Taiti e os 23 guerreiros

  • por Lucas Sartorelli
  • 6 Anos atrás

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Era uma tarde ensolarada de 10 de junho de 2012 em Honiara, capital das Ilhas Salomão.

Quando Steevy Chong Hue, funcionário de uma companhia de celular e atacante do FC Blied-Gaume, clube amador da terceira divisão do futebol belga, encostou o pé na bola que resultou no gol que garantiu a vitória do Taiti contra a Nova Caledônia, ele fez mais do que vencer uma partida decisiva. Ele garantiu à sua nação uma oportunidade daquelas que só aparecem uma vez na vida.

Seu gol veio no final da Copa das Nações da Oceania, competição que deu ao campeão a oportunidade de jogar a Copa das Confederações de 2013.

Ao fim da partida, estava ali reunido em comemoração um estranho grupo formado de escriturários, professores, alpinistas, entregadores, motoristas, vendedores e até mesmo um jogador profissional de futebol.

Assim que o juiz soprou o apito final, a primeira coisa que fiz foi correr para os outros meninos gritando: ‘Vamos para o Brasil, nós estamos indo para o Brasil!‘”, relata Mikaël Roche, goleiro taitiano.

Foto: Fifa.com

Foto: Fifa.com – Taitianos comemoram título histórico

Completamente extasiados pelo que acabara de acontecer, por um momento, até se esqueceram de que, poucos dias antes, seu bravo adversário da final havia vencido a toda poderosa Nova Zelândia pelas semifinais do torneio, contrariando a lógica do futebol e mostrando que sabia lidar com um país que saiu invicto da última Copa do Mundo e que tem tido muito mais experiência contra algumas das mais notáveis seleções do planeta.

Somos somente um pequeno país indo jogar contra sete nações renomadas no futebol mundial. Ganhar a Copa das Nações da Oceania nos provocou uma alegria incrível. Depois de nossa vitória, eu acho que nossos jogadores ainda não estão realmente cientes do que nós enfrentaremos na Copa das Confederações“, disse o treinador Eddy Etaeta, que comanda a seleção desde 2009.

O fato de a Copa das Confederações ser usada como prefácio para o mundial, ao permitir que os torcedores ao redor do mundo tenham uma pré-visualização da atmosfera que podem esperar no país anfitrião no ano seguinte, já seria um grande motivo para justificar toda a euforia dos jogadores da maior ilha da Polinésia Francesa. Entretanto, ao analisarmos e tomarmos conhecimento das circunstâncias que cercam alguns dos guerreiros taitianos campeões, vemos que existe um algo mais.

Foto: Fifa.com

Foto: Fifa.com – Jonathan Tehau

Não seria exagero dizer que, dentro de campo, a equipe se portou como uma verdadeira família. Entrosamento não foi problema, ao menos quando falamos da família Tehau, com quatro membros na equipe: os irmãos Jonathan, Alvin e Lorenzo, além do primo Teaouni. Na briga pelo título, a família garantiu 15 dos 20 gols do Taiti, contribuição mais do que essencial na vitoriosa campanha.

Enquanto o defensor Tamatoa Wagemann joga na amadora e distante quinta divisão francesa, outros 20 jogadores da seleção atuam no pobre futebol local. Devido aos baixíssimos incentivos, são obrigados a seguir os caminhos que Chong Hue trilhou na Bélgica, considerando o ofício de jogador quase como um hobby e recorrendo a outros empregos para garantir a sobrevivência. Tal situação torna Marama Vahirua uma raríssima exceção, o único jogador do país a ter se profissionalizado no futebol.

Conhecido na França e ignorado na maioria do globo, Marama Vahirua é de longe a principal estrela do país. O atacante, nascido na capital Papeete, é um dos orgulhos nacionais desde que estreou com a camisa do Nantes, em 1998. Ídolo no clube francês, o atleta, atualmente no Panthrakikos, da Grécia, nunca deixou de honrar a terra natal em cada gol que marca.

De joelho ao chão e duas vigorosas remadas: Vahirua repetiu a comemoração noventa e uma vezes em 14 temporadas na elite do futebol francês — um gesto cheio de significado para quem sonhava em ser surfista na infância e continua gostando de participar das corridas de canoa taitiana com os velhos amigos.

Foto: Fifa.com

Foto: Fifa.com – Varihua em mais uma comemoração ao estilo Taiti: o astro que nunca esqueceu as origens

Transformei o remo em símbolo do meu país“, diz Vahirua.

Vahirua ficou famoso na França depois de ser descoberto durante uma partida do amador Pirae, do Taiti. Contratado pelo Nantes, caiu rapidamente nas graças da torcida graças ao faro de artilheiro. Quinze anos mais tarde, todas as esperanças estão depositadas nele para a estreia do selecionado taitiano.

Lances, gols e muitas remadas de Marama Vahirua

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Mas o atacante não sucumbe à pressão. “Pelo contrário, é uma pressão positiva“, destaca.

