Pelé e Garrincha: a comparação dos incomparáveis

  • por Ordep Jose Trindade Serra
  • 6 Anos atrás

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Picasso ou Matisse? Imagine se lhe pedissem para escolher o melhor desse pintores. Tenho certeza de que você se embaraçaria. Talvez tenha preferência por um deles, mas ao indicá-lo com certeza teria o cuidado de explicar que foi movido em sua escolha pelo gosto pessoal, um arbítrio impossível de ser generalizado: não lhe daria o peso de um juízo de valor absoluto. E ainda se queixaria da indagação, da escolha a que ela obriga, parecendo até implicar a necessidade absurda de excluir um indispensável. Na certa , você buscaria esconjurar essa ideia de escolha excludente: diria logo que não abre mão de nenhum dos dois artistas. Caso prefira, suponhamos, Picasso (por sua versatilidade, pela variedade de estilos e técnicas que ele explorou do modo mais criativo), você decerto acrescentará que sabe muito bem do valor extraordinário de Matisse. Defendendo-se previamente, garantirá reconhecer que sem a arte maravilhosa do mestre francês, genial inventor de formas e cores, o mundo da pintura ficaria empobrecido, nossos olhos perderiam uma riqueza especial. No fim das contas, é provável que você desista de apontar o maior desses dois gênios.

Não digo que a comparação seja sempre impossível em matéria de arte. Digo apenas que a partir de certo nível, no platô mais elevado, ela se torna muito difícil: não raro resulta, ou pode resultar, praticamente impossível. Aí está: a mesma coisa acontece com o futebol, com a arte plural do futebol. Por vezes a gente tem parâmetros que sugerem a superioridade de um craque com relação a outro, mas também pode acontecer que esses parâmetros sejam insuficientes, quando nada nos patamares mais altos. Quando isso ocorre não dá para hierarquizar: sente-se que outros valores escapam da medida.

Vejamos o caso de Pelé e Garrincha.

Começo pelo primeiro. Considerando, na avaliação, muitos e importantes parâmetros, Pelé vai destacar-se soberanamente entre todos os jogadores de futebol. Ninguém até hoje atingiu suas marcas, que incluem mais de mil gols e um tricampeonato mundial, entre outras façanhas soberbas. Para quem o viu em campo, é impossível imaginar um craque mais completo. O controle de bola, a precisão do passe, o faro de gol, o rush inigualável, a manha e a força combinadas, a inteligência criativa surpreendendo sempre, o poder de decisão, a explosão instantânea, a colocação perfeita, o chute fulminante – certeiro com a esquerda ou com a direita – a cabeçada mortal, o drible ferino, o arranque incisivo, o senso profético de antecipação, a aguda intuição do momento oportuno, a implacável exatidão do bote seco, rápido, inesperado, a perícia de malabarista combinada a uma objetividade cartesiana, a lúcida engenharia do jogo simples, coisa que só os melhores dominam – algumas, ou até muitas dessas qualidades a gente pode encontrar em diferentes atletas, em craques extraordinários; mas tudo isso junto no mesmo jogador é quase impossível. Acima do quase, até hoje, só está Pelé.

Notem, não esgotei o balanço das artes do Rei. O repertório dele era mesmo fantástico. Lembrem-se da sincronia mágica de suas tabelas com o partner Coutinho, craque cuja maior virtude foi a de ajustar-se a seu ritmo elétrico, à aguda sutileza das suas investidas, quando os dois desenhavam paralelas instantâneas numa espécie de dança guerreira, apoiada em um contraponto diabólico, tecendo gols com o zigue-zague da bola em agulha a dançar de um para o outro, furando defesas. Quase sempre era Pelé quem fazia o arremate nesse bordado enlouquecedor. (Sim, continuamos a ver tabelas bem construídas em muitos estádios, mas não sei de outra dupla que execute o veloz vaivém de toques progressivos com a mesma frequência e com o mesmo acerto).

