Real Madrid 2×0 Borussia Dortmund: Auri-negros na final e com méritos

  • por João Vitor Poppi
  • 8 Anos atrás

José Mourinho fez duas mudanças em relação ao primeiro jogo. Essien voltou à lateral direita para Sergio Ramos jogar no centro da zaga, com Pepe sendo sacado dos onze titulares. O técnico português sabia que os botes dos beques precisavam ser rápidos e certeiros,. A segunda mudança foi a mais notada: Modric na vaga de Khedira. Essa troca enalteceu o futebol praticado por Gundogan, nos 4×1 em Signal Iduna Park.

A intenção do treinador merengue com o croata iniciando a partida era colocar maior velocidade na transição ofensiva do time e combater a qualidade de Gundogan, que minou as forças do meio campo madrilenho nos primeiros noventa minutos do duelo. Modric tem dinâmica, boa velocidade e sabe marcar abafando o adversário, características semelhantes às que o meia alemão possui.

O Real Madrid começou melhor, jogando com as linhas defensiva e de meio-campo adiantadas, para, além de pressionar, roubar a bola no campo ofensivo, mais próximo do gol adversário. A vocação ofensiva conseguiu trazer a torcida para ”dentro” de campo e criar um ambiente propicio à pressão.

Higuaín e Ozil se deslocavam bastante pelo lado direito. Tudo para abrir espaço pela faixa central e Di Maria e Ronaldo penetrarem em diagonal (dos lados para dentro). Além disso, Modric teria mais facilidade para vir de trás e ter a opção do chute de frente para o gol. Várias chances foram criadas com essa estratégia, mas todas as finalizações foram bloqueadas pela forte zaga auri-negra. 

Com 13 minutos de jogo, Gotze se machucou. O camisa dez deu lugar a Groskreutz, que atuou pelo flanco esquerdo. Kuba continuou pela direita e Reus jogou por dentro, próximo a Lewandowski. O time treinado por J.Klopp se desenhou com praticamente duas linhas de quatro. A troca forçada fez bem à marcação do clube alemão. Groskreutz bem aberto pela esquerda, como um auxiliar de lateral nos momentos de pressão, ficou próximo do lateral Schmelzer e diminuiu os espaços encontrados naquele setor, onde ocorria intensa movimentação dos donos da casa.

O meio campo espanhol foi superior, em boa parte dos primeiros 45 minutos, pois com a marcação adiantada os dois volantes puderam ocupar o campo ofensivo com maior frequência. Resultado disso foi que Xabi Alonso não errou passes como em Gelsenkirchen e Modric fez fluir a distribuição na meia cancha.

Lado direito impulsionou as melhores chances do Rela no primeiro tempo

Lado direito impulsionou as melhores chances do Real no primeiro tempo


As marcações pareciam não se encaixar no centro de campo, com Gundogan (pela direita) e Modric (pela esquerda) em lados opostos, muitas vezes encontrando campo para irem à frente. Vantagem para o meia dos Blancos, que, com seu time inclinado para o ataque, teve mais oportunidades de jogar com a bola no pé. 

Apenas aos 21 minutos o BVB construiu seu primeiro contra-ataque. Não resultou em gol, mas foi elaborado da maneira correta: pela direita e com troca de passes objetivas. O momento pedia essa jogada. E se explica. O Real para conseguir colocar seu plano, de pressionar o adversário, em ação, precisou adiantar os atletas que jogam abertos na linha de três meio campistas, no 4-2-3-1. Ronaldo (esquerda) e Di Maria (direita) visivelmente ficavam à frente de Ozil (meia central na linha de três), como pontas. O argentino voltava para recompor o lado direito, que contando com as frequentes movimentações de Ozil e Higuain por ali e com o bom posicionamento do lateral Essien, ficava bem protegido. O lado esquerdo sentiu a povoação pelo flanco oposto. Cristiano não estava cem por cento fisicamente e não voltava com regularidade para marcar. Já Coentrão, lateral esquerdo, não é forte na marcação. Sobravam espaços entre os dois portugueses, muito também porque Modric usava o corredor direito para se deslocar. Por todo esse jogo de posicionamento e movimentação, o Dortmund errou no momento de atacar, pois escolheu o lado direito do Real, o lado congestionado. E errou mais ainda em não fazer inversões com a bola, o que poderia criar reais chances de gol.

Ozil, Higuaín e Cristiano Ronaldo desperdiçaram chances de gol, frente a frente com Weidenfeller. O tempo foi passando e o ímpeto do time mandante diminuindo. A partir dos 25 minutos, o Borussia Dortmund conseguiu ganhar ”jardas” e adiantar o time trocando passes. Não sofreu mais pressão (propriamente dita). Pressão essa que nunca foi sufocante, esmagadora e com intensidade alucinante. Foi pressão com posse de bola, presença ofensiva e bons momentos de movimentação, que gerou três chances de gol. É de se elogiar que mesmo quando estava sendo atacado e sem saída pro jogo (que é o inverso da filosofia de jogo do time), o BVB foi paciente e seguro, não se desesperou. Isso foi um dos fatores para o time conseguir equilibrar o jogo.

