Teatro da Bola

  • por Ordep Jose Trindade Serra
  • 8 Anos atrás

601867_576039542427015_1342881414_n

Jorge Luis Borges, grande apreciador dos Western, dizia que no mundo contemporâneo os filmes de faroeste se tornaram o refúgio do épico. Não lhe tiro a razão, mas faço uma ressalva: o bang-bang não é o único domínio onde hoje se pode sentir um sabor de epopeia. O futebol também nos brinda esta fruição. Nem sempre o faz, admito, mas é certo que em ocasiões especiais ele nos arrebata assim. Estranho que o grande argentino não se tenha lembrado do esporte preferido de seu povo, das grandes batalhas futebolísticas em que os atletas de sua terra já se empenharam eletrizando a nação – com ajuda, até, de la mano de Diós.

Não exagero, caros leitores: há partidas que me fazem recordar poemas heroicos. Na última semifinal em que se confrontaram o Bayern de Munique e o Barcelona lembrei-me do Segundo Canto da Eneida (o Canto em que Virgílio descreve a queda de Troia) e também de arrepiantes momentos homéricos, a exemplo do episódio em que o poeta mostra o exército aqueu em desbarato e o desânimo de grandes guerreiros abandonados pelos deuses, quando o desfavor do Supremo lhes tira a força.

Confesso: foi doloroso ver o magnífico time catalão, no segundo tempo, atordoado e desarvorado, perdido em campo, querendo reagir e impotente, estrangulado por um adversário implacável. Sofri com isso.

Mas repito: não sou exagerado. Minha reação melancólica nem chegou aos pés do sentimento de um amigo meu, torcedor apaixonado do Barça, que encontrei delirando com outros doentes por futebol num barzinho da minha cidade. Daqui a pouco vou contar-lhes como foi a conversa. 

Antes, permitam-me um pequeno comentário, à guisa de introdução. Se as grandes partidas lembram epopeias, certos encontros de torcedores têm gosto de teatro. Esse de que vou falar me trouxe à memória uma cena do Rei Lear – se não me engano, a sexta do Terceiro Ato. Nela dialogam três doidos em diferentes graus de loucura. (Há também um personagem sadio, pelo menos tanto quanto se pode ser numa situação dessas: o prestimoso Kent, razoavelmente atordoado.)

Recordem-se: o rei, mergulhado nas profundezas do delírio, tem a companhia do bobo, que é um maluco profissional, rico da sabedoria alucinada dos clowns de Shakespeare. Junta-se a eles o endiabrado Tom – na verdade, o nobre Edgar – que emerge aos poucos da sua loucura fingida, e ainda assim furiosa. (Creiam, amigos, fingir-se de louco é uma temeridade: já ouvi falar de atores que depois de ter representado por certo tempo um papel de maluco tiveram de ser atendidos por psiquiatras. Eu, por mim, prefiro me fingir de são.) 


Mas vamos ao assunto. No episódio que lhes vou narrar, além de personagens variavelmente alucinados, havia uma assistência digna deles, um coro de bêbados. Assim que entrei no barzinho do Espanha vi meu amigo Jiló em pose trágica, mirando fixamente uma taça de vinho (Toro Loco) que agitava de vez em quando. A seu lado estava o seu irmão Chico Teoria, todo risonho. Jiló me cumprimentou com uma pergunta:

– Você viu a calamidade? 

Eu pensei que ele se referia a alguma sessão do Congresso Nacional, mas Chico esclareceu: 

– Ele está se referindo ao jogo do Barça com o timaço de Munique. Não se conforma com a derrota. Como você bem sabe, meu irmão é boa gente, mas não raciocina direito. Eu já lhe disse que devia estar alegre, comemorando essa gloriosa derrota. Sucede, porém, que ele foi vítima de uma injustiça genética. Todos os genes intelectuais disponíveis no seio de nossa mãe, a herança dela e a do velho, ficaram para mim. Não tenho culpa, evidentemente. Tento compensar, faço o que posso para iluminá-lo. A natureza é que não permite. 

