O novo Juninho Pernambucano do Lyon

O meia de toque refinado e alto poder nas bolas paradas precisou de três temporadas para, finalmente, mostrar seu verdadeiro potencial

Foto: olweb.fr

Foto: olweb.fr

Fazer história em um time tradicional, seja lá de qual parte do mundo for, não é tarefa pra qualquer um. Geralmente um ídolo não se molda. Ele simplesmente faz acontecer. Foi mais ou menos assim que aconteceu com Juninho Pernambucano no Lyon. Após passagens marcantes por Sport Recife e Vasco, o Reizinho da Colina desembarcava na França. O OL, até então, não era uma potência naquele país. Era somente um clube que tinha feito uma boa campanha na temporada 2000/01 e conquistado uma surpreendente segunda colocação.

Daí para a frente, a história de Juninho com o Lyon todo mundo já sabe: se tornou a principal estrela do time e guiou, durante sete temporadas consecutivas, o time aos títulos da primeira divisão da Ligue 1. Após a chegada de Juni ao OL, o time começou a ser conhecido fora da França, ganhando holofotes e reconhecimento mundial.

Foto: Reprodução - Juninho é até hoje endeusado pela torcida do Lyon

Foto: Reprodução – Juninho é até hoje endeusado pela torcida do Lyon

Mas um ídolo de verdade não deixa somente troféus e respeito. Ele também aponta um legado. Após deixar o clube em 2009, o time demorou a criar uma independência. Qualquer um que assumisse a posição na função que o Reizinho fazia, naturalmente sofria a injusta comparação. Nos primeiros anos, a responsabilidade caiu nos pés do também brasileiro Ederson. Somente pelo fato de ser da mesma nacionalidade, jogar no meio-campo e ter potência no chute, foi taxado pela imprensa mundial como o “novo Juninho”. Obviamente não aconteceu. Não por culpa de Ederson, claro. Posteriormente ele conseguiu provar seu potencial em outra posição – pelo lado do campo – e acabou com a estigma do fardo que carregava de forma injusta.

Sem dúvida alguma, o torcedor do Lyon lá na França idolatra Juninho como um ídolo maior no esporte. E a mentalidade deve ser a mesma para os garotos nas categorias de base. Juninho serve como exemplo. E parece que o OL começa a colher os primeiros frutos do legado deixado pelo brasileiro. Na mesma época em que o Reizinho deixou o clube, surgia um garoto nas categorias de base. Um jogador muito promissor, com passagem por todas as seleções de base da França desde o sub-15. Clément Grenier estreou na temporada 2009/10, com 18 anos, jogando pouco e muito mal. Erroneamente era escalado no lado do campo e não rendia nada. Parecia completamente perdido no futebol de gente grande. Nas quatro partidas que fez naquela temporada, passou vergonha.

Foto: olyon.fr - Grenier em 2010: não estava maduro o suficiente para assumir a responsabilidade

Foto: olyon.fr – Grenier em 2010:  ainda não estava maduro o suficiente para assumir a responsabilidade

Era visível que o jogador subiu da base de maneira precoce e precisaria de mais tempo para se adaptar ao futebol profissional. Na temporada seguinte, também não conseguiu mostrar todo aquele potencial que prometia. Atuou somente em nove partidas e não contribuiu com nada. Já no ano de 2011/12, o jogador, já sob a batuta do treinador Rémi Garde, finalmente conseguiu chance entre os titulares. Mas ainda não de forma absoluta. Jogou um pouco mais do que a metade dos jogos da Ligue 1, apresentou uma melhora considerável no seu futebol, e já voltava à sua posição de origem: meia central, cerebral, e com boas noções de marcação. Jogador moderno.

O BRILHO

Todavia, a redenção de Grenier aconteceria na temporada que acabou de se encerrar. Poucos esperavam uma evolução tão grande como aconteceu. Nem mesmo a própria diretoria do clube apostava nisso. Clément Grenier tinha a concorrência de dois jogadores bem mais experientes no time do Lyon: Yoann Gourcuff e Steed Malbranque. Ambos eram tão bem quistos pelos cartolas do clube que Grenier, por muito pouco, não foi negociado com o Nice, no começo da temporada, em troca envolvendo o jogador Fabián Monzón (que hoje está emprestado e na reserva do Fluminense). Na oportunidade, o Lyon cederia Grenier e Jérémy Pied pelo passe do argentino. Rémi Garde, treinador do OL, barrou a ida do meia e autorizou somente a troca pelo atacante Pied. A visão do técnico – que era coordenador das categorias de base do time há poucos anos atrás, foi de fundamental importância para que o jogador apresentasse o futebol que apresentou na temporada.

No primeiro turno, o Lyon jogava no 4-2-3-1. Sem ter chances de competir com Malbranque e Gourcuff, o jogador acabou sendo recuado para segundo volante.

Time básico do Lyon no primeiro turno (campinho montado no site Football User)

Time básico do Lyon no primeiro turno. Grenier de segundo volante (campinho montado no site FootballUser.com)

E não comprometia. Tinha boa noção de marcação e ótima saída de jogo pela qualidade natural de meia armador. Jogando nesta posição, ele conseguiu dar um enorme respaldo para Malbranque , que não tinha preocupação alguma dentro de campo, já que quando ele não funcionava, Grenier estava lá para fazer o papel. E foi com “essa mente tranquila” que Malbranque se tornou o melhor jogador do primeiro turno do Lyon.

