Shaqiri e a Bandeira Suíço-Kosovar

O pós-nacionalismo e sua expressão no futebol

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Por Matheus Tatsch (do blog Bubamara)

CHAMADA FANPAGE

Com gol de Robben, aos 44 minutos de jogo, o Bayern de Munique comemorou o título de campeão da Europa em cima do Borussia Dortmund. Uma partida muito boa, com lances de perigo de ambos os lados e uma predominância bávara, sobretudo no segundo tempo. Porém, o que esta coluna analisará não se deu nas duas etapas da partida, senão numa terceira: a comemoração.

É um momento clássico: assim como os jogadores do Borussia Dortmund guardaram, seguramente, bandeiras do Brasil, Turquia e Polônia (essa aqui nem precisa comentar, não é por pouco que o time ganhou o apelido de “Polônia Dortmund”) para uma eventual vitória, os atletas do Bayern também o fizeram; Tymoschuck com a da Ucrânia, Mandzukić com a croata, os brasileiros com uma nossa, adaptada para portar o símbolo do Bayern no lugar do “Ordem e Progresso” – convenhamos, a equipe bávara dá mais valor a esse lema positivista que nós. Entretanto, a que mais nos chamou atenção nesse mar de nacionalismos – e a que sentimos que vale a pena ser mencionada e analisada – foi a de Xherdan Shaqiri.

LOCAL NASCIMENTO SHAQIRI

Foto: Reprodução / http://www.cnn.com/WORLD/europe/9906/25/kosovo.marines/

Shaqiri nasceu em Gnjilane, cidade no sul do Kosovo, na época ainda parte da extinta Iugoslávia. A fim de evitar os subsequentes conflitos com a Sérvia, seus pais se exilaram na Suíça. Crescendo no país neutro, Xherdan começou a jogar bola, chamando atenção de clubes grandes, como o FC Basel. Na Basiléia, ele desenvolveu seu futebol e foi convocado para as seleções de base da Suíça, jogando desde o sub-17 até o sub-21, chegando até a seleção principal. Essa história parece peculiar para ti? Bom, ela não é para Shaqiri, Granit Xhaka, Blerim Džemaili, Valon Behrami e grande parte da população kosovar que acompanhou a dissolução da Iugoslávia e os atos xenófobos do sérvio Slobodan Milosević. A imigração de kosovares nessa época foi intensa, principalmente para Suíça, Alemanha, Itália, Bélgica e Reino Unido.

DZEMAILI - BEHRAMI E SHAKA

Džemaili, Behrami e Xhaka, respectivamente. Todos exemplos iguais ao de Shaqiri. Kosovares que emigraram fugindo da intolerância e da guerra.

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Um pouco de História

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BALCÃS

Mas para entendermos melhor essa questão, temos que voltar no tempo. A relação sérvia com Kosovo data de séculos atrás, tendo como ponto de referência a Batalha do Kosovo, no ano de 1389, entre o príncipe sérvio Lazar Hrebeljanović e o sultão Murad I, que invadia a região junto ao império otomano. A batalha se deu a apenas alguns quilômetros da cidade que atualmente é a capital do Kosovo, Pristina, e resultou na morte tanto de Hrebeljanović quando de Murad I. O conflito é até hoje usado pelos sérvios para invocar o nacionalismo, dado que é desse evento que se criaram lendas e cânticos passados adiante, principalmente através de Vuk Karadzić, sendo quase um mito de criação.

Thomas Emmert, no seu trabalho Serbian Golgotha, Kosovo 1389, descreve a emoção de um soldado quando da anexação do Kosovo por parte da Sérvia, contra os Otomanos, nas guerras balcânicas de 1912-1913:

“O simples som daquela palavra – Kosovo – causava uma excitação indescritível. Essa palavra única apontava para o passado negro – cinco séculos… Meu deus, o que nos aguardava! Ver um Kosovo livre… Os espíritos de Lazar, Milos e todos os mártires da Batalha do Kosovo nos admirando. Sentimo-nos fortes e orgulhosos, porque somos a geração que vai realizar o sonho da nação, que tem séculos de idade!”

A partir da guerra dos Bálcãs, o Kosovo passou a pertencer à Sérvia e, posteriormente, à Iugoslávia, sendo referida como a Província Autônoma do Kosovo e Metohija. Enquanto a maior parte do país falava sérvio-croata, o Kosovo se manteve como província de maioria étnica albanesa, de língua albanesa. A forte presença de sérvios, principalmente no norte, deixou o país etnicamente dividido, gerando uma reação de violência inter-étnica, culminando na Guerra do Kosovo em 1999.

Nos dias atuais, o Kosovo já tem sua independência, proclamada em 2008, reconhecida por um bom número de países (91 de 193 membros da ONU), incluindo os Estados Unidos. Vê-se como uma questão de tempo para que a situação kosovar se solucione, ainda que a Sérvia continue se esforçando para impedir tal resolução. Atualmente, o que mais chama atenção nas discussões é a disputa pela província de Mitrovica, no norte do Kosovo, cuja população de sérvios é grande e, ao mesmo tempo, possui recursos naturais importantes desde a época da Iugoslávia.