Confessei a Chico que eu também não tinha entendido seu raciocínio, não percebia porque Jiló deveria comemorar alegremente a tunda sofrida por seu time. Ele esclareceu com paciência didática:

– Todas as equipes extraordinárias passaram por esse momento trágico, por uma derrota sinistra. É uma consagração.

O coro de bêbados concordou com aplausos e gemidos. Chico prosseguiu:

– Foi bom para o Barça perder feio. Evitou o ciúme dos deuses, que não admitem glória humana sem tropeço. Logo os culés darão a volta por cima.

– Sim, o Messi vai recuperar-se – eu ponderei. 

– Não é só isso. Eles reforçarão o time, ficarão ainda melhores. Já estão quase levando o Neymar, não é? E seus olheiros correm o mundo atrás de outros talentos. Não duvido de que levem também o nosso Laudenor.

A assistência reagiu a essas palavras que nem um coro grego nos momentos de máxima comoção. Formou-se um pequeno tumulto, vozes indignadas protestaram:

– Ah, isso não! De jeito nenhum, never, jamé de São Nunca! Pode escrever que não permitiremos. 

– Eles que se contenham, esses gringos insaciáveis. Tudo tem limite, pô. 

– Laudenor é patrimônio nosso, inalienável.

Esclareço aos leitores de mais longe: Laudenor, o Craque dos Crueiras, é uma estrela do nosso futebol de várzea, celebradíssimo em Salvador. De acordo com o antropólogo Jeferson Bacelar, nas canchas da periferia, nos bairros populares, nos campos improvisados da gente simples é que mora a alma do futebol. Só o preconceito e o descaso da mídia impedem de ver a grandeza dos embates que aí acontecem, o brilho dos astros de babas e peladas, jogos fantásticos que muitas vezes superam os espetáculos dos maiores estádios. No momento, o grande Laudenor é o super-astro da várzea baiana. Sua fama se espalha por toda esta capital, Cidade Alta e Cidade Baixa, repercutindo no Recôncavo, na Chapada e no Sertão. Entre suas façanhas celebradas em prosa e verso está, por exemplo, o lance de um gol inesquecível em que ele driblou até as traves adversárias. Compreensivelmente, seus fãs ardorosos não o querem longe. Nessa tarde eles chegaram ao ponto de ameaçar o dono do estabelecimento em que nos achávamos, por sinal um amigo querido de todos: segundo lhe disseram, se seus compatriotas levassem Laudenor ele perderia todos os fregueses. O Espanha saiu-se bem: disse que não tinha nada com isso, não é catalão, e sim castelhano da gema, torce pelo Real Madrid. Eu também fui intimado:

– Laudenor é seu parente, ou contraparente, não é? Você já se gabou aqui mesmo de que ele pertence ao ramo paraibano de sua família. Trate de impedir essa miséria.

428610_642268209132415_1314949837_n

Laudenor e Neymar: vão ou não para o Barça?

Prometi por Todos os Santos que me empenharia nisso: 

– Falarei com Graça, a mulher dele. Homem paraibano que se preza é que nem nós da Bahia, em casa tem sempre a última palavra: é “Sim, Senhora”, como sabem. E Graça não vai querer mudar-se para umaterra sem cuscuz. 

Com isso ficaram todos sossegados. Menos eu. Jiló aproveitou a deixa e me interpelou:

– Por falar em parente, você já telefonou para sua sobrinha de Barcelona? 

– Andrea? Ando com saudades dela, mas já faz um tempo que não nos falamos. 

– Esqueceu-se, coração de pedra? A pobre moça numa cidade desolada, certamente aos prantos, e você nem liga?

– Homem, deixe de lamúria! – protestei. – Barcelona continua linda e Andrea não liga para futebol. 

– Na certa ela é de outro ramo da família, um ramo futebolisticamente insensível – ponderou Chico. 

