Quando se joga para empatar, a derrota é quase certa

Finalizados os jogos de ida das oitavas de final da Taça Libertadores, algumas conclusões podem ser tiradas observando a maneira como as equipes jogaram e buscaram o resultado. De uma forma geral, TODOS os times que buscaram o empate, jogando de forma covarde e defensiva, se deram mal. O sucesso de alguns times que jogaram fora de casa passou pela mudança de postura da equipe em algum momento da partida.

Comecemos pela semana passada. Newell’s Old Boys e Vélez Sarsfield fizeram uma partida bem disputada, com o time da casa dominando o primeiro tempo e acertando duas bolas na trave do goleiro Sosa. Na segunda etapa, mesmo desfalcados, os fortineros fizeram um jogo mais aberto, sendo premiados com um gol de Allione e a vitória.

No dia seguinte, apoiado pelos 3.400 metros de altitude da cidade de Cuzco, o Real Garcilaso dominou toda a partida contra o Nacional, do Uruguai, saindo com a vitória por 1×0, que foi pouco pelo tanto que a equipe peruana atacou durante os 90 minutos. Poucos podem se lembrar de algum chute a gol dado pelos uruguaios durante toda a partida.

Na terça-feira, o Tigre, na base da raça e apoiado pela sua torcida, venceu uma das melhores equipes da primeira fase, o Olimpia. A equipe argentina abriu 2×0 no marcador, mas um golaço de falta de Miranda aos 32 minutos do segundo tempo ainda dá esperanças à equipe paraguaia, que fez uma partida pífia, sem criatividade alguma, bem aquém de sua proposta de jogo nas partidas da primeira fase.

O Palmeiras iria até Tijuana para “perder de pouco”, conforme se via, ouvia e lia em todas as mídias. Foi, porém, para ganhar. Fez uma partida grandiosa, empatou sem gols e ainda foi prejudicado por um pênalti não marcado pelo árbitro. 

A equipe alviverde conseguiu um bom resultado porque teve postura de vencedor durante o jogo, não ligando para o gramado ou para a torcida, como muitos (ou todos) esperavam que fizesse. Quando se joga para vencer, na maioria dos casos consegue-se ao menos o empate, e foi isso que o time de Gilson Kleina trouxe para a partida de volta.

Foto: AP - Palmeiras lutou muito contra o Tijuana

Foto: AP – Palmeiras lutou muito contra o Tijuana

Na quarta, o Corinthians viveu situação distinta. Contra um dos piores Boca Juniors que já se viu em Libertadores, a equipe paulista parecia poder ganhar a partida na hora em que quisesse. Porém, precisava querer, e o time alvinegro não conjugou esse verbo em nenhum momento da partida, acomodado com um péssimo 0x0. Acabou tomando um gol e até tomou o segundo, anulado corretamente pela arbitragem.

Foto: Juan Mabromata/AFP - Jogadores do Boca comemoram gol contra o Corinthians

Foto: Juan Mabromata/AFP – Jogadores do Boca comemoram gol contra o Corinthians

Pouco antes, Grêmio e Independiente Santa Fé, último invicto da competição, fizeram um jogo interessante. A equipe colombiana, que se destacou pelo bom setor ofensivo durante a primeira fase, quis cozinhar o jogo no primeiro tempo, e acabou tomando um gol de Vargas. No segundo tempo, a expulsão de Cris e o gol de empate poderiam mudar completamente o jogo. Porém, os Cardeais se acomodaram com o empate e foram castigados com um golaço de Fernando, que deixou os gaúchos em vantagem no confronto.

Foto:AFP - Fernando (d) e Vargas (e) marcaram os gols da vitória do Grêmio

Foto:AFP – Fernando (d) e Vargas (e) marcaram os gols da vitória do Grêmio

Ontem, nos últimos confrontos de ida, o São Paulo entrou em campo com postura vencedora, e, não fossem os gols perdidos por Ademilson, poderia ter feito três ou quatro ainda no primeiro tempo. No final da etapa, porém, Lúcio foi expulso de maneira boba, e o Galo, que até o momento estava acovardado em campo, sem marcar ou criar nada, empatou a partida em cabeçada de Ronaldinho.

Foto: Leandro Martins / Agência Estado - Expulsão de Lúcio pode ter mudado destino do São Paulo na competição

Foto: Leandro Martins / Agência Estado – Expulsão de Lúcio pode ter mudado destino do São Paulo na competição

Na segunda etapa, o time mineiro cozinhou a partida, porém atento para a chance da vitória, e ela veio em um belo gol de Diego Tardelli, que praticamente definiu o confronto.

