O santo pecador da bola

  • por Fernando Carreteiro
  • 8 Anos atrás

Alfredinho jamais foi um desses meio-campistas habilidosos, daqueles que nos dão a sensação de que colocar companheiros de time na cara do gol adversário com um simples toque de bola é fácil. Contudo, sempre foi muito querido pela torcida de todos os clubes que passou, mas não apenas por ser um atleta muito esforçado: poucos jogadores eram tão carismáticos com os torcedores quanto Alfredinho. Ele posava para fotos ao lado de fãs, concedia autógrafos e apertos de mãos. Sempre com um sorriso contagiante…

ALFREDINHO-fanpage

Por Rafael Ligeiro

Em campo, o meia era de uma lealdade assustadora e colecionava histórias nesse sentido. Uma das mais marcantes ocorreu em uma partida logo no começo de sua carreira. Um colega de equipe fez um belíssimo cruzamento, próximo ao lado esquerdo da grande área. A bola viajava rumo a Alfredinho, que estava desmarcado na pequena área. Diante da iminência de gol, os torcedores se levantaram; mas, com a imponência de um pivô grandalhão no basquete, ele interceptou a bola com as mãos. Enquanto todos no estádio, inclusive os adversários, assistiam boquiabertos ao lance, o goleiro rival estava no chão, aos prantos, com a mão em um dos tornozelos que havia fraturado pouco antes, após se chocar com o zagueiro de seu próprio time.

Alfredinho tinha avistado a condição do arqueiro. E negou-se a fazer um gol sem goleiro.

Certa vez, o time de Alfredinho chegou à final de um importante campeonato nacional. Ele julgava aquela partida como a mais importante de sua vida. Poderia ser seu primeiro título dessa grandeza, algo que também se estendia a boa parte de seus companheiros de clube.

A bola rolou e, logo aos dois minutos de jogo, a equipe adversária marcou o primeiro gol; uns quinze minutos depois, o segundo. Algo parecia errado com o seu time, que tinha assegurado vaga à decisão com uma campanha quase irretocável. Ciente disso, ele se manifestou:

“Moçada” – berrou aos companheiros de equipe, com as mãos próximas à boca. “Não vamos perder o foco, temos condições de virar isso!”

Curioso é que o incentivo parece ter dado resultados e o time passou a pressionar o rival, em busca do primeiro gol. Cícero, atacante do time e parceiro de Alfredinho no dominó durante as concentrações da equipe, deu três chutes a gol em questão de quatro, cinco minutos; um deles quase do meio-de-campo. A bola bateu na trave. Lá pelos 38 minutos, enfim, veio o gol.

O primeiro tempo terminou mesmo em 2×1. E, apesar da desvantagem, Alfredinho e seus companheiros de equipes desceram ao vestiário com um certo ar de alívio. Convictos de que estavam no caminho certo para faturar o almejado campeonato. Se mantivessem o ritmo imposto depois que sofreram o segundo gol, a vitória viria.

Chegou o segundo tempo. E o time rival voltou muito bem em termos defensivos. Até porque contava com zagueiros que conduziam a bola com muita categoria, diferente de muitos companheiros de posição, que chutavam a coitada para onde o nariz apontava.

O jogo se mostrava travado. Tenso.

Mais da metade da segunda etapa ficou para trás… E nada de gol! Por conta disso, o treinador da equipe de Alfredinho – que já demonstrava um certo nervosismo, andando de um lado ao outro na área técnica – decidiu trocar um volante e um lateral por mais dois atacantes.

“Seja o que Deus quiser”, deve ter pensado.

Aos 41 minutos, surgiu um escanteio para a sua equipe.

“Vocês são altos, disse aos zagueiros. Vão lá tentar alguma coisa e deixem que eu tomo conta aqui atrás.”

Embora não ostentasse braçadeira ou título de capitão, Alfredinho era um líder nato em campo; muito respeitado pelos parceiros de time. Os defensores, não à toa, partiram à área adversária.

Acontece que o escanteio caiu nos pés de um adversário que pouco antes entrara no lugar de um companheiro de time. Deduzir que o sujeito estava com fôlego de sobras beira a redundância.

Ele cruzou o campo, num pique impressionante. Ninguém alcançava o bendito, que já estava quase na cara do gol. Bastava ultrapassar Alfredinho.

