A Briga do Galo

  • por Ordep Jose Trindade Serra
  • 8 Anos atrás

Foi há muitos anos. Eu vinha de Brasília para Salvador, mas não tinha pressa. Resolvi fazer um rodeio, fui primeiro a Belo Horizonte. Lá cheguei de ônibus numa gostosa madrugada de domingo. Resolvi passar pelo menos um dia (ou dois) na cidade que sempre me atraiu e ainda me atrai. Eu a encontrei agitada, à espera de um grande acontecimento. O palco seria o Mineirão. Era imperdível o jogo: o clássico maior das Alterosas, um confronto entre Cruzeiro e Atlético. Cheguei cedo ao estádio. Por acaso, dirigi-me para os lado que tradicionalmente ocupa a torcida do Cruzeiro. 

Pensando bem, não foi puro acaso. Esta torcida tinha um atrativo poderoso: incluía uma fração muito interessante e bonita. O Cruzeiro era, na época, o clube brasileiro com mais torcedoras – digo torcedoras efetivas, dessas que frequentam estádio. Contava-se que o motivo era o goleiro Raul, com seu jeito de galã e sua camisa vistosa. Por causa dessa camisa os atleticanos o consideravam gay, ou pelo menos diziam isso: juravam que ele, assim vestido, era a encarnação de tudo quanto pode haver de mais gay no universo, a bicha máxima do planeta, senão da galáxia. Contradizendo a teoria atleticana, as mulheres assediavam o arqueiro famoso. Muitas passaram a curtir o futebol por sua causa. Hoje a camisa de Raul não causaria tamanha estranheza, possivelmente não teria aquele efeito paradoxal, de ímã do desejo das celestes mineiras e alvo da zombaria ciumenta dos atleticanos. Naquela altura, porém, ela era um fenômeno midiático, uma das coisa mais discutidas no Brasil. 

Essa discussão não me interessava. Sem pensar em camisas, naquele dia bendito sentei-me em meio à torcida do Cruzeiro, bem perto de um grupo alentado de fãs do Raul: um amável punhado de moças bonitas, joviais, muito animadas. Meu coração pendeu imediatamente para o clube delas, a equipe mágica que tinha Dirceu Lopes, Piazza, Tostão, Natal. 

Para falar a verdade, o motivo maior da minha ida ao Mineirão – e até do rodeio extravagante na minha viagem – foi o desejo de ver em ação o time tremendo que realizara um prodígio inacreditável, derrotando o Santos de Pelé por humilhantes seis a dois, em um jogo no qual chegou a fazer, acreditem, incalculáveis cinco a zero. A narração desse jogo soara a meus ouvidos santistas como um discurso furiosamente surreal, uma invenção digna do teatro do absurdo, um apocalipse alucinante recitado ao microfone – certamente numa taberna travestida de estádio – por um São João sacrílego em pleno desvario. Eu queria ver com meus próprios olhos se aqueles jogadores míticos existiam, se eram humanos, se por acaso não teriam chifres e rabos, ou, ao contrário, asas e halos combinando com suas camisas celestes. Fosse qual fosse a natureza da desaforada legião azul, eu queria que o Galo feroz me brindasse uma bela vingança. Todavia o destino, com uma força sutil, me levou ao lado oposto.

Não vi em campo demônios nem serafins, mas à minha volta, na assistência, havia figuras angelicais, doces diabas do céu num assanhamento encantador. Esqueci o desejo de vindita, o furor praiano. Antes mesmo que o jogo começasse, tornei-me cruzeirense desde criancinha. E em pouco tempo de partida me convenci de que o time blau era realmente extraordinário. A aguerrida equipe do Atlético mostrava, também, um futebol de primeira. Nem assim pôde resistir. Não me lembro do placar, mas saí do estádio com uma bela vitória do meu novo clube mineiro.

Hoje todos os meus amigos sabem da minha adesão apaixonada ao time azul. Por isso estranharam muito quando falei que agora estou torcendo pelo Galo na Libertadores. Justifiquei com bons argumentos:

– Em primeiro lugar, por injustas maquinações do destino, a Raposa celeste não está no páreo. O Atlético é hoje o único time brasileiro que sobrevive na tenebrosa competição. O Corinthians de minha mulher sucumbiu ao garfo sonoro do Amarilla, um assaltante que tornou intransponível a defesa do Boca com seu apito de rapina. (Triste fim terá ele se o atingirem todas as pragas que meu sobrinho afro-japa lhe roga todo o dia: até ao Capeta vai pedir asilo, no cárcere dos infernos, para fugir de tantas misérias).

