Os limites de uma filosofia

Barcelona Os limites de uma filosofia

Há dois meses, publiquei aqui texto sobre aquela que defini como a primeira derrota da filosofia Barcelona, logo após a enfática derrota sofrida ante o Real Madrid em pleno Camp Nou, em jogo válido pela Copa do Rei. Em uma partida em que foi completamente sobrepujado – apesar do habitual domínio sobre a posse da bola -, o Barcelona pouco criou, perdeu por 3×1 e foi eliminado da competição. No entanto, tudo foi minimizado à época: afinal, os catalães lideravam com folga a Liga Espanhola, e poucos dias depois protagonizariam a grande ‘remontada’ do jogo de volta contra o Milan. Mesmo com a classificação na Champions e o bom andamento da campanha doméstica, o time continuou vencendo sem convencer. Sofreu para eliminar, com dois empates, o PSG na fase seguinte da competição continental, e continuou dando sinais inequívocos de que padecia do que se convencionou chamar de “Messidependência”. Eram as primeiras evidências de que havia muitas mudanças em curso na ordem mundial do futebol.

Se a derrota para o Real Madrid foi um choque do qual a torcida culé rapidamente se recuperou, graças ao 4×0 sobre o Milan, o mesmo não pode ser dito da eliminação ante o Bayern, consolidada ontem. Se aquela havia sido a primeira derrota do conceito Barcelona, a de ontem sem dúvida foi a mais acachapante e dura delas. O placar agregado de 7×0 traduz com fidelidade o que foram os dois jogos: um amplo domínio bávaro que deixou o Barça encurralado, completamente sem alternativas. Praticamente não houve uma finalização que ameaçasse de maneira séria o gol de Manuel Neuer. Com a ausência de Lionel Messi, todas as fraquezas do time ficaram expostas, e o Barça se viu absolutamente incapaz de criar chances. Muito em virtude da impecável marcação alemã, mas também pela profunda ineficiência das mesmas jogadas que, outrora, causavam vertigens nos marcadores e encantavam os torcedores do mundo inteiro.

Conservadorismo no limite da insistência

Jogando como "verdadeiro nove", Messi perde muito. Ainda assim, consegue ser genial.

Jogando como “verdadeiro nove”, Messi perde muito. Ainda assim, consegue ser genial.

No texto de dois meses atrás, coloquei um subtítulo: “quando a fantasia vira clichê”. Mais de 60 dias depois, o Barcelona ainda não conseguiu, digamos, renovar seu guarda-roupa. Tito Vilanova tem adotado uma abordagem mais conservadora, e feito bem menos experiências táticas do que seu antecessor, Pep Guardiola. Na campanha 2012-13, o Barça voltou a jogar num 4-3-3 mais ortodoxo, no qual quase não há infiltração e o homem de área é Messi, do alto de seu 1,69m. Jogando mais fixo na área adversária, o argentino já foi às redes 58 vezes na temporada. Ele é a referência absoluta, e todos o procuram para finalizar as jogadas. Mas quando ele não resolve, a coisa aperta: o segundo artilheiro blaugrana na temporada é David Villa, com apenas 14 tentos marcados, seguido por Fàbregas (13 gols) e Alexis Sanchez, com oito. Os números traduzem tanto a genialidade do camisa 10, quanto a absoluta falta de alternativas à estratégia “bola no pé de Messi”.

No jogo de volta contra o Bayern, que vem atropelando todos os adversários na atual temporada, o argentino não pôde atuar. Assim, todo o poderio ofensivo da equipe catalã ficou sentado no banco de reservas. O técnico Tito tentou o de sempre: toques rápidos, tabelas na entrada da área, bolas em profundidade pelo corredor direito. Mas todas as tentativas foram implacavelmente bloqueadas pela sólida marcação bávara. Mesmo dominando a posse da bola, o Barcelona não conseguiu impor seu tradicional domínio territorial. Em muitos momentos da partida, foi comprimido em seu próprio campo defensivo – onde acontecem as também tradicionais falhas de marcação. Quando partiu para o ataque, o Barça deixou grandes espaços à disposição dos rivais. E foi feito de gato e sapato pelos alemães, que se aproveitaram da inconsistência defensiva espanhola para marcar os gols que selaram a humilhante eliminação.

Cantera: fonte que também seca

Jovem Bartra marcando Robben: lançado na fogueira pelas carências do elenco.

Jovem Bartra marcando Robben: lançado na fogueira pelas carências do elenco.

