E o “bonde da História”, cadê?

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Muito se ouviu falar sobre esse tal bonde em Recife. Tudo começou há exatamente cinco anos, em 11 de junho de 2008, quando um certo cartola usava esse papo para comover os torcedores e as principais lideranças políticas de seu clube. Era a chance de ouro, o encontro marcado com o destino glorioso, e qualquer erro, naquela ocasião, poderia significar o adeus à oportunidade histórica. Era o famoso cavalo selado. Que, por sua vez, não costuma aparecer sempre: em mais de cem anos, só passou em duas ocasiões.

O tal “profeta”, porém, esbravejou em vão: sua profecia se perdeu no tempo, e o clube seguiu seu caminho. Sua diretoria, profundamente respaldada perante a torcida, conseguiu se manter no poder e indicar um novo líder. Historicamente ligado às cores da agremiação, ele chegou a empolgar nos primeiros meses: mesmo com um planejamento questionável, a campanha do time era incorrigível, e forçava o país inteiro a abrir os olhos para o gigante que se insurgia, sempre seguido por uma legião de apaixonados – fosse em Recife, São Paulo, Quito ou Santiago. O cavalo parecia domado, pronto para jornadas épicas. Era o sonho em seu estágio mais próximo da realidade.

E tinha um santo no meio do caminho.

E tinha um santo no meio do caminho.

Quis o destino que, no meio do caminho, tivesse um santo. Rodado, careca, desgastado – mas ainda santo. Logo ele, tão louvado e adorado justamente pelo seu poder de destruir os sonhos adversários. Esse santo impunha respeito pelo simples fato de estar sobre a linha do gol. Um respeito que fez tremer jogadores experientes. Que transformou em críticas todos os questionamentos do início do ano. Que fez explodir a crise em uma casamata que vivia em harmonia havia quase 18 meses.

Desde que esse santo apareceu, nunca mais o tal clube se reencontrou.

Com a mudança no comando técnico, vieram as derrotas. E foram muitas: 21 em 38 partidas. O suficiente para a conquista da lanterna absoluta do campeonato, sete pontos atrás do arquirrival, 19º lugar. Um rebaixamento amargo, num ano que começou com expectativas altíssimas. Na temporada seguinte, mesmo sendo favorito absoluto ao acesso, esse clube fez outra campanha fraquíssima, e não conseguiu ficar entre os quatro primeiros da Segundona. A partir de 2011, consolidou-se o estranho hábito de ser vice-campeão estadual – sobretudo para um clube acostumado a vencer: já são três seguidos, num período em que o seu maior algoz tem sido um rival que vive a mais grave crise de sua história. Nesse meio tempo, uma promoção acidental à elite, no melhor estilo “bate-e-volta”: muita irresponsabilidade na gestão do futebol, muitos treinadores e pouquíssimo rendimento dentro de campo.

Em cinco anos, este temido caldeirão se tornou um ambiente receptivo para times de qualquer espécie, sobretudo zebras.

Em cinco anos, este temido caldeirão se tornou um ambiente receptivo para times de qualquer espécie – principalmente,  zebras.

Desde o fatídico onze de junho, esse clube faz corar de vergonha todo torcedor que, naquela noite, sonhou em ver seu time disputando grandes títulos, jogando bonito e montando um elenco competitivo. Pelo contrário: o torcedor se acostumou a ver em campo um time passivo, que precisa arrancar a fórceps vitórias contra adversários fracos e que criou um gosto por protagonizar grandes vexames nos tempos recentes. O que teria acontecido com aquele cavalo selado? Será que aquele santo era assim tão forte, a ponto de espantá-lo perpetuamente? Por onde anda, afinal, o Bonde da História? São perguntas cujas respostas, hoje, parecem tão distantes quanto aqueles sonhos, espalhados em vermelho e preto por toda a América.

Talvez, o “profeta” não tivesse efetivamente nenhuma cartada nas mangas; talvez a profecia não passasse, para ele, de um argumento vazio e eleitoreiro. Eram dias gloriosos, e eram muitos os interessados em se envolver com o clube e fazer parte do grande momento. Em todo caso, tudo isso faz parte de um cenário que foi brutalmente extirpado do torcedor: não é mais tempo de sonhar. O momento atual não permite conjecturas, e todas elas esbarram no absoluto caos em que o clube se transformou. É tempo de juntar os cacos, se reestruturar e esperar – sentado – o próximo bonde.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.