– Eu não diria isso. Ela é paulista de boa cepa. Seu pai, o meu cunhado Martinelli, é um palmeirense fervoroso. 

– Como foi que a filha dele saiu assim, indiferente à pelota? – Jiló quis saber.

– Cau é um homem inteligente e muito ético, educou seus filhos de acordo com o princípio da liberdade, respeita os pontos de vista e os gostos dos meninos. Além de Andrea, tem o filho do meio, o sábio Marcos, que é santista; a caçula, Cláudia, torce pelo São Paulo. E se casou com um corintiano.

Quando eu disse estas palavras um cavalheiro de calça branca e camisa verde se levantou de uma mesa próxima, abriu os braços de forma patética, deixou cair o copo de cerveja e me falou com expressão de horror, no mais puro sotaque da Mooca:

– Amigo, por favor, diga que é mentira! Uma barbaridade dessas não tem cabimento. Não posso crer que um digno palmeirense não saiba educar os filhos, deixe os meninos entregues a influências malignas. Assim é demais. A moça de Barcelona ainda passa, mas o rapaz atirado ao Peixe é de doer e a garota mais nova, como se não bastasse a intoxicação do pó-de-arroz, ainda se casa com um inimigo? 

Chico interferiu, tentando evitar a polêmica:

– Calma, Tom! Ele é escritor, trabalha demais com a imaginação.

– Percebo – disse o palmeirense indignado. – Na certa este pobre homem se dedica à ficção anticientífica. Deve tomar cuidado: com tantos absurdos, logo perderá os leitores. Vejam o que fez com a família paulista! Esse casamento que inventou… 

– Inventei coisa nenhuma, eles se casaram por amor. E vivem muito bem – garanti. 

– Quebrando pratos na cabeça um do outro, em certas partidas – disse Tom, com um riso de sarcasmo. 

– Nada disso! – protestei. – Cláudia e o afro-japa vivem aos beijos. 

Quando falei em afro-japa do Corinthians, Tom me olhou com ar de piedade e se voltou para o balcão:

– Espanha, este camarada não pode beber, não sirva mais nada a ele. Sou médico, sei o que estou dizendo. 

Ato contínuo: pagou e foi-se embora. Voltaram-se para mim muitos olhares de assombro e comiseração. O garçom arrebatou meu copo. 

Foi quando Chico interferiu de novo:

– Gente, chega deste assunto, tá na hora de pensar no futebol daqui, da Boa Terra. Em breve teremos um Ba-Vi decisivo. Deem seus palpites. 

Começou então o barabadá, com apostas, desafios e gozações que tumultuaram de vez o ambiente. Eu não quis me meter, despedi-me logo. Sou Bahia, mas minha mulher é Vitória. Não quero confusão.

———————————–

A Equipe Doentes por Futebol aproveita a oportunidade pra parabenizar o Interioranos, time formado por membros da comunidade Doentes por Futebol no Orkut e campeão da Copa Salvador de Futebol Society. TJ, LEKS!

Interioranos - Campeões da Copa Salvador de Futebol Society

Interioranos – Campeões da Copa Salvador de Futebol Society | Foto: Moacir Chamusca

Comentários

Graduado em Letras pela UNB, Mestre em Antropologia Social pela UNB e Doutor em Antropologia pela USP. Professor Associado do Departamento de Antropologia da FFCH / UFBA. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA; Prof. participante do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA. Membro da Associação Brasileira de Antropologia, da SBPC, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia. Membro fundador do Grupo de Pesquisa “Encruzilhada dos Saberes”. Fundador e Coordenador do Grupo Hermes de Pesquisa e Promoção Social e do Movimento Vozes de Salvador. Produção principal em Antropologia da Religião, Antropologia das Sociedades Clássicas, Etnobotânica, Teoria Antropológica. Tradutor de textos científicos e literários. Escritor premiado três vezes em concursos nacionais de literatura, com obras de ficção (conto, novela).