O Kosovo foi a província mais pobre da antiga Iugoslávia. Em 2004, no pós-guerra, o país contava com 44% da população vivendo na pobreza e 14% em extrema pobreza. A miséria se concentra nas áreas rurais, que ainda dão lar para 60% da sociedade kosovar. Essas condições extremas resultaram na imigração de milhares de kosovares, tanto entre as cidades do país, quanto em nações próximas ou da Europa Ocidental. Em 2005, um terço dos kosovares declararam que tinham intenção de emigrar.

A maioria dos imigrantes kosovares na Alemanha, Reino Unido, Bélgica e Itália eram trabalhadores ilegais, sendo a grande maioria asilados políticos (aceitos ou não) e apenas 36% deles possuem permissões laborais. Em 1992, estatísticas mostraram que 72.000 kosovares haviam emigrado para a Suíça e 82.000 para a Alemanha; esse número certamente aumentou no período de guerras. Entretanto, os imigrantes dessa época receberam simplesmente a alcunha de “iugoslavos” ou “sérvios”, impossibilitando uma aproximação correta. Hoje, calcula-se que a população de imigrantes kosovares na Suíça seja entre 150 mil e 300 mil habitantes, os quais são portadores de uma imagem ruim, sendo chamados de “Asilados”, “Traficantes” e “Machos dos Bálcãs”.

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E o futebol no Kosovo?

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LIGA DO KOSOVO

Os anos 80, década de ouro do futebol iugoslavo, foram também os anos de ouro do futebol kosovar. O Klubi Futbollistik Prishtina, time da atual capital do Kosovo, teve seu grande momento nesse ponto, sendo um dos times mais competitivos da Iugoslávia. Hoje, depois de anos do conflito com a atual República da Sérvia e uma independência ainda não reconhecida por alguns órgãos (inclusive a FIFA), uma liga com pouquíssimos recursos, a Raiffeisen Superliga, assiste com tristeza à falta de estrutura que faz com que as partidas no Stadiumi i Prishtines não possuam a mesma beleza do passado.

A confederação que organiza o futebol no Kosovo se chama Federata e Futbollit e Kosovës(FFK), dirigida pelo único kosovar a jogar na seleção iugoslava: Fadil Vokrri. Em 2008, após a declaração unilateral de independência, o Kosovo aplicou junto à FIFA sua membresia, a qual foi rejeitada de acordo com o artigo 10 do estatuto do órgão suíço, que fala que apenas “estados independentes reconhecidos pela comunidade internacional podem ser aceitos”. A FFK também luta para que sejam permitidos jogos da seleção e dos clubes kosovares com equipes membras da FIFA. Tal concessão já havia sido dada em 22 de março do ano passado, mas retirada após protestos da confederação sérvia (FSS) e do presidente da UEFA, Michel Platini. A disputa de torneios oficiais se encontra fora de discussão. A seleção nacional kosovar existe. Participou, porém, de apenas um campeonato em toda a sua história: a Copa do 50ºAniversário da Associação de Futebol do Chipre do Norte (KTFF), na qual o Kosovo finalizou em segundo lugar no triangular, ganhando por 4 a 1 da Lapônia (seleção que engloba populações da Noruega, Suécia, Finlândia e Rússia) e perdendo por 1 a 0 contra o Chipre do Norte. Tanto o Chipre do Norte quanto a Lapônia não participam da FIFA, o que justifica a participação do Kosovo nesse torneio.

FEDERAÇÃO KOSOVO

Foto: http://botasport.com/wp-content/uploads/2011/03/Kos1.jpg – Seleção Kosovar em ação.

A FFK também organiza a liga kosovar, nomeada Superliga e Kosovës e patrocinada pelo grupo bancário Raiffeisen, muito presente no leste europeu e nos bálcãs. Desde a criação da liga, em 1999, o KF Prishtina saiu campeão em 6 ocasiões, enquanto o KF Besa (time semi-profissional) é tricampeão.

No ano passado, a Suíça jogou uma partida pelas qualificatórias da Copa do Mundo contra a Albânia, em Lucerna. Dois terços da arquibancada estavam compostos por imigrantes albaneses/kosovares. Além disso, dos 22 jogadores em campo, 9 nasceram no Kosovo, entre eles Shaqiri, Xhaka, Behrami (jogador suíço do Napoli) e Lorik Cana, capitão da Albânia, jogador da Lazio e filho de Agim Cana, ex-jogador kosovar. Fadil Vokrri comentou, dias antes do jogo:

“É muito especial para mim ver diferentes times nacionais jogando com jogadores nascidos no Kosovo. É como olhar um jogo entre Kosovo A contra Kosovo B – mas o time real do Kosovo não pode ser representado.”