Estou deixando de fora muita coisa. Não falei da rica criatividade que fez de Pelé um consumado inventor de jogadas estonteantes, como suas “tabelas de um só” em que as pernas dos adversários serviam de parceiros, ou a fatal “paradinha” que a Fifa perplexa excomungou, comovida por um coro mundial de lamentos de goleiros desesperados, humilhados, a reclamar do inevitável. Não falei da tremenda malícia da pantera negra, que muitas vezes surpreendeu em campo seus desleais caçadores, deixando-os abatidos e ainda por cima penalizados, pois com frequência os árbitros os puniam pelo duro castigo por eles sofrido: atordoados, tinham então de preocupar-se com a cobrança da falta, de que seu algoz se encarregava com ameaçadora elegância.

Bem, não dá pra falar de tudo – e sei que dele tudo já se disse. Na verdade, a gesta do Rei continua a ser celebrada. Quando se festeja, por exemplo, um “gol de placa”, em qualquer estádio, comemora-se uma façanha de Pelé, pois foi ele quem mereceu essa honra no Maracanã, marcando um belíssimo tento depois de driblar todo o time adversário (o Fluminense foi a vítima). Ainda hoje, muita gente pelo mundo afora louva jogadas geniais dizendo que “parece coisa de Pelé”.

Só uma coisa vou acrescentar: não sei de outro artilheiro festejado no globo não só pelos inúmeros gols que fez, mas até por alguns que não fez. Refiro-me a três lances fabulosos da Copa de 1970. Ninguém esquece a surpresa do goleiro tcheco Viktor, que à altura da marca do pênalti observava com atenção o desenrolar-se de tramas do jogo de sua seleção contra o Brasil, quando Pelé, inesperadamente, desferiu um fantástico chute do meio do campo. A corrida desesperada de Viktor a olhar para o alto enquanto a bola descaía perto de sua trave esquerda tornou-se um clássico nas antologias do futebol. Banks saiu do jogo do English Team contra o Brasil, na mesma Copa, derrotado mas consagrado, apontado como um dos maiores goleiros do mundo por ter defendido uma cabeçada fulminante do Rei. E o uruguaio Marzukiewsky, que já tinha sofrido um tremendo susto quando Pelé rebateu do meio campo um seu tiro de meta, quase o vencendo, passou por nova aflição no mesmo jogo, em outro lance antológico: numa sequência elétrica o Rei toureador lhe aplicou um drible-da vaca e chutou para o gol. O estádio inteiro levantou-se enquanto a bola passava rente à trave direita. Foi este, sem dúvida, o não-gol mais aplaudido de todas as Copas.

Pois bem: apesar de todas as glórias de Pelé, de suas marcas até hoje não superadas, penso que Garrincha é tão grande quanto ele, um gênio da mesma altura. É verdade que Mané não foi tricampeão do mundo. Mas também é certo que Pelé não o seria sem ele. No primeiro campeonato mundial do Brasil, ambos foram decisivos. No bicampeonato, com Pelé contundido, Garrincha foi o herói da conquista. Ou seja: Garrincha deu a Pelé a possibilidade do tricampeonato.

Evocarei rapidamente o jogo em que os dois estrearam na Copa de 1958: a partida contra a Rússia. A equipe soviética deu a saída. A bola foi para Ilyin, na esquerda, mas De Sordi cortou. Na sequência, Didi recebeu a pelota e tocou para Garrincha na ponta direita. Mané passou por seu marcador, Kuznetsov, como se ele fosse um sombra sem vida, foi à linha de fundo e com um forte chute carimbou a trave esquerda do grande Iashin. Tempo: quarenta e cinco segundos de partida. Instantes depois, lá está Garrincha de novo a passarinhar, infernizando a defesa russa. No meio do salseiro, a bola sobrou para Pelé, que acertou o travessão soviético. Nem dois minutos eram transcorridos. O primeiro gol de Vavá aconteceu pouco mais tarde. E no segundo tempo, aos 31 minutos, nosso centroavante marcou de novo, dando números finais à partida.

