O sexto pacto de Dilma

Dilma Marin

Desde a chegada da Copa das Confederações ao Brasil, propagou-se pelo país uma onda de protestos e manifestações que tem encabeçado a agenda de boa parte dos jovens e da grande mídia nacional. Ao movimento, que nasceu na luta contra o aumento das passagens em São Paulo e outras grandes capitais, incorporaram-se praticamente todas as insatisfações de uma juventude que parece nem saber ao certo que mudanças, efetivamente, deseja.

Ganharam as ruas, portanto, algumas das grandes dificuldades encontradas pelo brasileiro em seu cotidiano, além de outras pautas impostas por uma meia dúzia de empresários que tenta se apropriar dos protestos para pressionar seus inimigos políticos. Todas elas exponencialmente amplificadas e ecoadas ao redor do mundo inteiro, justamente graças ao torneio que o país sedia – esse mesmo, um dos principais questionamentos dos manifestantes. Não são poucas as críticas à inversão de prioridades ocasionada pela Copa, ao completo desprezo da FIFA à soberania do país e às acusações que cercam a CBF e seu presidente, José Maria Marin.

(Se ainda não conhece a história do presidente, leia o nosso Dossiê Marin)

Toda essa agitação forçou a presidenta Dilma a um pronunciamento enérgico (e histórico), que apresentou cinco proposições concretas para várias das causas que levaram os brasileiros às ruas. Saúde, responsabilidade fiscal, educação, mobilidade urbana, luta contra a corrupção: fatores diretos da péssima qualidade de vida – e acima disso, do completo desencanto – do cidadão brasileiro. Todos eles foram contemplados no discurso da presidenta. No entanto, nem todas as vozes das ruas foram ouvidas. Pelo menos, não as que foram de encontro ao sexto pacto da presidenta – este, velado, visceral e aparentemente irrompível.

Sem comentários.

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É o pacto que instaurou, no Brasil, um verdadeiro Estado de exceção. Que instituiu leis especiais, garantindo a tranquilidade de todos os seus patrocinadores. Que expulsou da “festa” o povo e, com ele, os principais traços da cultura nacional. Que pasteurizou nossos estádios – agora, arenas. E que está dando as condições perfeitas para este que está se consolidando como uma das maiores farras com o dinheiro público da história do país: justamente a realização da Copa das Confederações e da Copa do Mundo.

Ora, não é novidade para ninguém que há alguns meses o deputado Romário vem lutando pela instauração da CPI da CBF, que investigaria a ação e o passado de algumas das principais lideranças do futebol nacional. Inclusive, o Baixinho já conta com as assinaturas necessárias para a abertura da comissão e o início das investigações. Além disso, ele tem sido um dos mais combativos críticos da FIFA e suas exigências que beiram o absurdo, ao lado do jornalista inglês Andrew Jennings. Ou seja: se há uma coisa de que Dilma não pode reclamar, é da falta de viabilidade política para tomar uma atitude mais firme. Se muitos dos jovens que estão nas ruas pedem mais transparência na gestão do nosso futebol e menos desperdício de dinheiro público com as obras ligadas à Copa, por que não dar uma resposta também a essas críticas? Dentro desse contexto de rebeldia popular por uma “faxina” ética, qualquer atitude no sentido de moralizar o futebol brasileiro seria vista com ótimos olhos pela ampla maioria da população.

Romário e Andrew Jennings: dois defensores da moralização do futebol brasileiro e mundial.

Romário e Andrew Jennings: dois defensores da moralização do futebol brasileiro e mundial.

Como se não bastasse o momento político ímpar, o próprio presidente Marin parece estar disposto a ajudar nessa mudança de postura do Governo Federal: desde o início da semana, o mandatário vem sendo acusado de ter se apropriado de um terreno na zona sul da capital paulista, no valor de R$ 2,8 milhões. O terreno é vizinho a outro de sua posse, que já havia sido objeto de irregularidades entre 1994 e 2005, quando o presidente desrespeitou normas de permeabilidade do solo e plantação de árvores; que foi comprado há exatos 30 anos, dois meses após deixar o governo do estado de São Paulo cercado por denúncias de desvio de dinheiro público.

Mas afinal, o que ainda segura Marin no topo da hierarquia da CBF e do Comitê Organizador Local da Copa? O que explica sua incrível capacidade de escapar, incólume, de todas as acusações? São perguntas que permanecem como pulgas atrás das orelhas da sociedade brasileira e, principalmente, da presidenta. Logo ela, que se diz tão intransigente na luta contra a corrupção. Essa intolerância não parece, entretanto, ser grande a ponto de quebrar o mais firme de todos os pactos estabelecidos – justamente o que não tem o povo como parte. Enquanto isso, José Maria Marin segue dando as cartas no futebol nacional, e desempenhando uma função que ele conhece como poucos: fazendo a “tranquilidade reinar”. Especialmente nos lares dos senhores Joseph Blatter e Jerôme Valcke.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.