A Maldição das Confederações

Por HUGO MELO

Talvez nenhuma outra modalidade esportiva terráquea consiga flertar tão intensamente com a crença humana quanto o futebol. Quantos são os relatos de partidas magicamente resolvidas ou misteriosas reviravoltas em lances que desafiam a própria física? Quantos casos inexplicáveis, relatos paranormais, maldições e milagres dentro de campo foram formados nos terreiros de candomblé e nas novenas suadas entre os dedos dos fiéis ao longo do tempo?

Dentre os inúmeros acontecimentos místicos que cercam o esporte mais popular e sobrenatural do mundo, apresentaremos hoje a Maldição das Confederações.

Disputada desde o já distante ano de 1992, a Copa das Confederações, originalmente nomeada Copa Rei Fahd, teve sua partida inaugural nos campos da Arábia Saudita. O torneio, que acontecia a cada dois anos e contava com a participação de quatro seleções, foi reformulado pela FIFA, passando a ser considerado por muitos a prévia da Copa do Mundo Sem duvidas, é difícil determinar qual fator desencadeou a imprecação sob as relvas confederadas, mas algo me diz que o tal nome de batismo deixou para sempre uma herança maldita nos grandes nomes deste torneio.

Criador da Copa das Confederações, o Rei Fahd padeceu de sérios problemas de saúde. | Foto: Getty Images.

Criador da Copa das Confederações, o Rei Fahd padeceu de sérios problemas de saúde. | Foto: Getty Images.

O Rei Fahd, da linhagem dos Al Saud, talvez tenha sido esconjurado com o mesmo feitiço que infestou a estirpe dos Kennedy. Sexto filho de mais de quarenta irmãos, Fahad bin Abdul Aziz Al Saud viu seu reino ser assolado por duas guerras do Golfo, uma queda espetacular dos preços do petróleo e o aparecimento da Al-Qaeda, talvez o maior grupo terrorista da atualidade. Ascendeu ao trono após o assassinato de seu irmão, Faisal, e da morte prematura de seu meio-irmão, Jaled, vítima de um colapso cardíaco.

O histórico médico da família não era nada agradável, e, durante seu governo, Fahd teve que lidar com crises de diabetes, um câncer e casos severos de artroses. Como se não bastasse, três anos após o início da competição, o Rei Fahd sofreu um acidente vascular cerebral derivante de uma embolia, que o deixaria incapacitado pelos próximos dez anos de sua vida.

Em meio a este cenário pouco favorável à sorte, rebentou o troféu em questão, manipanso herdeiro desta mesma família e de seu feitiço. Sim, a taça é impregnada de mau agouro, contaminando não só os jogadores ousados que a erguem, mas também aqueles que chegam perto o suficiente para serem atingidos pelos raios malditos que ela exala (coisa de filme de Indiana Jones, quando toda uma tropa nazista é vaporizada pelos raios furiosos lançados pela arca da aliança). Seu alcance se estende a todos que, ao fim da competição, orgulhosamente exibem uma medalha em seu peito.

Maradona em 94: o título na Copa das Confederações não se traduziu em uma boa campanha no Mundial.

Maradona em 94: o título na Copa das Confederações não se traduziu em uma boa campanha no Mundial.

Este fato ocorre desde a primeira versão da competição, quando a avassaladora argentina de Gabriel Batistuta, campeã absoluta deste torneio, capengou na copa de 1994, classificando-se na bacia das almas no facílimo grupo D, e, enfim, sendo derrotada por uma ousada Romênia na fase seguinte.

A maldição, ainda em seus primeiros anos de existência e insatisfeita pelo pouco estrago causado, passou, então, a viajar pela América. Primeiramente cruzou a fronteira e se deparou com o surreal ataque Ro-Ro, liderado pelo velho lobo (e coincidentemente supersticioso) Zagallo.

A inesquecível formação composta por Ronaldo e Romário, foi responsável por  11 dos 14 gols do time campeão da CC de 1997, contando ainda com a jovem promessa brasileira, Denílson, um dos craques da competição. Com gigantismo próprio de um favorito, a seleção canarinha pretendia repetir a dose no Mundial do ano seguinte. Pretensão esta que foi aos poucos minada ainda nas prévias da aterrissagem no aeroporto Charles de Gaulle.

Com a maldição carregada na mala, os adeptos brasileiros sofreram primeiro com a contusão de Romário nas vésperas da copa. Em seguida, assistiram um Denílson amargando no banco de reservas. Por fim, Ronaldo (melhor do mundo no ano anterior) viu o penta ser demolido pelo gênio francês Zidane, após um vexatório 3×0.

A praga também encarnou no amarelo e azul oceânico: a surpreendente seleção australiana, vice-campeã da Copa das Confederações, não conseguiu se quer a classificação para a Copa do ano seguinte.

