Sobre Torres, números e máscaras

  • por Henrique Negrini
  • 8 Anos atrás

Ao abrir o placar na final da Europa League, na última quarta-feira, Fernando Torres alcançou os 22 gols na temporada, sua melhor marca desde que chegou ao Chelsea na temporada 2010/11. Com este número, o centroavante superou outros goleadores como Agüero, Tévez, Rooney, Gomez, HiguaÍn, Benzema, Villa e Balotelli na quantia de gols marcados na temporada 2012/13. Somando aos gols marcados, o espanhol conquistou mais um título pelo Chelsea e é atual detentor dos títulos da Europa League, Liga dos Campeões, Eurocopa e Copa do Mundo. À primeira vista, parece que Fernando Torres, o herói mascarado, o Zorro da capital inglesa, vem recuperando o bom futebol, não é verdade? É bom checar os fatos.

Todos aprendemos na escola – ou deveríamos ter aprendido – que estatísticas sem contexto não costumam significar muito e este é o caso aqui. Torres, de fato, marcou 23 gols, mas o fez em 64 jogos; uma média de 0.36 gols por jogo. Como é possível ver na tabela 1, os atacantes supracitados marcaram menos gols, mas também jogaram muito menos que Torres, o que confere a eles uma média melhor do que a do centroavante do Chelsea. Se colocarmos Messi e Ronaldo na conversa, então, a coisa fica feia para o lado de Fernandinho.

ARTILHEIROS

Novamente, precisamos ir mais fundo aos números e dissecar a performance de Torres na temporada. O Chelsea jogou todos os torneios possíveis esse ano, e, se analisarmos o desempenho de Fernando Torres por competição, veremos resultados bastante distintos. É inegável que o espanhol foi muito importante para o Chelsea na caminhada rumo ao título da Europa League, marcando seis gols em nove jogos; no entanto, isto não apaga seu pífio desempenho no campeonato inglês, onde marcou apenas oito gols em 36 jogos.

TORRES MÁSCARA

Fernando Torres não é, de maneira alguma, um mau atacante; há algum tempo também não lembra aquele jogador dos tempos de Liverpool – quando era um dos goleadores mais mortais do planeta bola –, todavia as grandes dificuldades enfrentadas quando da sua chegada ao Chelsea parecem ter ficado para trás. A grande questão é que Torres é mais um caso de uma série de jogadores que são envolvidos em transferências muito caras e tem dificuldade para atingir as expectativas trazidas por essas transações.

El Niño custou 50 milhões de libras aos cofres do Chelsea. É difícil quantificar o que um jogador precisa fazer para justificar tal valor, mas é como diria o ditado “quanto maior o tombo, maior a queda”. A título de comparação, Robin van Persie custou pouco mais da metade ao Manchester United e, apenas no campeonato inglês, superou os gols de Torres na temporada inteira, com 25. Fernando Torres ainda é um jogador útil, como provado pelos seus 23 gols marcados na temporada, mesmo tendo de dividir a atenção com outros atacantes, como o senegalês Demba Ba – contratado ao Newcastle na janela de inverno –, mas é como se Fernando jogasse com uma etiqueta no pescoço e nela fosse possível ler, mesmo à distância, “50 milhões de libras.”

Em tempos de futebol moderno, de sheiks, grandes empresários e consórcios injetando muitos dólares, euros e libras nos clubes, os orçamentos crescem cada vez mais e os jogadores gozam cada vez mais de salários astronômicos. Contudo, em algumas ocasiões o tiro sai pela culatra, é o caso de Fernando Torres, uma vítima do mercado inflacionado e da qualidade de seu próprio futebol, elementos que combinados criaram expectativas que ele não foi capaz de corresponder.

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Profundo conhecedor do esporte mais popular do mundo. Formado em Relações Internacionais, mas apaixonado por futebol, acompanha de perto futebol europeu e brasileiro, com destaque para as ligas Inglesa e Alemã. Participa do projeto DPF como revisor, movimentando as pautas e eventualmente presenteando os leitores com seus belos textos. Barbado, irônico e bravateiro, entende que futebol se discute no bar com um copo de cerveja na mão e muita descontração.