O Hazard caçula e a escalada de um clube sonhador

Thorgan Hazard Zulte Waregem

Fonte: World Soccer

Em tempos em que o torcedor brasileiro ainda se acostuma a acompanhar com afinco o futebol europeu, o interesse pelas grandes ligas do continente cresce exponencialmente. A Liga dos Campeões, a maior delas, vem atraindo a atenção de um grande público e já marca presença na grade de programação da maior emissora aberta do país. Além da Champions, grandes campeonatos nacionais como o espanhol, o inglês e o alemão já têm seu espaço consolidado nos canais pagos há anos, e até mesmo ligas como a portuguesa e a francesa já despertam o interesse dos mais aficionados. No entanto, uma liga ainda bastante obscura no Brasil é a responsável por promover a maior das zebras do velho continente na atual temporada.

Trata-se da Jupiler League, o campeonato belga. Tradicionalmente dominado pelos grandes do país – Anderlecht, Club Brugge e Standard Liège -, sua edição 2012/2013 foi tomada de assalto por um clube que vem sendo a grande sensação do futebol local: o Zulte Waregem. Com um planejamento de longo prazo e um trabalho de prospecção extremamente bem feito desde o início do século, o time deixou as divisões amadoras do futebol local e hoje disputa os playoffs finais do mais alto escalão nacional, depois de ter terminado a fase inicial da liga na segunda posição, à frente de alguns gigantes do país.

Na casa do poderoso Anderlecht, o Zulte conseguiu surpreendente vitória por 1x0.

Na casa do poderoso Anderlecht, o Zulte conseguiu surpreendente vitória por 1×0.

Essa bela história começou em 2001, na cidade de Waregem, de apenas 35 mil habitantes, que fica na região ocidental de Flandres, ao norte da Bélgica. O Zulte e o KSV Waregem, os dois clubes da pequena cidade, se fundirem, e assim nasceu o Zulte Waregem que, na época, ainda era amador. No mesmo ano, o técnico Francky Dury foi apontado para liderar o projeto do clube que acabara de nascer, e deu início a impressionante ascensão do clube verde e grená. Desde então, o Essevee (como é chamado) protagonizou uma escalada pelas várias divisões do futebol belga, até atingir a Jupiler League na temporada 2006/07, depois de se sagrar campeão da segundona no ano anterior.

Já na sua primeira participação na elite nacional, conseguiu classificação para disputar a Copa da UEFA (hoje Europa League), quando eliminou o Lokomotiv Moscou na primeira fase e, num grupo que tinha Ajax, Espanyol, Austria Viena e Sparta Praga, conseguiu a classificação para a eliminatória seguinte. A equipe teve que mandar seus jogos no estádio do KAA Gent, já que sua casa, o Regenboogstadion, tem capacidade para apenas 8.500 pagantes e não foi aceito pela organização da competição. No entanto, o sorteio não lhe foi muito gentil, e o Zulte foi eliminado pelo Newcastle com duas derrotas. Nada mal para um time que fazia sua estreia em nível europeu.

Desde 2001 no cargo, técnico Francky Dury levou o Zulte a um patamar quase inimaginável.

Desde 2001 no cargo, técnico Francky Dury levou o Zulte a um patamar quase inimaginável.

Desde então, o time conseguiu se manter na elite do futebol nacional, sempre sob o comando do treinador Francky Dury. Porém, o assédio sobre ele era crescente, e em 2010, Dury deixou o clube para comandar o Gent, que havia dispensado o ídolo belga Michel Preud’homme. Com a saída dele, os dois grandes destaques do time também se foram: o meia francês Franck Berrier, que foi para o Standard Liège, e o atacante senegalês Mbaye Leye, transferido para o Gent e, depois, também para o Standard. O Zulte sentiu a ausência de seu treinador de uma década e de seus principais jogadores, e cambaleou na liga, flertando com o rebaixamento por várias rodadas. Mas o estilo autoritário de Dury não funcionou fora de Waregem e ele acabou sendo demitido – ainda a tempo de retornar, junto com Berrier e Leye, para salvar o Essevee do rebaixamento.