Com o jogo estabilizado, faltava para o time alemão acertar a saída pro jogo. Existiam sérias dificuldades para ocorrer ultrapassagens, pois o passe longo e aéreo, que foge das características de toque de bola envolvente do time, era feito em excesso. O primeiro tempo não trouxe mais emoção ao jogo, terminou em igualdade, mas abriu caminho para uma segunda etapa eletrizante.

O Dortmund voltou para os 45 minutos finais ciente do que precisava para melhorar, mais encorpado e ousado. O Madrid continuou no ritmo baixo do fim da primeira etapa e foi engolido pelo adversário. Jurgen Klopp mostrou que sabe arrumar seu time no vestiário. O cenário de erro tanto na saída de bola, quanto na escolha da maneira de construir as jogadas ofensivas foi consertado. Com toque de bola de pé em pé, do centro para os lados (principalmente o direito), o Borussia chegava com volume e força na frente. Não mais contragolpeava, agora tinha contundência para tomar a iniciativa ofensiva. 

Lewandowski perdeu uma oportunidade de gol, livre, dentro da grande área e fez o travessão tremer após uma bomba, cara a cara com Diego López. Jogadas construídas com rápida troca de passes e tabela pelos flancos, respectivamente.

Vendo que seu time estava próximo de levar um gol, Mourinho fez alterações. Tirou Coentrão e Higuaín para entrada de Kaká e Benzema, aos 11 minutos do segundo tempo. Com as mexidas, Essien ficou mais preso pela direita, Sergio Ramos saindo para combater e fazer a saída de bola pela esquerda e Di María passou a ser um ala/ponta pelo lado esquerdo. Ozil foi deslocado para a meia direita, Kaká ficou centralizado e Ronaldo, com a constante presença ofensiva de Di María por aquele lado, atuou como um atacante pela esquerda, para auxiliar Benzema. Mais tarde o técnico bicampeão da UCL pôs Khedira no lugar de Xabi Alonso.

2 tempo

Para cada defensor Mourinho colocou um jogador ofensivo. No abafa, conquistou dois gols e quase reverteu o placar


Após as alterações o Real conseguiu voltar ao campo ofensivo, mas, sem espaço, o toque em profundidade não produzia. A produção ofensiva do time de Madrid se resumia ao toque de lado para alçar bola na área. Sem perigo ao gol de Weidenfeller. O Borussia, com o passar do tempo e o adversário partindo desesperadamente para o ataque, começou a se postar no campo defensivo e voltar a apostar nos contra-ataques. Compactado e com rápida saída através de Gundogan, o time visitante continuava mais perigoso.

Quando tudo parecia definido, veio o gol madrilenho. Aos 37 minutos, após impedimento do BVB e rápida reposição, Kaká ganha pelo meio, próximo a área ofensiva, tabela com Benzema e rola para Ozil aberto pela direita. Benzema dentro da pequena área só completa a assistência do alemão. A pressão através de cruzamentos, ganhos de rebote e passes pelo meio resultou no segundo gol, cinco minutos depois. Benzema ganha rebote de escanteio e rola para Sergio Ramos soltar uma bomba. 2×0 Real. 

A remontada, que durante o prosseguir do jogo pareceu ”impossível” de ocorrer, ficou próxima. Mais do que Mourinho esperava, àquela altura do jogo. Muito mais do que Klopp idealizou também. Foi algo inesperado. A pressão e o abafa sofrido na reta final do jogo foram normais, o ”medo” de ver a merecida presença na final em Wembley escapar em alguns minutos também é normal, ainda mais para um time tão novo como o Dortmund. Mas os dois gols sofridos não foram normais. A torcida mandante inflamou o Santiago Brenabéu e os jogadores acreditaram no terceiro tento. Mas tudo voltou ao normal nos cinco minutos de acréscimos e mais uma vez se viu um Dortmund sabido do que faz, confiante e corajoso, que segurou a bola no ataque e tentou atacar o adversário, entre os gritos e gestos do seu excelente treinador para o time voltar a defesa. Nessa altura do jogo, Dortmund já contava com Felipe Santana e Kehl em campo para segurar o resultado.

Não importa se o Bayern irá derrotar o Barcelona mais uma vez e chegar na final com uma moral sem precedentes, ou então, que o time catalão irá protagonizar uma das maiores viradas da história do futebol. Não existe medo caso Gotze não jogue a final. O time que virou o grupo da morte de cabeça para baixo, que silenciou o bom Shakhtar Donestk e se classificou para a semifinal com uma virada nos acréscimos, já provou que é capaz de fazer o impossível. Hoje, impossível é duvidar do Borussia Dortmund!

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Acadêmico de Jornalismo. Analista Tático. Redator na DPF e na Vavel Brasil.