É a primeira vez que a seleção se classifica para uma competição desse calibre. Claro que as pessoas esperam muito de mim. Mas o futebol é jogado por 11, ou até mais, contando quem estiver no banco. Portanto não sou só eu quem vai fazer a equipe ganhar ou perder. Nós não estamos indo ao Brasil para tirar uma foto com Sergio Ramos, David Villa ou Forlán, mas para representar o nosso país e fazer bem nossa parte“.

Roche explica como a atarefada agenda diária torna os compromissos com a seleção um verdadeiro desafio.

Foto: zimbio.com

Foto: zimbio.com – Roche, o guardião taitiano: apesar das dificuldades, sem medo

É muito difícil, tenho que começar o dia muito cedo por causa de meu trabalho fora do futebol. Eu só tenho tempo para ir para casa, pegar minha mala e ir para o campo porque os prazos são muito curtos“.

O goleiro sabe que sua posição o colocará frente a frente a alguns dos maiores atacantes do mundo na Copa das Confederações. No entanto, Roche está longe de se mostrar intimidado com a perspectiva de estar na “linha de fogo” e afirma que nem ele, nem seus companheiros trocariam a situação atual por nada.

É ótimo. Toda semana, nós ligamos a TV e vemos Real Madrid e Barcelona, então jogar contra os melhores do mundo é simplesmente um presente. Você sempre quer ir mais longe no futebol e agora estamos indo para o Brasil, a igreja do futebol, é incrível“.

Definitivamente, a falta de reconhecimento não abala o feito e o orgulho dos jogadores que defenderão a bandeira da pequena ilha no Brasil.

Penso que vamos realizar o sonho de todos os jogadores amadores do mundo, das pessoas que jogam nos campinhos, nas ruas, nas favelas. Vamos representar todos eles. Parece impossível que um país que não jogue futebol profissional vá enfrentar as melhores equipes do mundo, é inacreditável“, comemora Efrain Arañeda, meio-campista chileno naturalizado taitiano.

O contraste de uma seleção amadora frente às demais fica visível especialmente quando lembramos que os atletas estão muito longe de ganhar os salários milionários dos adversários que encontrarão na Copa das Confederações.

Foto: zimbio.com

Foto: zimbio.com – Sem investimentos,  a união é a principal arma do time

O salário mínimo aqui no Taiti gira em torno de 1.200 dólares. Eu tiro um pouquinho mais do que isso“, revela Teheivarii Ludivion, que é alpinista profissional e, nas horas vagas, atua como zagueiro da seleção.

Samuel Hnanyine, outro atacante da seleção, é muito habilidoso e surge como uma das apostas da equipe. Mas a profissão dele, estivador, prejudica bastante o corpo. Ele acorda todos os dias às 5h30 e chega a carregar 25 mil quilos em mercadorias por dia.

Carrego sacos que pesam 50 quilos. Entrego 250 sacos pela manhã e mais 250 à tarde. São três ou quatro entregas por dia. Às vezes, todo o meu corpo dói. Meus músculos cansam. Eu me machuco muito em campo por causa disso“.

Apesar do feito heroico, as condições atuais do futebol taitiano não devem mudar. A façanha não chegou nem a garantir que os jogadores deixassem o anonimato no país cercado de água. Além da Canoa Polinésia, considerado o esporte nacional, o surfe também é praticado regularmente, já que, no litoral do país, fica Teahupoo, a praia dos sonhos para surfistas do mundo inteiro que buscam ondas gigantes. Por esses e outros fatos, muitos taitianos e moradores da ilha sequer sabem da classificação da seleção de futebol para o evento no Brasil.

Tornar o futebol algo profissional no Taiti é algo muito difícil. Para ser honesto, eu não acho que, no futuro, podemos ter um futebol profissional aqui. A economia não é muito desenvolvida e não há grandes empresas para patrocinar os clubes. Então, não há como haver a profissionalização e o outro problema é o público nos estádios. Não entra quase dinheiro nenhum para os clubes“, explica Greig Moema, presidente da Federação Taitiana de futebol.

Foto: zimbio.com

Foto: zimbio.com – Eles estão prontos!

É a primeira vez que um país da Oceania que não Austrália ou Nova Zelândia consegue tanto destaque no futebol. Mais do que a pequena nação cuja população caberia dentro de um Santiago Bernabéu e um Camp Nou, parte do mundo se verá simbolizada por 23 taitianos e suas histórias de superação e amor ao esporte.

No mundo, 99% dos jogadores de futebol são amadores, só 1% deles são profissionais. E nós teremos a honra de representar esses 99%. Somos os únicos amadores do mundo que conquistaram esta chance“, finaliza Chong Hue.

Vídeo motivacional feito por integrantes da comunidade “Futebol alternativo” para a seleção do Taiti, evidenciando e reconhecendo o grandioso feito de todos e garantindo a pequena, porém, animada torcida taitiana no Brasil.

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Toa Aito!

(Guerreiros de ferro, em taitiano)

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Paulistano, projeto de jornalista e absolutamente ligado a tudo o que envolve essa arte chamada futebol, desde a elegante final de uma Copa do Mundo às peculiaridades alternativas das divisões mais obscuras de nosso amado esporte bretão. Frequentador assíduo nas melhores (e piores) várzeas e peladas de fim de semana, sempre à disposição para atuar em qualquer posição.