Nas duas temporadas seguintes, o clube se manteve na divisão de topo com certa tranquilidade, mas nada se compara ao desempenho que a equipe vem tendo na atual campanha, quando liderou a Jupiler League durante um bom tempo, chegando a conseguir uma invencibilidade de quinze partidas. O grupo de jogadores e o treinador foram mantidos ao longo dos anos, e para esta temporada, receberam reforços sem muita grife: basicamente, vieram jovens emprestados dos grandes clubes belgas. Um deles, no entanto, chama muita atenção. Pela forma como chegou e, acima de tudo, pela maneira como conseguiu mostrar a seus detratores que não está no futebol só por ser irmão daquele que é possivelmente o maior jogador belga da atualidade.

Saindo das sombras: a afirmação do menino Thorgan

Quando Thorgan Hazard foi contratado pelo Chelsea, muitos afirmaram que se tratava apenas de uma manobra do clube inglês para facilitar a adaptação de Eden, seu irmão mais velho e grande objeto de desejo dos maiores clubes do mundo no verão de 2012. Então com 19 anos recém-completados, Thorgan tinha poucas partidas disputadas pelo Lens, clube em que se tornou profissional, e era visto com muita desconfiança. Casos como os de Digão, irmão de Kaká que também foi contratado pelo Milan e recebeu pouquíssimas chances, logo vieram à memória dos fãs de futebol. Pouco tempo depois, no entanto, foi selado seu empréstimo para o Zulte. A teoria de que ele seria um estepe para a adaptação do irmão foi, então, definitivamente rechaçada. O que poucos sabiam era que ele havia abraçado um projeto cujo sucesso era questão de tempo.

Thorgan em ação com a camisa do Zulte: um protagonismo conquistado aos poucos.

Thorgan em ação com a camisa do Zulte: um protagonismo conquistado aos poucos.

Thorgan chegou ao Zulte Waregem com o respaldo absoluto de seu treinador, que logo lhe deu oportunidades. Seu primeiro gol saiu pouco mais de um mês depois de sua estreia, numa vitória de 4×1 sobre o Charleroi. Seu jogo tem ganhado consistência, e ele tem sido o segundo jogador em importância no quesito criação de jogadas, atrás apenas do experiente Franck Berrier. Sua evolução é nítida, e a partida que ele fez recentemente contra o Anderlecht, na qual foi apontado como o melhor em campo, foi um marco na sua temporada. Seu jogo é um pouco diferente do estilo explosivo e agudo do seu irmão: Thorgan se posiciona um pouco mais recuado, como um armador, e costuma compensar com muito esforço suas limitações técnicas. Ele tem desempenhado bem a função de armador no Zulte, e começa a se mostrar como mais um expoente da excelente safra belga. É difícil fazer predições sobre seu futuro no Chelsea, que precisa de jogadores de altíssimo rendimento. Mas essa temporada de destaque, ainda aos 20 anos, parece ser um bom indício de que ele pode, sim, ter uma carreira no futebol de alto nível.

Fazendo história

No momento, a Jupiler League está vivendo sua reta final, e o Zulte segue firme na briga pelo título nacional, que há alguns anos, não passava de delírio na cabeça de seus torcedores. Na Bélgica, o campeonato tem um playoff final com os seis melhores clubes da primeira fase. O Evessee sofreu três derrotas no início da segunda fase, e está agora na terceira posição, dois pontos atrás do líder  Anderlecht. A possibilidade da conquista inédita é real, e a vaga para disputar competições europeias parece já bastante próxima. Os 35 mil habitantes de Waregem contam as horas e torcem para que o clube resista à ameaça dos gigantes. E se tranquilizam com a certeza de que qualquer resultado estará muito acima de quaisquer expectativas. Com Dury, Berrier, Thorgan e Leye, eles podem sonhar.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.