A maldição da Copa do Rei Fahd seguiu seu curso, passou pelos Andes, ascendendo ao norte, e se deparou com o ultimo imperador asteca, ou melhor, seu xará: Cuauhtemóc Blanco. O dono da bota de ouro da edição de 1999 da Copa das Confederações fazia parte da forte seleção mexicana que ousou segurar a taça maldita.

Todo o esforço e esperança construídos em 1999 só tornaram a queda maior quando, nas oitavas da Copa do Mundo de 2002, os tricolores perderam a vaga para o vizinho norte-americano. O craque Blanco, inclusive, chegou a balançar a rede uma única vez. A decepção mexicana seria ainda menor que a francesa, afinal, um gol era tudo que os franceses queriam nesta mesma Copa.

Campeões absolutos da Copa das Confederações de 2001, os Bleus renovaram o favoritismo para a conquista do bi mundial na Coreia. A expectativa de ser campeão, no entanto, contrastou com o gigante desengano de ver o time de Robert Pires ser feito de gato e sapato em 2002, voltando para casa em último no grupo, sem balançar as redes uma vez sequer.

Em 2002, a maldição se repetiu. E os Bleus voltaram para a França sem nenhum gol marcado.

Em 2002, a maldição se repetiu. E os Bleus voltaram para a França sem nenhum gol marcado.

Desta vez, o Brasil se safou do raio maldito, que passou de raspão e atingiu em cheio os australianos, algozes na disputa pelo bronze na Copa das Confederações de 2001. Mais uma vez, os Socceroos não conseguiram sequer a classificação para a Copa, enquanto os desacreditados brasileiros faturaram o tão sonhado penta.

Na Copa do Mundo de 2006, mais três naufrágios: França, Camarões e Turquia, respectivamente, campeão, vice e terceiro colocado da Copa das Confederações de 2003. Dos três, o menor dos danos coube aos franceses. Enfraquecida pelo tempo decorrido, a maldição permitiu aos azuis a chegada à final na Alemanha. Tardou, mas não falhou. Itália campeã do mundo, enquanto camaroneses e turcos assistiam em casa a final da Copa que nem chegaram a disputar.

A maldição também não esqueceu das terras brasileiras: heroicamente campeão da Copa das Confederações de 2005 em cima dos hermanos, o time de Parreira inovava com um brilhante quadrado mágico. Tão quadrado quanto o futebol apresentado na Copa do Mundo do ano seguinte.

O tempo, desta vez não surtiu o mesmo efeito enfraquecedor na praga, apagando a Argentina e o Brasil, ambos eliminados ainda nas quartas de final, respectivamente para a Alemanha e para a França. Adriano, o imperador, artilheiro e herói da competição de 2005 (marcando aquele gol antológico nos minutos finais contra a Argentina), segue desaparecido desde então.

O vórtex dimensional que carregou o artilheiro também levou o vice: Lucho Figueroa, então com 24 anos, nunca chegou a despontar, nem sequer disputou a Copa do Mundo do ano seguinte devido a uma séria contusão, e seguiu caindo clube após clube até por fim chegar às ruínas de Atenas.

Campeão em 2009, Brasil de Lúcio passou longe da taça no ano seguinte.

Campeão em 2009, Brasil de Lúcio passou longe da taça no ano seguinte.

O tempo passou, mas o esconjuro pareceu gostar do clima tropical. Cada vez mais potente, a praga mais uma vez derrubou o Brasil, campeão da Copa das Confederações de 2009, trazendo à tona, mais uma vez, a mágoa da eliminação nas quartas (desta vez pelos holandeses).

A maldição continua impiedosa principalmente com os destaques individuais: Ricardo Izecson dos Santos Leite, melhor jogados da versão de 2009 da competição, ainda não se recuperou do trauma e segue apresentando um futebol pífio, ficando recentemente de fora da convocação para disputar a edição que acontece este ano no Brasil.

Os norte-americanos, que surpreenderam ao eliminar a última campeã do mundo, a Itália, e amarguraram um vice após abrir 2×0 contra o País do futebol, também foram atingidos. Os ianques viram sua promessa acabar um ano depois, caindo perante Gana e voltando pra casa ainda nas oitavas de final.

Sim, o feitiço demolidor não deixa dúvidas, é implacável.

Espero não ser mal interpretado ou julgado um antipatriota, ou ainda membro daquela geração chata, que, ano após ano, espera fracassos verde-amarelos só para ter do que reclamar. Mas, diante dos fatos narrados, não resta a este redator outra escolha senão desejar ao Brasil uma campanha sofrível nesta edição, de preferência sem direito sequer ao terceiro lugar.

Que os espanhóis carreguem a taça e todo o feitiço de volta para a Europa. Quem sabe, assim, a barreira maldita detenha a Fúria e seus irmãos do velho mundo, deixando o caminho livre para os brasileiros fazerem bonito em casa e, de uma vez por todas, apagar da memória a maior tragédia de nosso futebol.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.