Quando Alagoas foi o Brasil na América

CSA

Alagoas, segundo menor estado brasileiro (excluindo o DF), já teve seus momentos de glória no futebol, seja de filhos abençoados ou de clubes com destaques repentinos.

Em Alagoas, terra de Graciliano Ramos, Aurélio Buarque de Holanda, Djavan, Cacá Diegues, Lêdo Ivo, Teotônio Vilela, Floriano Peixoto, Marechal Deodoro da Fonseca, Florentino Dias, Nise da Silveira e de Zumbi dos Palmares, nasceram também Marta, a rainha dos campos, e Zagallo, tetracampeão mundial.

Foto: Portal 2014 - Marta, a rainha dos campos.

Foto: Portal 2014 – Marta, a rainha dos campos.

Os colorados sempre agradecerão a um alagoano, Adriano Gabiru, pelo seu título máximo, enquanto o atalaiense Aloísio Chulapa será lembrado pelos são-paulinos. São também alagoanos Dida, um dos maiores atacantes da história do Flamengo, e Peu, que esteve na conquista do título mundial dos rubro-negros.

Apesar de não serem alagoanos, outros ilustres jogadores deram alguns de seus primeiros passos nesta terra tão bela: Dida começou sua carreira no ASA, enquanto Deco jogou no Corinthians Alagoano e no CSA, antes de ir jogar no Benfica.

O futebol de Alagoas foi manchete algumas vezes ao protagonizar grandes zebras. Foi assim na Copa do Brasil de 1992, quando o CSA eliminou o Vasco, e também, 17 anos depois, quando os azulinos eliminaram o Santos. Desde o confronto de 2002, os palmeirenses também não podem ouvir o nome ASA. 

Destaque ainda foi a campanha do Corinthians Alagoano na Copa do Brasil de 2008, eliminando Atlético Paranaense e Juventude e alcançando as quartas de final da competição. Houve ainda algumas finais de Taça Brasil e a Copa do Nordeste deste ano, quando o ASA alcançou o vice-campeonato.

Nada, porém, poderia ter sido mais consagrador que a noite de 08 de dezembro de 1999. Em jogo, um duelo Brasil x Argentina decidiria a terceira competição mais importante da América (na época), a Copa Conmebol. Mais do que isso, estavam frente a frente o Talleres, quinto colocado no Apertura que acabaria dias depois, e o CSA (Centro Sportivo Alagoano), que havia sido apenas o 23º colocado na série C do campeonato nacional.

A equipe alagoana tinha se classificado para a competição após a quarta colocação na Copa do Nordeste daquele ano e a desistência de Vitória, Bahia e Sport. Representariam ainda o país na competição as equipes do Paraná, São Raimundo e Vila Nova. Nos outros países, os uruguaios preferiram não participar, enquanto os argentinos foram representados também pelo Rosário Central. 

Como alagoano e torcedor do CSA, eu estava empolgado com a campanha do time e a chance de ver jogos da equipe na TV, já que alguns jogos foram televisionados, se não me engano quando o time jogava fora de casa.

A estreia foi contra o Vila Nova, uma vitória por 2×0, gols de Missinho e Mazinho. Na volta, os goianos marcaram dois gols e a decisão foi pros pênaltis: 4×3 CSA, após o pênalti perdido por Kal Baiano.

Iríamos jogar na Venezuela contra o Estudiantes de Mérida, tradicional equipe local. Seria a primeira viagem internacional da equipe alagoana. Vários jogadores tiveram que tirar passaporte de última hora, mas todo o grupo acabou conseguindo viajar. 

Um 0x0 feio no primeiro jogo foi suficiente para nos dar a vantagem, e no Rei Pelé não teve para estrangeiro nenhum: 3×1, em jogo de  seis expulsões (quatro venezuelanas e duas brasileiras). Um gol de Mimi e dois gols de Márcio Pereira sacramentaram a classificação da equipe, pela primeira vez, para uma semifinal de competição internacional.

Nas semifinais, um duelo norte x nordeste decidiria a equipe brasileira na decisão. No Vivaldão, o CSA perdeu o primeiro jogo por 1×0, gol de Marcos Luiz (pênalti), já na etapa final. Na volta, emoção pura…

Na época, eu tinha 15 anos e estava escutando o jogo pelo radinho, trancado no meu quarto. No primeiro tempo, Fábio Magrão colocou a equipe azulina na frente logo aos doze minutos, mas Marcelo Araxá empatou cerca de oito minutos depois. Atacamos o jogo todo, mas a bola parecia não querer entrar. A esperança estava no fim…

Aí veio o meu “maior momento no rádio”… Eram 46 minutos do segundo tempo e o CSA tinha uma falta. Williams deu uma cavadinha para a entrada da grande área e a bola foi cabeceada por Fábio Magrão, de maneira fraca, para as mãos do goleiro Naílton. O goleiro amazonense, porém, atrapalhou-se e soltou a bola nos pés de Jivago. Era o êxtase das quase 28 mil pessoas presentes no Rei Pelé, e um garoto, que quase quebrava o radinho de emoção, teve o mesmo sentimento em seu quarto.

