Empresas financiam o futsal brasileiro

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Enxuta, Malwee/Jaraguá, Krona/Joinville, Cortiana/UCS. São muitos os casos de times do futsal brasileiro que só conseguem se manter na ativa graças a empresas que bancam os custos do esporte. Apesar de muitos amantes do esporte não se importarem com isso, a prática demonstra o que é constatado em outros esportes aqui no Brasil: excluindo o futebol (e mesmo assim com ressalvas), os outros esportes não possuem condições de se manter por si próprios, dependendo de entidades externas para continuar as atividades. Clubes de natação sintetizam esse fenômeno, estando geralmente atreladas à uma equipe de futebol, como no caso do Flamengo.
Com isso, as equipes tornam-se reféns das empresas patrocinadoras, e, uma vez cessado o patrocínio, não conseguem manter-se na disputa ou, em muitos casos, chegam ao extremo de fechar as portas.

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A já extinta equipe de Farroupilha, que contava com o Valdin (Fonte: Reprodução)


O caso da Cortiana/UCS/AFF é emblemático para ilustrar essa situação: no ano de 2003, a Associação Farroupilhense de Futsal (AFF) foi fundada, e aos poucos começou a ter relevância estadual. Saindo da Terceira Divisão Gaúcha (Série Bronze), conseguiu chegar à elite do estado em 2006. Porém, o nível da competição era elevado, e a equipe firmou uma parceria com a empresa Cortiana, da mesma cidade. Alguns jogadores foram contratados, graças ao dinheiro vindo do empresário Flávio. Por questões administrativas, a parceria foi encerrada na metade do ano, e a empresa começou a patrocinar a equipe da Universidade de Caxias do Sul (UCS). Em 2007, porém, o empresário retornou como presidente do clube, reativando a parceria. Já em 2008, outra reformulação: com o encerramento das atividades esportivas da UCS, por decisão do reitor, a equipe trouxe os jogadores da equipe, tornando-se Cortiana/UCS/AFF. Com jogadores de excelente nível, como Valdin e Bagé, o time conseguiu o 3º lugar na Liga Nacional. O empresário, decidido a investir forte no esporte, ajudou a construir um ginásio que pudesse receber os jogos (por medidas da quadra, o antigo ginásio da equipe não poderia ser utilizado). Com isso, o Saturno foi erguido, e, com mais de seis mil lugares, ajudou a equipe na competição. Mas o seu uso foi por curto período, já que em 2010, o Cortiana retirou a parceria com o clube, que fechou as portas. Hoje, o Saturno só é utilizado para jogos amadores.

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O ginásio encontra-se parado, após o término do time de futsal (Fonte: Reprodução)


O mais surpreendente dessa história é que, em 2011, quem estampava o logotipo da empresa na camisa como patrocinadora era a equipe santista. Outro investimento alto, cuja maior contratação foi a do jogador Falcão, que até o ano anterior defendia o time de Jaraguá, outro beneficiado por uma empresa. Nesse ano, o Santos conquistou a Liga sobre a ACBF, time que, apesar de também contar com um grande patrocinador, é considerado exemplo, pois existe há 37 anos. No final daquele ano, contrariando as expectativas para a temporada seguinte, a parceria foi terminada e o time de futsal do peixe fechou as portas.

Equipe futsal Santos

Patrocinada por um ano, a equipe santista faturou a Liga Futsal (Fonte: http://eraldo.spaceblog.com.br/)


A equipe de Jaraguá do Sul foi outra a sofrer com o repentino fim do dinheiro. Depois de uma parceria de nove anos com a fabricante de roupas Malwee e obter diversos títulos, com grandes times, teve que reaprender a andar com as próprias pernas. Ou, pelo menos, com outras pernas. Disputou campeonato estadual em 2011, e, em 2012 já estampava outra marca em seus uniformes.

A constante criação de parcerias não se dá por egocentrismo dos dirigentes dos clubes. É uma necessidade, já que uma equipe em condições de disputar os campeonatos custa muito dinheiro. Comparados aos de uma equipe de futebol, os salários podem parecer pequenos (Falcão, craque da Seleção, foi o primeiro jogador a receber mais de 100 mil por mês), mas é necessário lembrar que, ao contrário do futebol, no futsal as rendas de tv são mínimas. Atualmente, os jogos da Liga são transmitidos pelo Sportv, ESPN e Globo, mas como não possuem um apelo tão forte, o poder de barganha diminui consideravelmente.

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Patrocinada durante 10 anos pela Malwee, enfrentou grandes dificuldades quando a parceria se encerrou (Fonte: Reprodução)


O futsal é uma das várias modalidades que sofrem por não darem retorno financeiros aos seus clubes, restando serem custeadas por empresas ou entidades que podem, de uma hora para outra, retirar todo o dinheiro investido no projeto. Com isso, perde-se na profissionalização do esporte, que, apesar dos títulos e atletas, ainda sofre com uma estrutura amadora.

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Gaúcho, colorado e estudante de Engenharia de Computação. Doente por futebol desde que se entende por gente. Joga futsal nas horas vagas. A cada dois jogos, uma lesão.