– Não nego a desgraceira – constatou uma voz amarga me interrompendo: – Houve uma hecatombe dos clubes do Brasil. O Palmeiras foi podado, o Grêmio desagregado, o Flu afundou…

– Sim, caíram quase todos – continuei. – Pior ainda: sequer tive opções no meu leque de preferências. Meu Santos não entrou na festa. Nem ele, nem qualquer dos outros…

– Que outros?

– Falo dos meus times de coração. O Bahia já foi digno das melhores taças, mas hoje está órfão até de sua torcida, justamente indignada com os piratas que o enfeudaram. O Vasco se encontra numa fase em que naufraga em qualquer riacho, tão cedo não disputa uma Libertadores. O Inter vacilou. Nenhum dos meus clubes vai bem das pernas.

– Então só lhe resta chorar.

– De jeito nenhum. Eu sempre torço pelo futebol do Brasil. E a justiça me obriga a reconhecer que o Atlético Mineiro é hoje nosso melhor time, quiçá o bamba das Américas. Gente, admiro o bom futebol. Não posso, não consigo, negar essa admiração a uma equipe como a atleticana. Na Libertadores deste ano, desejo que ela ganhe a taça.

Filosofias e maldades à parte, torço pelo Atlético provisória mas sinceramente. No seu último jogo contra o Tijuana, sofri e vibrei, passando com seus adoradores da agonia à exultação. Até agora estou espantado com a dimensão dramática que tomou aquela partida. Eu esperava que o Galo se impusesse logo, mostrando sua força sempre multiplicada, quase irresistível no Independência. Mas no começo foi o Tijuana que prevaleceu, atuando como se fosse o dono do campo. Os craques atleticanos pareciam nervosos, assustados. O gol sofrido em um contra-ataque mortal foi um duro choque, inesperado, arrepiante, causando assombro. E a reação demorou. O empate num toque de Réver trouxe profundo alívio, mas não tranquilidade. De súbito me vi rezando para que a partida acabasse logo. E foi quando ela estava para terminar que se deu o espanto, o perigo máximo, o lance ameaçador que levou o Galo à beira do precipício. Nos descontos, aos quarenta e sete minutos do jogo, o pavor, o pânico, o pênalti. Quando soou o apito do chileno Polic, um silêncio funeral se abateu sobre o estádio. Mesmo de longe se podia sentir a geada que caía no coração dos torcedores, o frio do aço encostado à garganta do Galo. Na arquibancada, muitos mordiam os lábios, viravam as costas para não ver, torciam as mãos em desespero. Outros, mais corajosos, fixaram os olhos mudos no guerreiro do último bastião, guarda único da frágil esperança. E o sonho impossível aconteceu: com o pé esquerdo, numa iluminada acrobacia, Victor fez a defesa. Ainda vejo na fita o momento mágico: sobe aos céus um clamor estupendo, a multidão aplaude e chora: o Galo está vivo, o Galo canta!

O resto já se sabe: nos dias seguintes, nas maternidades mineiras, centenas de bebês receberam por primeiro brinde o nome do grande vencedor. Que continua, até hoje, ganhando xarás nas Alterosas. Atleticanos de todo o Brasil passaram a firmar suas promessas mais solenes jurando pelo Sagrado Pé de São Victor. Não duvido de que este bendito goleiro se torne tão adorado quanto Raul. Com qualquer camisa.

Sinceramente desejo que o Atlético siga em frente e voe alto na Libertadores. Espero que não precise mais de milagre, conquiste com tranquilidade a taça merecida por seu bom futebol. Torcerei por suas cores até a partida final desta malassombrada competição. Sei que ele terá adversários poderosos, mas aposto, caros hermanos, que nosso Galo ganha a briga.

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Graduado em Letras pela UNB, Mestre em Antropologia Social pela UNB e Doutor em Antropologia pela USP. Professor Associado do Departamento de Antropologia da FFCH / UFBA. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA; Prof. participante do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA. Membro da Associação Brasileira de Antropologia, da SBPC, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia. Membro fundador do Grupo de Pesquisa “Encruzilhada dos Saberes”. Fundador e Coordenador do Grupo Hermes de Pesquisa e Promoção Social e do Movimento Vozes de Salvador. Produção principal em Antropologia da Religião, Antropologia das Sociedades Clássicas, Etnobotânica, Teoria Antropológica. Tradutor de textos científicos e literários. Escritor premiado três vezes em concursos nacionais de literatura, com obras de ficção (conto, novela).