O vilão que cai do céu

Xavi Iniesta Recife

Arte: Fred Miranda.

Ah, as chuvas.

Sempre elas a trazer as mais diversas dificuldades à vida do brasileiro.

As chuvas no Brasil podem não ser as mais fortes, ou as mais fartas – e uma imensa região do país está aí para provar. Mas sem dúvida, estão entre as mais devastadoras de todo o planeta.

São elas que, logo nos primeiros meses de todos os anos, aparecem para levar a vida de algumas centenas de brasileiros. E que, no meio do ano, ressurgem para ceifar outras tantas. Para depreciar os bens de milhares de famílias, sobretudo as menos favorecidas.

Para esburacar nossas ruas, estradas e rodovias; para ocasionar todo aquele trânsito nosso de cada dia.

Para fazer deslizar barracões, casas, comunidades inteiras, numa triste repetição de algo a que o brasileiro já se acostumou a vivenciar anualmente.

Esta imagem chegou a virar 'meme': todos os pernambucanos conhecem bem a intensidade das chuvas de junho na capital.

Esta imagem chegou a virar ‘meme’: todos os pernambucanos conhecem bem a intensidade das chuvas de junho na capital.

Não temos furacões, tsunamis e terremotos. Mas as nossas chuvas… essas, são capazes de provocar um caos que um abalo sísmico, de enorme magnitude, não conseguiu criar em uma ilha cujo território é infinitamente menor que o nosso.

Eis que em tempos de Copa das Confederações, São Pedro “surpreendentemente” resolve seguir à risca o roteiro: Recife, uma das sedes do torneio, vive um mês de muitas chuvas, após um verão quente e prolongado. Desde o início de junho, a cidade vem padecendo com fortes tempestades, e já não há mais nenhum trajeto na capital pernambucana que possa ser feito, num dia útil, em menos de uma hora.

Nada disso, entretanto, foi suficiente para alertar a organização do torneio. Logo ela, tão convicta em declarar a cidade pronta para sediar um evento que reunirá algumas das maiores seleções da atualidade.

Chegaram os espanhóis.

Chegaram os uruguaios.

E ambas as delegações passaram seu primeiro dia em terras pernambucanas enfrentando, espantados, alguns dos inúmeros problemas que fazem parte da triste rotina dos recifenses.

Outra imagem do inverno recifense: será que era mesmo tão difícil prever que o volume de águas seria intenso?

O Estádio do Arruda, reservado para a Celeste, estava sem condições de uso. Os atletas pegaram o ônibus e se dirigiram ao CT do Sport, cujo acesso também estava em condições precárias. Pediram autorização para usar as dependências da Arena Pernambuco, local da estreia, e tiveram a solicitação negada. Para não perder o dia, fecharam uma academia na Zona Sul da cidade – causando grande transtorno aos alunos do estabelecimento, que foram barrados na porta.

A Fúria, por sua vez, treinou à noite no CT do Náutico, na Região Metropolitana do Recife. Apesar das condições satisfatórias do campo, o espaço não agradou à imprensa espanhola, que se queixou da grande quantidade de lama existente no acesso ao local e ao redor do campo.

Assim foi o primeiro dia da Copa das Confederações no Recife. Para espanhóis e uruguaios, uma péssima primeira impressão de uma cidade que não consegue sequer lidar com o mais previsível de todos os problemas passíveis de acontecer.

E a chuva, sempre ela, ficou com o papel do vilão. Um inimigo (?) sorrateiro e astuto que, contrariando a todos os alertas da meteorologia e todas as tradições locais, mais uma vez conseguiu surpreender a todas as nossas autoridades. Esse São Pedro é mesmo um danado.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.