Véspera

  • por Ordep Jose Trindade Serra
  • 8 Anos atrás

Entre as brumas de um junho inflamado, com o Brasil em polvorosa, escrevo esta crônica depois de semifinais dramáticas, porém antes do jogo que deverá encerrar a Copa das Confederações. Junto com meus amigos, estou em rigorosa concentração: torcida que se preza também se concentra, como todos sabem. Dessa vez a dificuldade é maior: a dispersão se torna quase irresistível, o trabalho de evitá-la exige esforço incomum. É que nos mobilizam duas Copas simultâneas: também nos interessa a das Manifestações, em que todos nos envolvemos, de um modo ou de outro. É verdade que as duas estão ligadas, são vasos comunicantes. Mas nem sempre é possível a sintonia dos temas que cada uma delas nos propõe.

Como se não bastasse, não conseguimos desvencilhar-nos do aguilhão do futuro enigmático: não paramos de pensar nos desdobramentos da atual situação política, no que pode vir de toda essa imensa mobilização em todo o país. Tampouco temos jeito de evitar as discussões sobre o Mundial que se aproxima.

Pensando bem, são três Copas que nos embebedam e dividem nossa atenção. Delas transborda o imprevisível que nos acossa de todos os lados. E contraditoriamente o ataque da incerteza nos induz a conjeturas frágeis, a previsões que sabemos infundadas.

Resumindo: a turma toda está meio zonza. Começamos há pouco a falar do jogo iminente entre Brasil e Espanha, mas logo fomos interrompidos pelas notícias do movimento das ruas. Nisso a gente estava quando voltou a lembrança das partidas que já aconteceram e o debate a respeito se acendeu. Logo, porém, o interesse geral mudou de rumo, fez meia volta. Agora a discussão rodopia em fogo, que nem uma girândola. Detenho-me para fazer esta crônica enquanto meus camaradas debatem mobilidade urbana, a campanha da seleção, o desfecho da partida entre a Azzurra e a Roja (com eventuais mudanças de cor), o plebiscito de Dona Dilma, a escolha entre Lucas e Bernard, o time ideal para 2014, a hipocrisia de Calheiros, as perspectivas da Celeste, o jogo sujo e o vandalismo, o passe livre na grande área – e por aí vai. A cada instante muda o foco, as vozes se cruzam e se interrompem, de modo que todos se embaraçam e todos reclamam da confusão que alimentam. De um jeito ou de outro, porém, a conversa prossegue. Quase por milagre, pouco a pouco vamos nos entendendo: abrem-se clareiras no diálogo, definem-se trilhas na discussão.

Espero que aconteça o mesmo com minha crônica.

Começo pelo primeiro assunto que se impôs: os tumultos fora de campo, a repressão estúpida aos protestos pacíficos e a consequente alimentação do vandalismo pela Polícia Militar, principalmente aqui na Bahia. Formou-se entre nós um rápido consenso: o Governador Jaques Wagner parece interessado em ganhar um campeonato de irresponsabilidade, um torneio de insensatez. De saída, ele falou que aceitava o protesto pacífico e condenava os vândalos, mas na prática fez outra coisa. Disse que não lhe interessava saber quem começou o confronto na manifestação do último 20 de junho – se os manifestantes ou os policiais. Acumulam-se agora os testemunhos, os vídeos e depoimentos provando que a polícia agiu de forma desatinada: em barreiras formadas a sete quilômetros do Estádio da Fonte Nova, empenhou-se em impedir a aproximação da passeata – até esse momento pacífica – lançando contra o povo bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral, de imediato e sem mais conversa. A partir desse momento, os baderneiros prevaleceram sobre os manifestantes autênticos. À noite, já ultrapassando o campo do protesto, deu-se o pior: uma horda de criminosos que não tinham interesse algum em manifestação tomou conta do despoliciado centro histórico de Salvador, promovendo saques e quebra-quebra. Tinham campo livre. Chegaram tarde os policiadores, muito ocupados em impedir protestos legítimos. Já na manifestação do dia 22, a polícia agiu com truculência maior ainda. Um conselheiro da OAB deu testemunho público da brutalidade dos policiais. Eles parecem ter entendido que o Governador pouco se importava com seu procedimento. Baixaram o pau. E, de novo, os vândalos se aproveitaram.

Um jornalista foi preso ao indagar porque espancavam um colega seu; outro, no exercício de sua função, foi atacado com gaz de pimenta. Um fotógrafo viu-se obrigado pelos soldados a apagar as fotos que fazia. O site do Bahia Notícias do dia 24 último exibiu um vídeo impressionante. A filmagem registra atos claros de violência policial e também ameaças de um PM a um rapaz que fazia fotos com seu celular: “Apague e o seu problema estará resolvido. […] Estou conversando com você numa boa. Aqui, ninguém vai te fazer nada, né? Mas, se eu pegar a sua foto, eu vou saber onde você mora e é daquele jeito”.

Pressionado pela Ordem dos Advogados do Brasil, pela Associação Brasileira de Imprensa e pelo Sindicado dos Jornalistas da Bahia, o Governador promete apuração rigorosa dos fatos. Mas meus amigos não acreditam que Sua Excelência cumpra a palavra. Ele não tem este costume.

