia preparada pela equipe técnica (nos verdadeiros grandes times, isso é feito em conjunto com os atletas, que são capazes de pensar o jogo e muito bem). Deve-se levar em conta, ainda, a forma como essa estratégia é pensada e passada à equipe.

A zona essencial é mais profunda e contempla o significado da partida, a sensação que os resultados da superfície causam nos espectadores. Afinal, não se pode analisar o futebol sem pensar nos torcedores e sem levar em conta que a emoção é a coisa mais importante do esporte.

Se você chegou até aqui pensando que eu diria que a derrota do Borussia foi boa na essência, mas ruim na superfície, se enganou totalmente. A final da Champions League 2012/13 não se resume a uma vitória do “bem” contra o “mal”. Se o Borussia Dortmund é um time simpático, bem treinado e cheio de grandes jogadores interessados em jogar bom futebol, o Bayern também é.

Não deixa de ser chover no molhado, mas é preciso dizer que a equipe bávara tem grandes jogadores (tirando Boateng e Mandzukic, todos os titulares da decisão estão entre os melhores do mundo em suas posições). O estilo de jogo ofensivo, rápido e de qualidade a cada toque já foi justamente exaltado após as goleadas sobre o Barcelona. Assim como o brilhante trabalho de Jupp Heynckes, que não queria deixar o comando do Bayern e que será uma grande contratação da equipe que o contratar, caso ele realmente não se aposente.

A atuação do BVB também deve ser elogiada. A equipe começou com a intensidade de sempre, acelerando o jogo e criando oportunidades. Ao contrário do que aconteceu no duelo de ida das semifinais, não conseguiu convertê-las. A falta que fez Götze, ignorando totalmente aqui sua transferência para o rival, foi enorme. Por favor, nem pensem em diminuir a capacidade de um dos jogadores mais talentosos do mundo por causa disso.

Sem marcar quando esteve melhor, o time amarelo sofreu com a alternância de momentos da partida e passou a dar espaços para o Bayern, que aproveitou as chances com mais competência. Se o primeiro tempo foi equilibrado, o segundo foi um jogo de um time só, apesar de o Borussia ter mostrado muita maturidade para buscar o empate sem se deixar abalar.

Agora, chegando à essência do jogo, confirmo o que imagino que o leitor tenha pensado que eu diria: a partida foi espetacular em cada detalhe. Os dois times jogaram seu futebol seguindo as próprias filosofias, diferentemente do que houve nas quartas de final da Copa da Alemanha, quando o Dortmund jogou mais recuado e foi dominado pelo adversário.

A final consagra uma equipe brilhante, que joga o melhor futebol do mundo e que sofreu uma porrada muito doída na UCL passada ao cair em casa diante de um time que, sem tirar o mérito do Chelsea, era muitas vezes pior. Ver esses jogadores sendo vice-campeões novamente e sendo tachados de amarelões seria lamentável. Sem falar no possível marco de uma “nova ordem mundial” futebolística que este título parece inaugurar, com predominância não só do Bayern, como da Alemanha.

A torcida do Borussia, que cativou tantos admiradores do futebol ao redor do mundo, verá não só a final, como a campanha do time, com orgulho genuíno. Também não serão obrigados a ouvir que o time era bom, mas sentiu o peso da decisão. Os onze jogadores atuaram bem e mereciam a vitória, mas, como se sabe, só um lado pode triunfar.

A filosofia da direção e da comissão técnica do Borussia seguirá a mesma. Os fãs não precisam se preocupar com um possível desmanche. Quando Barrios saiu, Lewandowski assumiu seu lugar. Gündogan nem deixou o torcedor sentir falta de Sahin por muito tempo. Reus entrou no lugar de Kagawa e mudou a forma de jogar da equipe para melhor. Se o atacante polonês e o volante alemão realmente seguirem Götze e deixarem o Vale do Ruhr, um novo atacante desconhecido e um meia alternativo serão descobertos pelo gênio Jürgen Klopp. O BVB não é um time de uma temporada só.

Enfim, sem fazer manobras para fugir do clichê: o futebol comemora.

Comentários

Jornalista. Doente por futebol bem jogado e inimigo de jogadores que desistem da bola para cavar falta e de atacantes "úteis porque marcam os laterais".