A Copa que Transborda

  • por Ordep Jose Trindade Serra
  • 8 Anos atrás

transborda

Muita coisa interessante tem acontecido nesta Copa das Confederações. Também nas quatro linhas, mas principalmente fora delas. Já no começo despontou a surpresa. Dentro do estádio, sim. Nas arquibancadas .

E nas ruas sucedeu-se o mais espantoso.

A surpresa inaugural a que me referi desabrochou na arena de Brasília, logo no primeiro jogo, na cerimônia de abertura: uma estrondosa, esplêndida vaia, brindando a Presidente da República e o Poderoso Chefão da Fifa. Era para ser um momento de glória dos dois. Ambos esperavam homenagens, aplausos reverentes e agradecidos. Dilma até que reagiu com serenidade, engolindo o susto. Joseph Blatter protestou de forma bisonha, cobrando respeito e fairplay.

Ridículo, convenhamos: quem pode, em sã consciência, associar à sigla Fifa a noção de respeito? Que autoridade tem o notório Blatter para reclamar uma coisa a que é inteiramente alheio? E quanto a fair-play, não faz sentido cobrá-lo quando se faz jogo sujo. Pelo menos disso o notório Blatter devia saber. Mas estava iludido. Imaginou um público desinformado, incapaz de juízo crítico. Enganou-se redondamente.

O engano dele até se explica. Ao lidar com o governo brasileiro, o suposto Dono da Bola encontrou a perfeita subserviência que desejava. Tratou com pessoas dispostas a curvar-se, beijar-lhe as mãos e obedecer a seus caprichos. Mudaram até a lei para atender a suas exigências. Bebida nos estádios era proibido? Na Copa isso não vale, a cerveja da Fifa será livre. Estádios? Não, senhores: Arenas! Tudo de acordo com o padrão, o figurino, o elitizante modelo Fifa. Pois é, custe o que custar. E tome elefantes brancos. O povo que pague, claro. Não é este o país do futebol? Nada mais natural que os nativos obedecerem ao imperador de seu esporte. É assim e acabou, com Blatter não se deblatera.

A Senhora Presidente também caiu das nuvens. O público bem acomodado no magnífico circo novo, no interior de uma obra de primeiro mundo, pronto para assistir o seu espetáculo predileto, trocava o doce aplauso que ela esperava por uma vaia estrepitosa. Sim, Dona Dilma deve ter ficado perplexa. O que teria acontecido com sua imensa popularidade, garantida pelas pesquisas e jurada pelos marqueteiros?

Mas logo ela serenou: aquela vaia com certeza era uma atitude isolada, um frêmito jocoso. Nos estádios, os brasileiros ficam irreverentes. Decerto esses apupos nada mais foram que a uma reação momentânea, superficial. O folclore explica.

O desengano veio logo. A coisa começou em São Paulo, surpreendendo prefeito e governador: gente nas ruas protestando, exigindo a redução das tarifas do transporte público. Absurdo. Loucura. Em plena Copa das Confederações, não era pra acontecer uma coisa dessas.

Mas aconteceu. E os governantes reagiram, inicialmente, da maneira mais arbitrária e estúpida possível: com repressão bestial e negativas peremptórias: “Nada disso. Impossível. Não insistam que não tem jeito”. Fecharam as carrancas, cerraram as portas e trataram logo de limitar ao máximo a liberdade de expressão dos que protestavam. Entregaram à polícia a tarefa de cuidar do assunto. Ela cumpriu a missão de seu jeito “clássico”: com violência exacerbada. A pretensão dos manifestantes paulistas de chegar à Avenida Paulista foi tratada como um abuso criminoso. E tome bomba, cassetete, bala de borracha, porrada. Ainda por cima, quiseram garantir que tudo ficasse encoberto: atacaram os jornalistas, quase cegam dois deles. A imprensa logo enxergou o que se passava.

Deu-se o que era de esperar. Ou seja, aconteceu o que as autoridades não esperavam, por não refletir: a onda cresceu. Em vez de intimidar-se, a multidão, já muitas vezes multiplicada, avançou. O povo tomou as ruas. Em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte, em Salvador, em Porto Alegre, em dezenas de capitais do país. No exterior, em grandes metrópoles, brasileiros foram às ruas repercutindo o protesto, tornando-o um fenômeno da mídia global.

Tardia embora, a sensatez chegou ao governo de São Paulo. O impossível tornou-se possível: governador e prefeito atenderam à reivindicação da massa. A polícia foi contida, passou a agir com algum tino. Nessa altura, porém, tanto lá como na grande maioria das cidades onde houve manifestações, baderneiros e bandidos rapidamente se aperceberam da oportunidade e a aproveitaram. No rastro dos desatinados que os manifestantes pacíficos não puderam controlar, vândalos e criminosos se esbaldaram: saques, depredações, roubos, violência. A extrema direita também tirou proveito.

Em Salvador, na última quinta-feira, uma situação paradigmática mostrou a incapacidade dos governantes de lidar com o assunto, o despreparo de sua polícia: preocupada em impedir que a passeata se aproximasse da sagrada Fonte-Nova, ela se concentrou nessa tarefa bisonha. Sua violência provocou resposta igual de um bando de cabeças-quentes. E logo os baderneiros prevaleceram sobre os manifestantes pacíficos. Em seguida, uma grande horda de bandidos tomou conta do despoliciado centro histórico de Salvador, promovendo saques e quebra-quebra. Tinham campo livre.

