Eládio eterno

No Náutico, o futuro bate à porta. Irresistivelmente. | Foto: Ana Luiza Barata.

POR WAGNER SARMENTO (02/06/13)

A cerveja mais amarga do mundo será vendida nesta tarde no Americano. Uma mistura intragável de cevada e saudade, gosto de nunca mais, gelando o coração que insiste em amar aquele pedaço de terra e grama condenado a morrer.

Parece que o céu adivinhou. Amanheceu chorando neste domingo de despedida, uma chuva que, quando a bola rolar, vai se misturar às lágrimas de uma torcida inteira.

O último gole, um brinde à história, à tradição, ao ritual que vai ficar pra trás, às vitórias inesquecíveis, às derrotas igual e dolorosamente inesquecíveis. A garganta seca. Os olhos molhados.

Náutico x Portuguesa seria só mais um jogo desimportante de um campeonato que começou pior impossível. Não aprendemos a dizer adeus. O fim é a criptonita do homem. Castiga, tortura, corrói.

Morreremos um pouco hoje nos Aflitos. Deixaremos lá um pedaço de nós. Sepultaremos lembranças, gritos, comemorações, decepções, festejos, dramas e redenções. A força e a raça. A luta e a paz. Um caminho de luz.

Um dia, nossos avós acompanharam Nino, Nado, Bita e Lala erguerem o luxo que carregamos até hoje. Viram o ataque das quatro letras desenhar seis estrelas no céu dos Aflitos.

Um dia, tempos depois, nossos pais assistiram a Baiano e Bizu honrarem a grama e a gente. Nós, mais novos, sentimos orgulho de cada pá de cimento jogada no fundo das redes pelos craques do passado como se tivéssemos vivido tudo. E sim, vivemos. Revivemos.

Um dia, no futuro, contaremos aos nossos netos – com um hexaorgulho – que no nosso tempo a casa do Náutico, a nossa casa, era um caldeirão. Eles verão, em fotos e vídeos, aquele estádio acanhado, de poucos degraus, arquibancada quase ginasial, alçapão quase insuportável pros adversários; verão que o brado que emanava da torcida era bem mais ensurdecedor, que luxo mesmo, acima de qualquer modernidade, é ter história pra contar. E quantas histórias moram ali…

O torcedor alvirrubro se despediu de seu caldeirão. Nele, ecoarão eternamente as glórias de um clube centenário. | Foto: Nauticonet.

O torcedor alvirrubro se despediu de seu caldeirão. Nele, ecoarão eternamente as glórias de um clube centenário. | Foto: Nauticonet.

Nós vimos Kuki, que aportou ante a descrença geral, devolver a dignidade, o brio e, acima de tudo, os títulos; vimos o desconhecido virar ídolo, vimos o ídolo virar torcedor, mais um de nós a pintar uma listra branca no coração rubro.

Nós caímos na Batalha dos Aflitos, os rivais arriaram, o Brasil zombou, nós silenciamos. E foi lá, no mesmo lugar da queda, que nos reerguemos. Porque ser grande é saber se levantar. Um ano depois, contra o Ituano, o fantasma cochichando de um lado, a multidão uivando do outro. Ninguém ouviu o fantasma. No alçapão é assim. Sempre foi. Vai deixar de ser.

E foi lá, dia desses, nesta mesma Série A em que começamos desenganados, que goleamos Cruzeiro e Botafogo, que vencemos clássico, que batemos em Fluminense, Corinthians, Flamengo, São Paulo, Santos, Internacional, com Felipe, Acosta ou Kieza.

Tudo vai deixar de ser rotina pra ser só memória. Os Aflitos vão pro mesmo baú do longínquo hexa, de Bita e cia, de Baiano, de Bizu, de Kuki. Nossos rivais dizem que vivemos de passado. A gente responde que tem história. A partir de amanhã, teremos mais uma pra contar. Era uma vez um caldeirão.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.