Ante essa partida, a mídia albanesa (mas não kosovar) atacou os diversos jogadores suíços, chamando-os de traidores. Tal fato fez com que Granit Xhaka, jogador suíço-kosovar, escrevesse uma carta aberta aos torcedores da Albânia, na qual o jogador comenta que “na partida entre Suíça e Albânia, serei o oponente da minha própria nação”. Xhaka termina a carta falando: “Eu, Granit Xhaka, que fui denunciado como traidor, sou filho de um prisioneiro político, que guiado por suas crenças de uma Albânia maior foi aprisionado na Sérvia. Eu nasci e fui criado com o espírito de patriotismo dos meus pais”.

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SHAQIRI NACIONALIDADE

No Kosovo, a população torce para Shaqiri como se ele fosse o camisa 10 de uma utópica seleção kosovar – e isso é fortalecido pela mídia.

De fato, uma breve investigação nos dois jornais mais fortes do Kosovo, o Koha e a Gazeta Express, nos mostram uma constante abordagem, principalmente de Shaqiri, que foi nomeado o melhor jogador do campeonato suíço na temporada retrasada. Mesmo com o conhecimento em albanês longe do básico, não é difícil encontrar e entender referências que descrevem ambos jogadores como kosovares ou albaneses: “Futbollisti kosovar”, “Mesfushori kosovar”, “futbollisti shqiptar”, “sulmuesin shqiptar” (respectivamente: futebolista kosovar, meio-campo kosovar, futebolista albanês, atacante albanês). Ao tratar da outra nacionalidade dos atletas, os jornais normalmente apontam os atletas como “representantes kosovares da Suíça” (reprezentuesi kosovar i Zvicrës), ou “futebolista albanês com passaporte suíço” (futbollisti shqiptar me pasaportë zvicerane).

O que é importante frisar é que os jogadores suíço-kosovares estão integrados à sociedade suíça, tanto Shaqiri quanto Xhaka falam alemão e tiveram na estrutura esportiva do país seu desenvolvimento futebolístico.

Neide Lopes Patarra, socióloga da área da globalização, argumenta que as migrações nos dias atuais construíram um desafio à hegemonia do Estado-nação, já que as identidades sociais sofreram uma desterritorialização. A mídia e sociedade kosovar são compreensíveis com esse fenômeno: ainda que tenham sido criados e residam na Suíça, os atletas sempre são colocados como “jogadores kosovares de passaporte suíço”. A nacionalidade suíça passa por uma ressemantização, na qual a mesma desponta atrelada ao Kosovo (“representante kosovar na Suíça”, “jogador albanês de passaporte suíço”) e, da mesma forma, aparece como uma questão burocrática e mecânica, através do uso de expressões como “representante” e “passaporte”. Em nenhuma das reportagens pesquisadas o adjetivo “suíço” acompanha o sujeito nas orações, reservando esse espaço para “kosovar” ou “albanês”,

Frente à situação desses jogadores, a FIFA não tem ainda uma decisão tomada para uma possível consolidação de uma seleção kosovar. Tanto Xherdan Shaqiri, quanto Granit Xhaka e outros atletas, já declararam que gostariam de jogar pela sua terra natal – situação que é ligeiramente diferente a outras, como a de alemães-turcos (vide Sahin e Gundogan), pois a seleção kosovar não existe segundo a FIFA nesse momento, muito menos quando esses imigrantes “tomaram a decisão” de atuar pela Suíça. Assim, lembramos que, naquele instante, não era uma decisão, pois não havia como optar pelo Kosovo.

Neste sentido, atletas como Xherdan Shaqiri acabam tendo um papel social muito grande, trazendo relevância e atenção internacional para a causa e a situação kosovar. Nossa última consideração, que deixamos em aberto, trata dos passos que todos esses atores sociais darão, caso a seleção kosovar passe a existir e jogadores como Granit Xhaka e Xherdan Shaqiri decidiam juntar-se na sua paixão pelo Kosovo. Como a UEFA, FIFA e, além delas, a própria diplomacia internacional reagiria? Qual seria o tamanho da festa kosovar em Pristina e qual seria a desilusão dos suíços ao perderem suas joias? Como comemoraria a nação kosovar do mundo, desde o emigrante até o cidadão nacional? Desde Fadil Volkrri até o primeiro ministro kosovar, Hashim Thaçi? E o emigrante na Suíça, ficaria feliz ou teria medo de sofrer (mais) represálias da sociedade que o recebeu?

Seria tal fenômeno suficiente, não só para que o futebol, mas também todo o globo entendesse que as rígidas muralhas burocráticas do Estado-nação se esfacelam e que de suas migalhas surgem laços que conectam os indivíduos de todo o mundo?

PS: O material usado nesse artigo e todas as suas fontes estão descritas em um trabalho acadêmico feito por mim, de nome “Futebol na Europa, Emoção no Kosovo”, o qual conta com uma mirada muito mais profunda sobre a questão. Quem tiver interesse em obtê-lo, pode entrar em contato comigo e com o blog em www.facebook.com/bubamarafutebol.

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Antropólogo, fanático por relações internacionais, direitos humanos, literatura e, óbvio, Doente por Futebol. Além de colunista para o DPF, escrevo para o fã clube Borussia Dortmund Südbrasilien e no projeto latinoamericano Goltura Futebol. Jogo de segundo volante.