Na maioria das cidades em que ocorreram manifestações, os prefeitos finalmente descobriram que era possível, sim, reduzir as tarifas do transporte público. A medida tardia surtiu algum efeito. Mas o bolo tinha crescido. Agora as reivindicações se multiplicam, diversificam-se muito. E o movimento foge ao controle tanto das autoridades como, em grande medida, de seus promotores. Os prejuízos se acumulam e as perplexidades também. Mas já é possível tirar algumas conclusões.

Eu disse mais acima que até se justifica a surpresa de Blatter com a merecida vaia e com a tremenda rejeição à Fifa ora patente neste país. Afinal de contas, ele não é daqui, não conhece o Brasil. Já a surpresa de nossas autoridades vem a ser maior e mais esquisita: é com seu próprio povo. Descobriram que o brasileiro não é como imaginavam: conformista, resignado, disposto a aceitar qualquer coisa que lhe empurrem, qualquer sujeira que lhe derramem numa bela Taça. Não quer engolir a corrupção, os privilégios abusivos dos políticos, os gastos irresponsáveis com estádios quando falta educação, saúde, transporte condigno.

Sim, nós gostamos muito de futebol. Somos apaixonados, doentes por futebol. Mas não somos imbecis. Não é nossa prioridade apascentar uma triste manada de elefantes brancos construídos em nome da bola para enriquecer uns poucos em detrimento de muitos – e do próprio futebol. Não aceitamos que nos roubem de forma tão descarada.

Falarei também de coisas que me surpreendem. Me parece estranho não terem nossos governantes percebido até agora como é precário o transporte público em nossas cidades e quanto o gasto com as passagens de ônibus, metrô, barcas, ferry-boats e trens suburbanos pesa nos bolsos da maioria da população, incapaz de aguentar os sucessivos aumentos.

Uma colega socióloga da minha Universidade vive dizendo, com toda razão, que transporte público é direito fundamental, pois afeta vários outros: como ter acesso a saúde, a educação, a justiça, a lazer, a serviços indispensáveis, quando não se dispõe de transporte adequado? Como ter qualidade de vida aceitável quando se perde um tempo imenso para ir ao trabalho e voltar para a residência, levar os filhos à escola, fazer qualquer coisa? Como fica o direito de ir e vir numa situação como essa? A miséria dos transportes coletivos no Brasil afeta seriamente a cidadania. A soma dos centavos que nada são para os nababos da política representa um enorme dispêndio para o povão.

Em Salvador, onde moro, muita gente anda a pé por enormes distâncias porque não tem como pagar o ônibus. E o transporte coletivo é um dos piores dentre as capitais brasileiras. Há coisa de treze anos se arrasta a novela de um metrô (ou centimetrô, como já o apelidaram) que teve apenas seis quilômetros construídos e já custou mais de um bilhão de reais, mas até hoje não funciona. Diante disso, como justificar os estupendos gastos com a Arena Fonte Nova, conta que os baianos terão de pagar caro, durante quinze anos, para que ela seja usufruída por um consórcio de empresas privadas por trinta e cinco anos?

Em Brasília, São Paulo e outras cidades a violência chegou muito perto dos governantes. É lamentável. Todo tipo de violência há que lastimar, toda ameaça merece repúdio. Pensando nisso e contemplando o indesejado rastro de destruição deixado pelo movimento, os graves danos infligidos ao patrimônio público e privado, os sérios prejuízos causados pelo vandalismo, espera-se que as nossas autoridades e as lideranças populares reflitam, dialoguem, procurem a melhor saída. Tomara o governo abra os olhos e comece a levar a sério a situação terrível que é cotidianamente vivida por muitos em nossas metrópoles, onde a violência desenfreada desgraça muitos, aflige a todos. Precisamos de uma política de segurança pública efetiva, séria e inteligente. De boa polícia, não apenas para cuidar de quem vem à Copa, antes a fim de garantir aos brasileiros a paz que muitos não têm. O morticínio realizado pelo crime em nossas metrópoles, dizimando principalmente jovens, chegou a um ponto tal que supera em número de óbitos o estrago provocado por conflitos bélicos em outros países. Isso não pode ser tolerado.

Este assunto se impôs porque a Copa transborda, cria situações complicadas e perspectivas esperançosas para além do campo. Não há como fugir do tema. No entanto, nem que seja neste último parágrafo, quero falar um pouco de futebol. Houve jogos bonitos nesses dias agitados, como a disputa entre Itália e Japão. A seleção brasileira parece ter encontrado seu caminho. A torcida começa a animar-se. Ela também tem dado belos espetáculos nos estádios, mostrando seu amor ao Brasil, encantando-se com o Taiti, aplaudindo quem bem merece. Mostrou que deseja a conquista de mais um campeonato. E de verdadeira democracia.

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Graduado em Letras pela UNB, Mestre em Antropologia Social pela UNB e Doutor em Antropologia pela USP. Professor Associado do Departamento de Antropologia da FFCH / UFBA. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA; Prof. participante do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA. Membro da Associação Brasileira de Antropologia, da SBPC, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia. Membro fundador do Grupo de Pesquisa “Encruzilhada dos Saberes”. Fundador e Coordenador do Grupo Hermes de Pesquisa e Promoção Social e do Movimento Vozes de Salvador. Produção principal em Antropologia da Religião, Antropologia das Sociedades Clássicas, Etnobotânica, Teoria Antropológica. Tradutor de textos científicos e literários. Escritor premiado três vezes em concursos nacionais de literatura, com obras de ficção (conto, novela).