Para finalizar, Emelec e Fluminense se enfrentaram em Guayaquil. Como em todo o Campeonato Brasileiro do ano passado, os cariocas se seguraram na defesa, contando com boa atuação de Diego Cavalieri para garantir ao menos um empate fora de casa. Os brasileiros quase chegaram ao seu objetivo, mas no fim do jogo levaram um gol de pênalti da boa equipe equatoriana e terão que jogar mais do que jogaram na primeira fase se quiserem passar às quartas de final. Mesmo com os desfalques, uma postura mais ofensiva poderia ter dado um resultado bem melhor à equipe carioca.

Foto:Rodrigo Buendia/ AFP - Jogadores do Emelec comemoram gol contra o Fluminense

Foto:Rodrigo Buendia/ AFP – Jogadores do Emelec comemoram gol contra o Fluminense

Enfim, a percepção que ficou desta rodada foi essa: todos os times que jogaram para empatar, perderam, e todos que buscaram alguma coisa, conseguiram. É a famosa frase: “O medo de perder tira a vontade de ganhar”.

É inadmissível que o campeão do mundo, ao invés de buscar gols, prefira ficar discutindo com os argentinos, ou que Emerson, tão decisivo ano passado, queira buscar provocar mais seus adversários, dando canetas, ao invés de finalizar a gol. Essa postura de “poder vencer quando quiser” já tinha resultado em inúmeros empates em partidas com vitória certa no Campeonato Paulista para o Corinthians, mas na Libertadores foi a primeira vez.

Não dá para entender também o porquê de uma equipe como o Fluminense, recheada de destaques individuais, ficar 90 minutos plantada na defesa contra uma equipe (boa, repito, mas não excelente) do Equador.

Não dá para entender, ainda, como alguém se defende quase o jogo todo contra o Tigre, ou passa 90 minutos se defendendo contra o Garcilaso (mesmo com a altitude). Ora, se você não busca nada, aí que não conseguirá nada mesmo.

O próprio Atlético, o “mais classificado dos times”, teve uma atitude extremamente covarde durante os primeiros 30 ou 35 minutos do duelo no Morumbi, e poderia ter sido eliminado ontem, não fossem diversos fatores, como os gols perdidos ou a bobagem de um zagueiro experiente. Que fique claro que não foi a atitude de partir para cima do tricolor que resultou na derrota, muito pelo contrário, resultaria em uma grande vitória. 

O grande exemplo da rodada foi dado pelo Palmeiras. Todos falavam que jogar em um campo society quase nos Estados Unidos seria difícil. E seria… mas a postura alviverde surpreendeu os mexicanos, e mesmo o resultado não sendo ótimo (não considero o 0x0 fora de casa tão bom, porque nenhum empate classifica diretamente a equipe no jogo de volta), diante das circunstâncias do confronto foi bastante animador e torna a equipe paulista favorita no confronto.

Nas próximas semanas, teremos as partidas de volta, e um filme já vem à cabeça: Garcilaso, Tijuana, Emelec e Grêmio ficando “com a bunda no chão”, como diria Tite. Tigre e Boca tomando a mesma posição, com intensa catimba em toda a partida. Atlético e Vélez, apesar da vantagem, jogando para empatar, e acabando passando sufoco em partidas que poderiam ser fáceis. 

Vamos supor, amigos, que o Tijuana, ao invés de manter 11 jogadores atrás, faça um gol contra o Palmeiras no primeiro tempo, ou o Boca contra o Corinthians, ou ainda o Grêmio, Garcilaso ou Emelec façam o mesmo. Tudo muda, a outra equipe precisaria correr atrás de dois ou três gols e o confronto poderia praticamente ser decidido no primeiro tempo.

Como esperar, porém, ousadia dos técnicos e jogadores de hoje? Difícil, muito difícil.

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Sergio Rocha é torcedor do Madureira e sempre teve o sonho de escrever sobre esportes em geral, embora tenha optado pela carreira de engenheiro civil. No "currículo", cadernos recheados de resultados esportivos e agendas da década de 90, quando antes da internet acessava rádios de diversos locais do país buscando os resultados esportivos do Acre à Costa Rica. Além de fanático por futebol, é fanático por praticamente todos os esportes, e no tempo livre que sobra sempre busca os últimos resultados esportivos do PGA Tour ou dos futures da ATP. Além disso, coleciona quadrinhos da Disney e é louco por astronomia.