“Quer saber?”, deduziu Alfredinho. “Por aqui esse cara não vai passar.” Eis que ele tomou impulso e saltou com as pernas pouco flexionadas.

Certeiro!

Alfredinho atingiu o rival, que já tinha lhe deixado quase totalmente para trás. O adversário caiu. Após rolar três vezes pela grama, colocou as mãos na panturrilha esquerda. Com uma aterrorizante expressão de dor. Fez-se um silêncio sepulcral nas arquibancadas. Alfredinho era um símbolo de disciplina, jamais tivera um lance tão violento ao longo de sua já alongada carreira. Todos desconfiavam que, pela gravidade da falta, ele seria expulso.

Enquanto dois brutamontes entravam em campo para colocar o lesionado – que continuava com as mãos em pressão à panturrilha e cara de muita dor – na maca, o árbitro conseguiu se desvencilhar da série de jogadores de ambos os times que o cercava. Seguiu na direção de Alfredinho, que caminhava vagarosamente, de cabeça baixa, rumo a uma das extremidades do gramado, convicto de que seria expulso. Mas quando o juiz tirou o cartão do bolso de seu uniforme, eis a surpresa: cartão amarelo!

Pois é. Apenas cartão amarelo!

Nesse instante, uma sensação conflitante tomou conta de si. Sentia uma dose considerável de remorso, principalmente ao avistar o companheiro de profissão lesionado, já fora de campo, amparado pelos médicos de seu time rumo ao vestiário. No entanto, sobrava o alívio de, por conta de um tremendo erro do árbitro, permanecer em campo.

De qualquer modo, não havia tempo para sentimentalismo. Ele continuava em jogo. E o placar era desfavorável.

A partida já estava nos acréscimos, quando o seu time conseguiu um escanteio. Ninguém ficou na defesa. Nem mesmo Alfredinho.

Pedrão cobrou o escanteio… E que cobrança mais feia!

A bola chegou ao primeiro pau, rasteira, sem efeito. Contudo, a dupla de zaga, considerada uma das melhores do país, bateu cabeça. A redonda também passou pelo goleiro e sobrou a um jogador, livre na pequena área, que precisou apenas de um sutil desvio com a ponta da chuteira para empatar o jogo.

Gol! E de Alfredinho!

No mesmo instante em que era abraçado por todos os seus companheiros de time e o estádio quase vinha abaixo, tamanha era a movimentação de torcedores eufóricos nas arquibancadas, o árbitro pegou a bola. E apitou. Fim do tempo normal! Os rivais até ensaiaram uma reclamaçãozinha, alegar aos bandeirinhas impedimento do goleador. Mas como de nada adiantaria, desistiram.

Prorrogação à vista!

Em meio à euforia dos companheiros de equipe, Alfredinho, do alto de sua polidez, se dirigiu ao juiz da partida e tocou-o no ombro, para chamar a atenção. O árbitro olhou e ele, com o calmo tom de voz que lhe era característico, agradeceu pelo fato de não ter sido expulso por conta daquela falta antes de seu gol. E acrescentou:

“Seu juiz, foi muito bacana de sua parte levar em conta meu passado”, disse. “Jamais fui um jogador violento e só fiz aquela falta para matar a jogada.”

Acredite: esse foi o maior erro da carreira de sua carreira.

“Muito obrigado?! Considerar passado?! Que porcaria de história é essa?!” – questionou o árbitro. “Eu apenas apliquei a regra, fiz o que creio que é correto.”

Com um olhar fulminante sob o atleta, o meritíssimo não teve dúvidas. Mostrou o cartão vermelho ao pobre do Alfredinho.

“Isso aqui é para você aprender que eu não sou influenciável, seu palhaço, infeliz!”, acrescentou o juiz.

Com um pequeno rádio próximo a um dos ouvidos, teve que acompanhar a derrota de seu time na prorrogação. Quatro a dois. Escutou ainda ao treinador da equipe adversária afirmar a um repórter que, durante a prorrogação, seus comandados aproveitaram muito bem o espaço, agora vago, que Alfredinho tinha ocupado nos 90 primeiros minutos do jogo.

“Os dois gols saíram por lá”, disse o treinador.

Sim. É verdade que Alfredinho continuou a posar em fotos com fãs, conceder autógrafos e apertos de mãos, com um sorriso contagiante. Até mesmo após pendurar as chuteiras. Mas falar com um árbitro de futebol… Nunca mais!

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