Não importavam mais os pênaltis, a vitória já era nossa. O destino estava a nosso favor, e tal fato foi confirmado na segunda cobrança do São Raimundo: Veloso pegou o pênalti batido por Haroldo e os azulinos fizeram 5×3. Era a primeira vez que um time do nordeste representaria o Brasil em uma final de competição sul-americana.

O Talleres era favoritíssimo, pois na época era, no futebol local, um time ascendente e que brigava pelas primeiras posições na tabela. Em 2001, por exemplo, a equipe acabou na frente do Vélez e eliminou São Paulo e Penarol na Copa Mercosul, sendo eliminado apenas pelo Grêmio.

Na primeira partida, porém, o sonho esteve mais perto do que nunca. Lembro que o jogo começou mais cedo que o normal (20h) e eu não estava em casa. Voltando para o meu radinho, ouço amigos dizendo que estava 4×1 para nós. Suarez foi expulso e era a chance de Alagoas matar o jogo, mas, ao contrário, Astudillo diminuiu com um golaço aos 41 do segundo tempo e deixou o confronto aberto. Mesmo assim, a atuação havia sido de gala, talvez a maior da história de um time alagoano e o título estava perto.

Antes do jogo final, já em Córdoba, representantes argentinos fingiram interesse em jogadores do CSA, e o time alagoano não pode treinar no estádio da final, o Chateau Carreras. 

Em 08 de dezembro de 1999, talvez o dia mais importante da história do futebol alagoano, um nome ajudou a decidir o jogo: Ricardo Grance, árbitro paraguaio, propositalmente ou não, fez uma das piores arbitragens em finais que já se viu na história do futebol. Nos lances cruciais da partida, ele não teve (tanta) interferência, mas sua atuação foi extremamente caseira, invertendo faltas a todo o momento e irritando os jogadores alagoanos.

Já aos quatro minutos, Fábio Magrão foi expulso por reclamação após falta simples e protesto demasiado do time alagoano. Veloso tinha uma atuação magnífica e fechava o gol. Ricardo Silva, porém, conseguiu abrir o placar ainda no primeiro tempo, aos 39 minutos. Íamos para o intervalo ainda campeões, mas o segundo tempo seria uma grande prova de fogo.

Foto: Blog do Marlon Araújo - A expulsão de Fábio Magrão prejudicou os azulinos

Foto: Blog do Marlon Araújo – A expulsão de Fábio Magrão prejudicou os azulinos

Chega o segundo tempo e Veloso continuava salvando o time. Um pênalti cometido de forma infantil foi perdido pela equipe argentina, e faltavam 15 minutos para realizar o sonho. Porém, Gigena, de cabeça, fazia 2×0 para o Talleres aos 30 minutos e empatava o confronto.

No último lance da partida, Julián Maidana dividiu com Veloso e ficou no chão, por cima do goleiro brasileiro. A bola saiu da grande área e novo cruzamento encontrou a cabeça do argentino, que fez o gol do título argentino.

Em minha casa, lembro-me do que ouvi e do que não ouvi. O narrador da partida simplesmente se calou, e o som ambiente de fundo, com a torcida argentina gritando, dizia tudo. O mesmo filme da semifinal, um gol no último minuto após confusão na área, tinha agora um final diferente. O CSA estava morto e o sonho tinha virado pesadelo.

Julian Maidana fez o gol do Talleres

Foto: Reprodução – Julian Maidana fez o gol do Talleres

Missinho acabou como artilheiro da competição, mas nada disso mais importava. O jogo era aquele, o dia era aquele, a chance foi aquela, e talvez nunca mais se repita. Alagoas era vice-campeã da Copa Conmebol, mas podia ter sido bem melhor. Lembro de Alex, ex-jogador do Corinthians, dizer uma frase que me marcou após o primeiro jogo da final da Libertadores do ano passado, algo como: “A gente tem a chance da nossa vida, e se deixar escapar vamos nos arrepender demais de não ter ganho”. Heróis não precisam se arrepender de nada, mas que o final daquela noite poderia ser diferente, ah, poderia!

 

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Sergio Rocha é torcedor do Madureira e sempre teve o sonho de escrever sobre esportes em geral, embora tenha optado pela carreira de engenheiro civil. No "currículo", cadernos recheados de resultados esportivos e agendas da década de 90, quando antes da internet acessava rádios de diversos locais do país buscando os resultados esportivos do Acre à Costa Rica. Além de fanático por futebol, é fanático por praticamente todos os esportes, e no tempo livre que sobra sempre busca os últimos resultados esportivos do PGA Tour ou dos futures da ATP. Além disso, coleciona quadrinhos da Disney e é louco por astronomia.