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Sim, é certo: Vavá, o explosivo, liquidou a fatura. Na verdade, porém, os soviéticos já estavam derrotados desde muito. Não tinham como resistir: nas suas primeiras arrancadas, com uma série de dribles alucinantes, Garrincha destruiu o futebol científico da URSS. A impossível geometria daquelas pernas tortas era arrasadora, tornava caducos todos os cálculos. Triunfou a dialética de Exu, que demoliu a ciência soviética e fez dela brinquedo. Durante todo o jogo, Garrincha não parou com a vadiação. Divertia-se entortando o pobre Kuznetsov, fazendo-o repetir seus meneios feito um espelho desajeitado, impondo-lhe uma dança bizarra que arrancava o riso das arquibancadas. Dentro em pouco, eram três russos a marcar o implacável mestre de baile, envolvidos por sua dança feiticeira, incapazes de contê-lo.

A propósito dessa partida se conta uma história que muitos repetem sem perceber-lhe o alcance paradoxal. Dizem que o técnico Feola, na véspera do jogo, deu a Garrincha uma instrução esperançosa: “Quando Didi lhe passar a bola, você dribla os adversários, vai à linha de fundo e cruza…” Contam que Mané ouviu tudo muito direitinho, sorriu e ponderou: “Está bem. O senhor já combinou com os russos?”

A expressão pegou. Já ouvi por mais de uma vez pessoas sensatas comentarem, quando um plano fracassa porque opositores foram subestimados: “Faltou combinar com os russos!”

Quem fala assim invoca o bom senso do craque. Mas esquece que Garrincha ia muito além do bom senso, que o ultrapassava com seu gênio ardiloso. Quem cita desse modo suas palavras irônicas esquece o remate da ironia: Garrincha fez justamente o que Feola tinha pedido: driblou os adversários, foi à linha de fundo e chutou. Não uma vez apenas: repetiu a proeza. Botou os russos numa roda viva sem ter combinado coisa nenhuma, muito ao contrário, sem levar em conta as combinações que eles faziam na vã tentativa de marcá-lo. Era seu jeito, era seu costume: gostava de desafiar os adversários com seus pés enigmáticos, com uma graça chapliniana. Anjo torto que Drummond celebrou, mestre de logros, pássaro brincalhão, ensinava no campo as artes de Macunaíma, enlouquecendo seus marcadores com a poesia das várzeas. Era irresistível.

Lembro mais uma vez: na Copa do Mundo de 1962, com Pelé fora de combate, ele assumiu sem tremer o comando das esperanças de todos os brasileiros. Revelou-se, então, jogador completo, decisivo. Assumiu o cetro do Rei ferido, sagrou-se Imperador nos campos chilenos.

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Pelé será sempre o mais admirado, Garrincha o mais amado. Ele retrata com perfeição o seu povo sofrido, injustiçado, maltratado por uma elite brutal que não acredita no seu gênio, que o explora e despreza, um povo que mesmo assim cultiva a alegria e mostra seu brilho nas circunstâncias mais adversas. Neste país esquisito em que das mãos humildes de um aleijado brotaram estátuas magníficas e um escravo fugido criou a primeira república, um maravilhoso moleque de pernas tortas protagonizou as cenas mais belas e jocosas da história do futebol. Menino grande, atleta cambaio docemente irresponsável, maluco que parava a bola na linha do gol para marcar o tento diante da tropa de zagueiros desesperados, gênio reprovado nos psicotestes, fujão que preferia concentrar-se em braços de mulher, cachaceiro que embriagava, Mané ingênuo e sabidíssimo, Garrincha, meu santo, lá dos campos celestes, junto com teus irmãos alados, vela por nosso futebol.

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Graduado em Letras pela UNB, Mestre em Antropologia Social pela UNB e Doutor em Antropologia pela USP. Professor Associado do Departamento de Antropologia da FFCH / UFBA. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA; Prof. participante do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA. Membro da Associação Brasileira de Antropologia, da SBPC, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia. Membro fundador do Grupo de Pesquisa “Encruzilhada dos Saberes”. Fundador e Coordenador do Grupo Hermes de Pesquisa e Promoção Social e do Movimento Vozes de Salvador. Produção principal em Antropologia da Religião, Antropologia das Sociedades Clássicas, Etnobotânica, Teoria Antropológica. Tradutor de textos científicos e literários. Escritor premiado três vezes em concursos nacionais de literatura, com obras de ficção (conto, novela).