Os problemas culés não se resumem, contudo, à ortodoxia tática. Passam também pela presunção na hora de montar o elenco, ainda no começo da temporada. Na eliminação diante do Chelsea, na campanha passada, as fragilidades do grupo barcelonista já haviam ficado bem expostas. A falta de um atacante de área, que pudesse dar alternativas ao tiki taka (como o velho e bom chuveirinho, por exemplo), e de um zagueiro que suprisse as constantes ausências do capitão Puyol era nítida, mas foi minimizada, de forma imprudente e até arrogante. Tudo em nome da filosofia culé de dar preferência às categorias de base. Os poucos reforços que chegaram foram Jordi Alba e o camaronês Song, que ainda não emplacou com a camisa azulgrená e cuja saída já é especulada. No mais, foram promovidos alguns jovens de valor, como o zagueiro Bartra – que não podia ter recebido oportunidades em um momento menos propício – e o bom lateral Martín Montoya, além de alguns outros que já tinham algum espaço no grupo, como Cristian Tello e Rafinha Alcântara. Nenhum deles, entretanto, conseguiu fazer sombra aos titulares de suas respectivas posições, ou ao menos se transformar em opções confiáveis. E assim, as carências do elenco continuaram sujeitas a se revelar nos momentos agudos da temporada. Foi o que aconteceu: contra o Bayern, a defesa culé esteve bastante desfalcada com as ausências de Puyol, Piqué, Mascherano, Abidal e Jordi Alba. Tito teve que recorrer, então, ao jovem Bartra, que pouco pôde fazer diante do letal ataque bávaro. Isso sem falar na lesão de Messi, a mais dura de todas as perdas.

Apesar de ter sido exposta na Champions, a falta de profundidade e de alternativas no elenco não impediram que o Barcelona voltasse a conquistar o campeonato espanhol. Com o elenco completo e com um Messi que voava em busca de um recorde que já durava quase 40 anos, o início na Liga foi avassalador. E já em dezembro o título parecia decidido, graças também à crise que atravessava o arquirrival Real Madrid. Os gols do camisa 10 saíam em profusão, e foram suficientes para manter os bons resultados da equipe. Mas com o decorrer da temporada, o desgaste físico atingiu alguns dos principais jogadores culés. Tito Vilanova, que lutava contra um câncer e ficou afastado do cargo durante cerca de dois meses, pouco pôde fazer para evitar a queda de rendimento coletivo. Messi, em fase esplendorosa, continuava carregando o time nas costas. Porém, no confronto de ida contra o Milan, ele foi literalmente cercado: sob marcação cerrada, não conseguiu produzir e o Barcelona foi derrotado no San Siro por 2×0. No jogo de volta, o auxiliar Jordi Roura optou por escalar David Villa como homem de área e posicionou Messi mais aberto no flanco direito, como nos velhos tempos. E com espaço para trabalhar, ele foi decisivo: marcou dois golaços e abriu caminho para a goleada que classificou seu time. A experiência foi repetida em outras ocasiões, embora sem tantos resultados. Assim, na impossibilidade de se reciclar, o Barcelona precisou buscar soluções no seu passado glorioso – e não muito distante.

Um clube refém do passado

Tito Vilanova não parece ser o homem capaz de repensar o Barcelona.

Tito Vilanova não parece ser o homem capaz de repensar o Barcelona.

Este talvez seja o maior dos problemas do Barça atual: a incapacidade de se renovar. Olhando para trás, a própria opção por Tito Vilanova foi também uma opção pela continuidade do trabalho de Pep Guardiola. No entanto, um ano após a escolha do ex-auxiliar, o clube perdeu todo o potencial inovador, tornando-se refém de um sistema de jogo engessado e, acima de tudo, extremamente estudado pelos adversários. E quando precisa buscar alternativas, recorre ao passado vencedor. É como se a continuidade desejada fosse, na verdade, uma estagnação. Enquanto os catalães tenta criar seu “novo Guardiola”, os principais rivais do continente evoluem e desenvolvem seus próprios conceitos – muitos deles inspirados na filosofia barcelonista que dominou o futebol mundial durante os últimos cinco anos. O Barcelona foi, então, ultrapassado. Ficou para trás, preso em suas próprias convicções – hoje, verdadeiras limitações.

Assim, melancolicamente, chega ao fim o sonho europeu no Camp Nou. Em algumas semanas, deve vir a confirmação do título espanhol, que provavelmente não servirá nem mesmo como prêmio de consolação: o 7×0 sofrido ficará, por muito tempo, vivo na memória de cada um dos jogadores blaugranas. E também na memória de todos os fãs de futebol, que marcarão o 1º de maio de 2013 como o dia em que acabou a hegemonia culé sobre o futebol mundial. Ao juntar os cacos, o Barcelona terá que se render à triste realidade: não é mais o time indomável e surpreendente que entrou para a História. Hoje, é um time que precisa se reconstruir, remodelar seus conceitos. E para isso, precisa de reforços e de um treinador à altura das suas tradições, que consiga extrair todo o imenso potencial técnico que possui um elenco com Alba, Xavi, Iniesta, Messi e tantos outros – ainda que nele haja algumas carências importantes. É hora de investir em reforços pontuais, repensar estratégias e, sobretudo, olhar para a frente.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.