Scolari e uma receita de sucesso antiga

  • por Victor Oliveira
  • 8 Anos atrás

big phil

Felipão (ainda) não voltou com o 3-5-2. Muito menos tem se mostrado retrógrado taticamente. Porém percebemos em seu trabalho muitas semelhanças com aquilo que foi feito em 2002 na montagem da equipe do penta. Algumas receitas antigas de sucesso estão sendo repetidas e isso tem se refletido, mesmo que em pouco tempo, nas atuações da Seleção Brasileira. As vitórias sobre França e Japão pelo placar de 3 x 0 mostram uma evolução e uma padronização que começam a trazer mais confiança.

Em 2002, o Brasil inteiro clamava pela convocação de Romário, sendo aquela a última oportunidade de o ídolo do tetra jogar um mundial. Com Ronaldo em condições físicas duvidosas, vindo de uma das contusões mais sérias de sua carreira, o nome do herói do tetra ecoava como a solução do Brasil para suplantar a malsinada falta de gols. Scolari, entretanto, não se rendeu ao apelo da maioria. Deixou o Baixinho de fora e deu sua mítica camisa 11 para o jovem e ainda não tão famoso Ronaldinho Gaúcho.

Ele, na época, jogava no Paris Saint Germain e, apesar das boas atuações, ainda não tinha estourado no futebol europeu. Ao não chamar Romário e entregar sua camisa para o jovem dentuço, mostrou que buscava eficiência e juventude para poder colocar em prática suas convicções táticas. Além disso, defendeu Ronaldo com todas as suas forças, mesmo após os problemas em 98 e as seguidas contusões. Referia-se ao Fenômeno como “o seu jogador”.

Pequenas atitudes às vezes possuem uma importância que exorbitam seu ínfimo tamanho. Se antes foi Romário, dessa vez o clamor popular foi pela convocação de Ronaldinho Gaúcho, que 11 anos depois do penta, é o craque experiente da vez. Novamente Scolari privilegiou suas convicções e não chamou Ronaldinho, muito menos Kaká. Para mostrar sua intenção, tirou a camisa 11 de Neymar e o vestiu com a 10, conferindo ao craque o status de líder técnico do time. Também vem defendendo o jovem atleta de forma sistemática e ontem novamente falou ao ser indagado quanto à atuação do garoto: “É o meu jogador”.

Novamente Felipão privilegiou a eficiência e a juventude em detrimento da experiência e do peso do nome. E mais uma vez para aproveitar de forma sábia a base deixada pelo seu antecessor. Assim como em 2002, assumiu a Seleção às vésperas da Copa e com a equipe em crise. Inovar totalmente e começar do zero nunca é uma boa saída para quem não tem o tempo a seu favor. Aproveitar o mérito de seu antecessor, sem orgulho e invenções, é outra receita que vem sendo repetida com êxito. A escolha de Neymar como “seu jogador” e a entrega da camisa 10 para o craque passam pelas suas convicções táticas.

No plano tático, como ensinado por André Rocha no texto intitulado “Reciclagem de Luxemburgo passa por sua própria história”, publicado no dia 24/09/2010, André ensina que o time montado por Luxa foi a base para Felipão: “Na seleção, o melhor momento, além da conquista da Copa América de 1999, foi a espetacular vitória no mesmo ano sobre a Argentina num amistoso em Porto Alegre por 4 a 2. Para muitos, a exibição histórica, combinando fibra, organização e o talento do trio ofensivo Ronaldinho-Rivaldo-Ronaldo foi a base, mesmo com esquemas diferentes, para a equipe campeã mundial três anos depois sob o comando de Luiz Felipe Scolari”.

receita scolari 1
Acima imagem feita por André Rocha que recebeu a seguinte legenda: “O Brasil da vitória sobre a Argentina em 1999: 4-3-2-1 com Ronaldinho e Rivaldo encostando em Ronaldo e força pelas laterais. Qualquer semelhança com a seleção de Scolari e 2002 não é mera coincidência”.

receita scolari 2 Brasil de 2002: estrutura sólida montada para que o trio formado por Ronaldinho, Rivaldo e Ronaldo decidisse. Assim como a liberdade conferida aos laterais, Felipão importou várias idéias advindas do trabalho de Luxemburgo. (Ilustração: André Rocha)

receita scolari 3
 Como demonstrado aqui no Painel na parte 4 sobre o legado tático de Mano Menezes, essa era a equipe que o técnico começava a padronizar após 2 anos de exaustivos testes: 4-4-1-1 com Hulk dando profundidade pelo flanco, Oscar centralizando para pensar o jogo e dois na frente para decidir, tudo isso guarnecido por duas linhas de marcação.

receita scolari 4Equipe que Felipão vem padronizando (ilustração da última partida contra o Japão): um híbrido 4-4-1-1/4-2-3-1/4-1-4-1 que busca marcar em linhas e confere certa liberdade tática para Paulinho e Neymar, os responsáveis pela hibridez do desenho. Do time deixado por Mano, oito permaneceram, além do esquema, da marcação em linhas e da liberdade dada para Neymar decidir. Felipão pegou a massa do bolo deixada por Mano, colocou seu camisa 5 para morder, seu camisa 9 para decidir e soltou Neymar como um ponta de lança atrás do centroavante. Sempre com Oscar organizando as ações ofensivas pelo meio.

Entre erros e acertos, Felipão, como todos, possui virtudes e defeitos. É inegável que o peso de seu nome, assim como o de Parreira, trouxe para a base formada por Mano, após dois anos de trabalho, a sustentação de que ela precisava. Aproveitar as descobertas eficazes do antigo comandante foi o mais oportuno para o momento, sendo imprescindível quando o tempo está escasso. Os resultados obtidos contra França e Japão acenam para um futuro promissor, algo que parecia bem distante há poucos dias. É aguardar e continuar torcendo. Abraço!

Comentários