Arena Pernambuco, minha Odisseia

Estação Cosme e Damião, construída exclusivamente para a Copa, três horas antes do início de Espanha x Uruguai. | Foto: Pedro Galindo.

Estação Cosme e Damião, construída exclusivamente para a Copa, três horas antes do início de Espanha x Uruguai. | Foto: Pedro Galindo.

Domingo de euforia no Grande Recife. A chuva tentou, mas não conseguiu conter o entusiasmo daqueles que haviam comprado ingressos para assistir à estreia da grande campeã do mundo. Em todas as regiões da capital pernambucana, assim como no interior e em alguns outros estados nordestinos: estavam na Arena Pernambuco as atenções de todo o público local que vem se envolvendo com a disputa da Copa das Confederações. Além, claro, dos olhares de todo o mundo do futebol, ansiosos por conferir se o tiki taka da Roja continuava afiado, ou se a temida dupla de ataque da Celeste, campeã da América, conseguiria ameaçar o previsível domínio espanhol.

Pelo menos foi assim que começou minha experiência rumo à nova e moderna arena. Enquanto fã do futebol da Fúria, vinha há meses nutrindo expectativas de assistir ao vivo toda a categoria de Andrés Iniesta, além do talento de outros jogadores que admiro, como Busquets, Xavi, Mata e outros. Saí de casa empolgado, tomado pela motivação de quem segue rumo a um momento histórico de sua vida de torcedor.

O metrô recifense foi o primeiro a mostrar sua total inaptidão para tais momentos.

A maioria dessas pessoas nem sequer estavam indo à Arena. Imagine agora este vagão às 18h de uma segunda-feira... | Foto: Pedro Galindo.

A maioria dessas pessoas nem sequer estavam indo à Arena. Imagine, agora, este vagão às 18h de uma segunda-feira… | Foto: Pedro Galindo.

Posso ter tido pouca sorte, mas o destino reservou a mim e meus amigos um vagão absolutamente abarrotado. E boa parte dos cidadãos enlatados no trem nem sequer estavam indo à arena. Uma prova de que o jogo apenas expunha um problema que vive escancarado no cotidiano do povo recifense.

Na chegada ao Terminal Integrado Cosme e Damião, o mais próximo do estádio, fomos incorporados a uma multidão que se apertava, perigosamente, à margem da plataforma de embarque. A velocidade do escoamento dos torcedores – através de dois lances de escada bem estreitos – não acompanhava a chegada dos metrôs seguintes, e a aglomeração crescia. Com muito custo, conseguimos chegar à parada de ônibus.

Terminal Cosme e Damião

Foto: Pedro Galindo.

Provavelmente, muitos dos passageiros do ônibus nunca haviam andado tão espremidos em toda a vida. Eu, por exemplo, me acomodei (em pé) no último dos degraus da entrada. O trajeto sinuoso levava a um ponto no meio do nada, a uma distância de aproximadamente 600 metros do estádio – e que teve que ser percorrida a pé.

VÍDEO: Algumas das dificuldades encontradas por um cadeirante, no acesso à Arena.

Já na entrada do estádio, me deparo com a primeira das surpresas: meu assento, comprado há meses, ficava num setor completamente diferente do que foi especificado no ato da compra. Paguei pela categoria mais cara, e fiquei numa das cadeiras mais distantes do campo, no alto do estádio. Além disso, diante das dificuldades para encontrar meu lugar, perguntei a um dos voluntários que estavam lá para orientar. A resposta? “Pode ser também que seu lugar não exista, senhor”. Terminei sentando em algum dos assentos vagos, assim como muitos outros que não tiveram escolha senão desrespeitar a (des)organização da FIFA.

Depois do ônibus lotado, uma longa caminhada rumo à Arena Pernambuco. | Foto: Pedro Galindo.

Depois do ônibus lotado, uma longa caminhada rumo à Arena Pernambuco. | Foto: Pedro Galindo.

Assento definido, hora de comprar uma cerveja. Hora também de conhecer outra das grandes deficiências do estádio: a enorme fila nos bares. Além da espera, houve um erro de cálculo na quantidade de itens à venda, e quase todas as opções de comidas e bebidas acabaram antes mesmo do apito inicial do jogo. Nos banheiros, a situação não era menos precária: não havia lixeiros, e todo o papel estava sendo jogado no chão que, por sua vez, estava imundo. O resultado de tudo isso: um lamaçal nojento, e um ambiente extremamente desagradável.

Campanhas e mais campanhas de conscientização para não jogar lixo nas ruas. Mas cadê os lixeiros? | Foto: Pedro Galindo.

Campanhas e mais campanhas de conscientização para diminuir o lixo nas ruas. Mas cadê os lixeiros? | Foto: Pedro Galindo.

Cadê? | Foto: Ana Luiza Barata.

Cadê? | Foto: Ana Luiza Barata.

Todo esse sacrifício para assistir, por fim, mais um massacre espanhol, apesar de toda a luta celeste. O jogo foi plástico, entre duas equipes extremamente qualificadas e competitivas. A distância do meu assento em relação ao campo não prejudicou minha visão de jogo – praticamente não há pontos cegos no estádio. A enorme quantidade de poeira, sim: passei o jogo inteiro mazelado por uma forte crise de rinite. Até aí, considerava positivo o saldo da experiência na Arena.

Até entrar em um ônibus lotado, que morreu quatro ou cinco vezes numa ladeira mais íngreme. Até me deparar mais uma vez com a superlotação do Terminal Cosme e Damião, e ter pegar o metrô no sentido inverso só pra conseguir respirar dentro do vagão. À meia-noite, ao chegar em casa completamente exaurido, a sensação era de que havia sido feito um esforço descomunal, até mesmo em relação ao nível do espetáculo. A Arena é linda, e tem potencial para proporcionar a jogadores e torcedores uma experiência de alto padrão. Mas ainda precisa melhorar muito.  Ou o torcedor pernambucano e alvirrubro não irá adotá-la, mesmo que o Náutico contrate Messi, Neymar e Cristiano Ronaldo.

A luta para chegar à Arena havia sido só começo... | Foto: Pedro Galindo.

A luta para chegar à Arena havia sido só começo… | Foto: Pedro Galindo.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.