Posteriormente, já em 2013, as qualidades de Grenier foram logo chamando mais a atenção. E quando ele teve sua chance na função de armação do 4-2-3-1 do Lyon, não largou mais. Começou a destoar dos demais companheiros e virou peça fundamental do time titular do OL durante todo o restante da temporada. Agora, era Malbranque que jogava mais recuado e Gourcuff quem não conseguia mais obter chances no meio – e precisou ser deslocado para esquerda. Basicamente, foi dessa maneira que o Lyon terminou a temporada:

Time básico do Lyon no segundo turno (campinho montado no site Football User)

Time básico do Lyon no segundo turno. Grenier se torna referência no meio-campo (campinho montado no site FootballUser.com)

Nota-se claramente uma grande mutação do Lyon do primeiro turno (na primeira foto) com o Lyon do segundo turno (na segunda foto). Mas uma coisa é certa: Grenier já tinha sua vaga assegurada, seja no 4-2-3-1 ou no 4-1-4-1. O jogador terminou a temporada 2012/13 com 33 jogos, 8 assistências 7 gols. Os números não impressionam tanto, de fato. Mas o que mais chama a atenção em Grenier é a constante evolução de seu futebol. Há três anos, era medíocre; no começo da temporada, negociável; e hoje é titular incontestável e jogador de seleção.

O IMPASSE

Grenier3 (olweb.fr)

Foto: olweb.fr

Com o fim da temporada e a surpreendente qualidade que Grenier apresentou, o Lyon foi pego desprevenido. O atleta que, até então, sairia no começo meio de 2012, acabou ficando. E agora vive uma incógnita com relação ao seu futuro. Arsène Wenger, treinador do Arsenal, bate o pé e quer o jogador como uma prioridade para a próxima temporada. E há fortes indícios de que isso possa acontecer. Por descaso com o próprio jogador, o presidente do Lyon, Jean-Michel Aulas, não se preocupou em renovar o contrato de Grenier. Ele acaba no final de junho de 2014. Portanto, obviamente, se o Lyon receber uma proposta razoável pelo atleta agora não vai segurá-lo para depois perdê-lo de graça no fim da temporada. E o jogador sabe disso.

Em outras palavras, podemos dizer que o futuro de Grenier está nas mãos do próprio atleta. O Lyon, mesmo que de maneira atrasada, já enviou uma proposta de renovação ao jogador. Da mesma forma, o Arsenal parece já ter apresentado uma oferta, mesmo que verbal. O atleta disse que já tomou a sua decisão, e ela não foi feita em ideologias financeiras, segundo palavras do próprio meia. “Eu já escolhi qual será o meu caminho na próxima temporada. Não me importei com a proposta em dinheiro, gostei foi do projeto que me apresentaram. Já conversei com o presidente e o treinador do Lyon e eles já sabem se fico ou não. Irei a público, em breve, para colocar um ponto final nessa situação”, declarou o jogador antes mesmo de viajar para a América do Sul, após sua primeira convocação para a Seleção Francesa.

LES BLEUS

E por falar em Seleção Francesa, é sempre bom frisar que o escrete azul vive uma escassez de meias criativos desde a saída de Zidane. A recente convocação de Grenier pode ser uma tentativa para tentar acabar com essa dependência no meio campo. O jogador do Lyon foi chamado às pressas após a lesão de Samir Nasri e embarcou para a América do Sul. No primeiro jogo com a camisa principal dos Bleus, contra o Uruguai, nesta quarta-feira, ele entrou no segundo tempo e deu uma ótima oxigenada no setor em que atua, mas não foi o suficiente para bater a Celeste. Grenier pode receber a chance que espera contra o Brasil e, quem sabe, aparecer de vez para o grande público brasileiro.

Na formação abaixo, entenda como Grenier pode se tornar o encaixe perfeito para o time de Didier Deschamps, não somente nessa convocação de agora, mas na Seleção Francesa como um todo. Simulei aquele que, pra mim, seria o time titular da França e encaixei Grenier no meio. Pode ser uma ótima alternativa para Deschamps aproveitar nas próximas convocações.

Suposta Seleção Francesa montada com Grenier entre os titulares (campinho montado no site FootballUser.com)

Suposta Seleção Francesa montada com Grenier entre os titulares (campinho montado no site FootballUser.com)

E O JUNINHO?

Agora você se faz a pergunta: “Mas será mesmo que esse cara pode ser o novo Juninho Pernambucano?”. Tudo bem, meu caro. Você leu o texto todo imaginando como seria o comportamento de Clément Grenier dentro de campo. Pois bem. O Doentes por Futebol juntou os melhores lances do jogador (a maioria deles nessa temporada) e reuniu todos em um só vídeo. Somente um gol, na última partida da temporada, não entrou na compilação. Mas deixei-o logo abaixo, afinal de contas, a exemplificação da bola parada de Juninho Pernambucana está explícita nesse gol. Ou como já se acostumaram a falar na imprensa francesa, um “gol juninhesque”. Confira:


Seria Clément Grenier o novo Juninho… por doentesporfutebolfc

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Curte Campeonato Francês e é torcedor do Olympique LYONnais. Dono do único blog do Lyon no Brasil. Já foi colaborador do Jogo Aberto, blog do Lédio Carmona. Já foi colunista de futebol francês da extinta Revista Doentes por Futebol e do portal Os Geraldinos. Foi comentarista da Rádio Futebol Plus. Hoje em dia é editor chefe e sócio-fundador da Doentes Por Futebol. Participa do "Le podcast du Foot", podcast sobre futebol francês do colunista Bruno Pessa, do Portal IG. E é colaborador de futebol Francês no programa "[email protected]", da Rádio Globo SP.