Análise tática: Brasil 2×1 Uruguai

  • por João Vitor Poppi
  • 7 Anos atrás

Para ser campeão, provavelmente, precisará de mais!

A Seleção dos gols nos extremos dos 90 minutos repetiu a dose. Os gols de Fred e Paulinho saíram aos 41 minutos do primeiro e segundo tempo, respectivamente. Cavani fez o gol uruguaio aos 3 minutos da segunda etapa em falha de Thiago Silva. Para alguns, isso é sinônimo de time que cresce nos momentos decisivos, para outros, os gols saíram na base da pressão, o que não ocorreria contra uma seleção de alto nível. No entanto, o mais importante agora é buscar entender o que aconteceu (e vem acontecendo) entre os gols.

A seleção canarinho entrou escalada no 4-2-3-1. A linha de três, na maior parte do tempo, foi composta por Neymar aberto na esquerda, Hulk na direita e Oscar pelo centro. O Brasil voltou a repetir os erros mais recorrentes da primeira fase da Copa das Confederações: problemas na proteção à zaga e na saída de bola. A Seleção não teve um jogador que brilhou ofensivamente, mas a maior capacidade técnica sobre o adversário apareceu nos dois gols com Fred, Neymar e Paulinho. Júlio César e Luis Gustavo fizeram partidas dignas de elogios. 

Com o apoio ao ataque de Daniel Alves e Marcelo, ao mesmo tempo, e as escapadas de Paulinho se aproximando de Oscar, o Brasil chegou a ficar com sete jogadores voltados ao ataque. Isso significa que o time não poderia errar passes, mas errou vários. Não levou gol nesses momentos porque a puxada de contra-ataque do adversário não encaixou. Apenas Luis Gustavo próximo dos zagueiros não basta para a zaga brasileira ser bem protegida. O combate mais firme no momento da transição defensiva do Brasil (quando se perde uma bola no ataque, por exemplo) precisa ser feito pela linha de três do meio e Paulinho para que a bola chegue ”mascada” na retaguarda. O ideal é que os laterais apoiem alternadamente, Paulinho tenha discernimento entre ataque-defesa, e os pontas auxiliem na marcação pelos lados.

Brasil com sete jogadores no campo ofensivo: o passe correto e o controle da bola se tornam obrigação

Brasil com sete jogadores no campo ofensivo: o passe correto e o controle da bola se tornam obrigação

Hoje, no time titular do técnico Felipão, não tem nenhum jogador que pense e arme as jogadas por trás, criando espaços ou modificando a estrutura defensiva adversária, o que dificulta a saída de bola. Paulinho costuma vir de trás para definir, ou seja, é o ”homem surpresa”. Quando o Brasil inicia uma jogada, Luis Gustavo se posiciona entre os zagueiros, como um líbero. Os laterais, então, são muito acionados, mas, contra uma seleção que tem praticamente dois pontas que voltam bastante para defender, esse tipo de saída de bola pelos lados fica muito restringida.

Existem dois antídotos para amenizar a falha na saída de jogo do Brasil. O primeiro, muito utilizado nas partidas anteriores, é a ligação direta para acelerar a bola que chega ao ataque. E foi isso o que aconteceu no primeiro gol brasileiro, quando Paulinho esticou ótima bola para Neymar, com apenas um toque, desmontar a marcação. Se bem feita, esta jogada pode deixar o atacante mano a mano com um defensor. Mas não se pode depender dela, é preciso ter mais opções e alternativas que proporcionem ao time volume na criação de jogadas e transforme a posse de bola em gols. A segunda opção é Oscar.

No jogo contra o Japão, no momento em que Luis Gustavo se tornava um terceiro zagueiro para os laterais adiantarem o posicionamento, o meia do Chelsea recuava ao lado de Paulinho. Ele tem mobilidade e um passe diferenciado, muito do que a seleção brasileira precisa na saída de bola. Obviamente, será necessário treinamento e tempo para esse posicionamento de Oscar no inicio das jogadas vingar. Contra o Uruguai, o camisa onze pouco apareceu pro jogo e não deu resposta positiva para a falta de criatividade do Brasil na partida.

No jogo de estréia Oscar auxiliou a saída de bola com posicionamento ao lado de Paulinho

No jogo de estréia Oscar auxiliou a saída de bola com posicionamento ao lado de Paulinho

O Uruguai entrou claramente disposto a defender para depois atacar. Buscou a estabilidade defensiva com Cavani (direita) e Suárez (esquerda) abertos pelos lados, com o jogador do Napoli voltando com mais força para defender. Dependendo do posicionamento dos pontas, a Celeste Olímpica alternava entre o 4-1-4-1 (com os dois acompanhando os laterais adversários) e o 4-4-2 (com um deles, principalmente Suárez, aproximando-se de Forlan e Cristian Rodríguez vigiando o lado esquerdo). Arévalo (centro), Álvaro González (direita) e C. Rodriguez (esquerda) formavam a meia cancha do técnico Óscar Tabárez. 

As transições táticas deram força para a valente seleção uruguaia, levando os laterais e volantes brasileiros a errarem com pouco espaço e tempo para pensar. O time ganhou possibilidades de jogar pelo lado com Cavani, que mostrou ter enorme fôlego para atacar e defender com disposição e qualidade, pois encontrava espaços. Além disso, o Uruguai teve mobilidade com Suárez e Forla por dentro, mas nenhum dos dois estava bem tecnicamente, o que dificultou a parte ofensiva.

O Brasil foi perigoso quando conseguiu fazer a diagonal ou tabelar por dentro (jogada entre Hulk e Oscar que terminou em conclusão do atleta do Zenit, por exemplo), momentos em que conseguia profundidade para perfurar as linhas adversárias. Mas jogadas assim pouco ocorreram e, na maior parte do tempo,, a seleção verde e amarela trocou passes esperando aparecer o espaço, que não surgiu. 

A evolução é necessária a cada jogo para a Copa do Mundo ser disputada em nível elevado. Correções a se fazer existem e são claras. Mas que o Brasil hoje tem mais postura e disposição para ser ”Brasil”, isso é inegável.

Escalação inicial

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Acadêmico de Jornalismo. Analista Tático. Redator na DPF e na Vavel Brasil.