Ao mestre com carinho

  • por Raniery Medeiros
  • 8 Anos atrás

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Lá ia aquele ser humano calvo – depois esbanjando a careca – conduzindo a bola. Um excelso de classe e elegância que não se alterava ou sequer fazia esforço para controlar o objeto de desejo. O “ser” esférico curvava-se diante da educação a qual era tratada por aquele senhor.

Muitos o atribuíram o adjetivo de lento. Bobagem! A lentidão era para enganar os tolos que só entendiam futebol como uma mecânica de “aceleramento”. De tão lento, jamais fora alcançado em pensamento pelos brutamontes que o marcavam implacavelmente. Lento? Tolice! A sua velocidade não se encontrava nos pés. Estava situada em seus movimentos, já prevendo o que iria fazer/acontecer. Ou vão dizer que para concluir um movimento o ser humano não deve pensar antes? Poucos possuem o dom.

A primazia do toque refinado, a suavidade para com a bola e a imponência em seu estilo único, ludibriava o adversário. Adversário? Não! Apenas seres normais que nunca acompanhariam um dos deuses que chegou ao ápice, ao Olimpo. Aspecto físico? Para quê? Enquanto os zagueiros pensavam em bater, ele se antecipava e orquestrava o destino da sua amada.


Por ele, a bola sempre foi tratada com carinho. O saudava antes de encontrar os seus pés. Se viesse oblonga, o Senhor calvo pararia e, em consternação ao estorvo causado, faria a devolução de forma redonda. Não era um ato circunstancial. Foi sublime e incomensurável durante toda a brilhante carreira.

O poeta, embasbacado, olhava com atenção e não entendia como muitos tentavam fazer o simples e terminavam o ato com intensa dificuldade. Passou a não mais entender quando viu o poeta do futebol transformar o difícil e o impossível em algo simples. Sem caras e bocas, sem poses para as câmeras, apenas ereto e fixando o objetivo. A bola parecia uma criança atendendo ao seu dono. Quando ele ordenava, ela simplesmente brincava de “siga o mestre”.

Se a falsa lentidão era um problema para os desprivilegiados, para ele, maravilhoso e de classe peculiar, só restava assombrar o mundo com seu dinamismo. Os marcadores? Esses pareciam espectadores que saíram da plateia para ver de perto a obra sendo feita.

Pergunte o que ele fazia e eu responderei em poucas e objetivas palavras. Era assim: “os outros faziam força para lançar. Ele? Passava. Os outros botinavam de qualquer jeito. Ele apenas colocava do seu jeito”. Parecia ínfimo, mas acredite: era grandioso.

Lá ia o senhor, correndo sem suar, liderando sem esbravejar, clareando sem luar, jogando futebol sem botinar. Lá ia o senhor, na conjuntura do brilhar, na amálgama do criar, um poeta sem precisar poetizar.

Sua elegância e educação só foram tiradas de cena quando os sem classe não souberam mais o que fazer para pará-lo. No ato desonroso, ele só poderia responder com a cabeça. Mesmo sendo convidado a se retirar, o fez com maestria. Não precisou reivindicar. Apenas se fez insofismável e saiu como o gentleman que sempre foi.

Na hora de parar, a bola o tentou convencer a ficar. Mas ele não poderia mais atender a este pedido. Todo gênio sabe a hora de parar sem permitir que outros parem por ele. Sua resposta também veio com uma risada sarcástica, como quem diz: “Sempre estarei por aqui. Calma!”. E a bola se curvou diante do seu dono.

Os brasileiros até tentaram o odiar. Porém, em berço esplêndido, os nossos bosques passaram a ter mais vida e nossa vida, mais amores pela genialidade desse calvo, desse francês. Todos se renderam ao talento, magia e soberania de um gênio chamado Zinedine Zidane.

Merci, Zizou!

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