Os problemas táticos no Náutico de Silas

Foto: reprodução - Silas à frente do Náutico.

Foto: reprodução – Silas à frente do comando técnico do Náutico.

O Náutico passa por um momento nada agradável nesse começo de Série A. Nessas duas primeiras rodadas, perdeu as duas partidas que disputou, contra Grêmio e Vitória. Muitos ainda podem achar que essa ainda não é a hora de analisar de forma mais aprofundada a situação, mas a verdade é que os problemas técnico-táticos não são recentes e já vêm sendo mostrados pela equipe recifense desde o Campeonato Pernambucano. A desorganização dentro de campo é notória e o técnico Silas terá de realizar mudanças, pois, se continuar como está, a tendência é o rebaixamento para a Série B.


O Timbu joga em um 4-3-3, com o meio-campo formatado num triângulo de base alta. Com Rogério se deslocando da ponta-direita para o centro da cancha, a formação vira um 4-3-1-2, com losango no meio. As fragilidades e deficiências começam na defesa e terminam no ataque. Falta profundidade no setor de articulação e nas extremidades.


No meio, o posicionamento de Martinez e Rodrigo Souto está totalmente errado, uma vez que ambos não possuem características de armadores. Martinez é um jogador que geralmente vem de trás e arma o jogo com longos lançamentos, normalmente se posicionando na vértice inferior de um triângulo ou losango. Nesta temporada ele vem atuando no topo do médio triângulo e não tem a mesma liberdade para distribuir a bola por entre as intermediárias, por causa do fácil encaixe da marcação adversária. Mesmo assim, Martinez ainda é o melhor passador do Náutico, com 79 passes certos até agora no Brasileirão. Nas viradas de bola, ele também é o líder, com 8 viradas certas. Rodrigo Souto é um volante de transição, que pode aparecer no campo de ataque como homem-surpresa para finalizar de longa distância, sair pro jogo com a bola dominada e participar da armação no corredor central. Talvez, uma boa opção para encaixá-los melhor, seria um 4-1-2-1-2, com Martinez fazendo o papel quase que de um regista, enquanto Rodrigo Souto jogaria mais avançado. Nesse possível sistema, o atacante Rogério faria a ligação, circulando por todo o ataque, como uma espécie de trequartista.


A recomposição pelos lados é um problema que assusta o Náutico desde o ano passado. Na maioria das vezes, encontra-se uma avenida nas costas dos laterais Maranhão e Bruno Collaço, principalmente quando ambos se aventuram pelas regiões ponteiras e o adversário arma um contra-golpe em velocidade. Nos últimos jogos, os dois também deixaram a desejar no apoio, chegando ao ataque por poucas vezes. Essa falta de ultrapassagens e projeções dos laterais pelas beiradas isola os ponteiros Rogério e Caion, que buscam as jogadas individuais, mas acabam desarmados. Nos números, Caion e Rogério são os dois jogadores que mais perdem a posse de bola, ambos com 17 perdas. Quando Rogério centraliza, fazendo a variação do 4-3-3 pro 4-3-1-2, abre um corredor pela direita, porém, ninguém se infiltra por ali. O Náutico precisa saber explorar melhor os espaços do campo, pois eles podem ser propícios para a criação de jogadas agudas.

O 4-3-3 alvi-rubro é estático e seus jogadores possuem pouca mobilidade nos espaços entre o meio-campo e o ataque.

O 4-3-3 alvi-rubro é estático e seus jogadores possuem pouca mobilidade nos espaços entre o meio-campo e o ataque.


Na frente, os três atacantes têm falhado muito na hora das finalizações. A verdade é que o centro-avante Elton é o único jogador do ataque alvirrubro que tem um bom arremate de diferentes distâncias. Caion e Rogério erram até mesmo em chutes da entrada da área, mandando a bola sem nenhum perigo à meta adversária. Outro problema é o fato de que a bola também não chega com qualidade nos atacantes, pois a pelota circula no meio-campo, mas dificilmente chega para o ataque com boas condições para a conclusão. Na primeira partida, contra o Grêmio, o Náutico teve 53% de posse de bola no meio, mas só teve 18,5% na frente. Os dois pontas são jogadores de velocidade e que possuem certa habilidade técnica, mas não vêm utilizando-a da maneira correta.


Sem a posse de bola, o Timbu poderia adiantar as linhas de marcação e pressionar a saída de bola do adversário, como fez no início do primeiro tempo do jogo contra o Grêmio, onde Rogério e Caion voltavam pelos lados e formavam uma segunda linha de quatro, com Martinez e Rodrigo Souto. Em números, um 4-1-4-1. Essa segunda linha avançava até algumas áreas próximas do círculo central e atrapalhava a transição ofensiva gremista. Para por isso em prática em todos os jogos, o Timbu precisaria de total aplicação e dedicação de seus jogadores no momento do combate.


Lá atrás, os zagueiros ainda cometem falhas gritantes e que prejudicam a dinâmica de jogo da equipe no aspecto coletivo. Esses erros ocorrem principalmente na bola aérea e na saída de bola. Com a chegada do zagueiro William Alves, que estava no Santa Cruz, a tendência é que o miolo de zaga alvirrubro ganhe mais consistência e solidez.


Seria ótimo para o Náutico, conseguir bons resultados nos próximos jogos para não precisar correr atrás de muito prejuízo após a pausa para a Copa das Confederações, pois a recuperação poderá ser mais complicada e o time pode apresentar instabilidades. No atual momento, o Timbu é o lanterna da competição, mas só tivemos duas rodadas até aqui. De qualquer modo, os alvirrubros precisam de mudanças para que possam passar por essa má fase e o apoio da torcida pode ser essencial para isso.

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Natural de Recife-PE e futuro jornalista esportivo. É colunista de futebol nordestino no BOL Esporte/ Portal Terceiro Tempo e colabora com o Doentes Por Futebol. Gosta bastante de análises técnico-táticas.