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Conto a minha pequena assembleia que participei de um debate sobre as recentes manifestações (uma mesa redonda na Faculdade de de Educação da UFBA) e digo o que destaquei: a resistência de nossos governantes à democracia participativa e ao controle social da gestão, a crise de representação, o caos urbano há muito instalado em todo o país – patente a todos, mas ignorado pelas autoridades -, a indignação popular com a corrupção e a impunidade, a ira do povo com os gastos absurdos para a Copa do Mundo, o impacto da reação popular nas ruas, as repercussões pelo mundo afora. Quanto a este último ponto, exemplifico lembrando o interesse dos suíços em questionar a Fifa como os brasileiros fizeram, a admiração dos ingleses que se questionam por não ter reagido como nós diante dos abusos relacionados com os Jogos Olímpicos em seu país. O assunto rende, mas logo a turma me cobra:

– Olha a concentração, gente! Vamos falar um pouco dos últimos jogos.

Concordo. Ato contínuo, Jiló recorda o sofrimento geral no jogo contra o Uruguai. Como sempre, exagera:

– Não sei o que deu, porra. O time parecia estonteado. Vai ver, reprimiram eles por tabela, com gás de lerdeza. Oscar pouco se manifestou, Hulk tava amarelando, Neymar parou pra jogar beijinho, até Tiago Silva fez besteira. Ainda bem que Júlio César se impôs, mereceu os louros.
Quase todos concordaram. Anderson, nosso perito em artes marciais, campeão indiscutível em todo gênero de porrada, dessa vez criticou seu ídolo, Davi Luís:

– Não é assim que se bate. Jogar no chão sempre é bonito, mas tem que saber a hora e o lugar. Ainda bem que ele se recuperou com um lindo empurrão em Lugano, na hora do gol do Paulinho. Treinando um pouco no octógono, este rapaz será logo uma estrela.

Chico Teoria, em geral um otimista, confessou que sofreu muito:

– No intervalo que precede o segundo tempo, recebi um telefonema de Emerson, o Cientista. Ele estava preocupado. Eu confesso que estremeci, aquele cérebro se assustando é quase um apocalipse. Pensei que a gente ia perder.

Jiló protestou:

– Emerson pode ser um grande cientista, mas de futebol não entende muito. Os intelectuais da turma de Ordep têm esse problema. Se lembre de Pedro Barbosa, craque em literatura. De uma vez que assistimos juntos a um jogo (por sinal outro Brasil e Uruguai), tive de explicar-lhe que não era o juiz quem estava impedido num certo lance e que aquele moço com a bandeirinha não era gay, não estava acenando para a rapaziada. No mesmo dia, fui vítima de outro mal entendido da turma da universidade. A Doutora Débora, dona de mil de talentos, inteligência de ouro, ficou zangada comigo só porque eu falei que queria muito ver a Celeste tomar uma surra. Me ameaçou com a Lei Maria da Penha.

Chico retrucou com veemência:

– Não subestime o Cientista. Ele não é especializado em futebol, mas entende um pouco. E gente da sua categoria convém respeitar, pois se trata de uma raça danada, o que não sabe adivinha. Quando cisma de aprender uma coisa, Emerson não sossega: num instante mergulha no assunto, pesquisa, estuda e se torna perito, com pouco tempo dá quinau em qualquer um. Aposto que se ele tomar um curso com um boleiro dos bons, tipo Lau Barcelona, num instante vira técnico, treinador dos melhores. Se eu tivesse dinheiro e lábia suficiente, pagava um curso de futebol para Emerson e depois mandava ele pro Taiti, só pra ver o estrago que a seleção taitiana faria nos grandes na próxima Copa das Confederações.

(Explico ao leitor que não o conhece: Emerson Sales é um grande químico, mestre respeitado que volta e meia transita por laboratórios de universidades europeias e americanas fazendo pesquisas avançadíssimas. Chico Teoria se tornou seu fã incondicional em parte por conta das descobertas e títulos do amigo, mas principalmente por causa do espanto com suas bizarras invenções domésticas. Depois que o viu reencascar uma laranja numa pequena máquina com a qual, minutos antes, havia tirado o envoltório da fruta, Chico ficou siderado. E maior assombro teve quando viu o Cientista no desempenho de tarefa simétrica, ou seja, descascando uma cebola por ordem da patroa. Qualquer mortal que realize essa tarefa chora lágrimas abundantes, como se estivesse assistindo uma tragédia grega ou ouvindo a Dilma a falar do pibinho numa encruzilhada. Com Emerson, é o contrário. Ele fez uma demonstração para nossa turma e nos deixou maravilhados: com sua técnica, não somente o descascador da cebola como todos a seu redor danam-se a rir descontroladamente: não há quem se segure).

Mas volto ao futebol. No jogo entre a Itália e a Espanha, o pessoal daqui torceu para a turma da bota. O engraçado é que todos nós exaltamos a seleção espanhola, eleita a melhor por unanimidade do grupo.

Não é coisa só da minha turma, ou dos baianos: provavelmente o mesmo acontece com a torcida mineira que vaiou o time espanhol impiedosamente quase o tempo inteiro. Note-se o detalhe: havia no estádio muito mais gente com a camisa da Roja.

No presente momento, a maioria absoluta da minha turma acha que no próximo jogo a Espanha é favorita, mas o Brasil vai ganhar.

Nessas horas me lembro de um colega francês, um antropólogo que se dedicou ao estudo de nosso país: segundo ele me disse um belo dia, com ar preocupado, jeito apreensivo – “um brasilianista é um candidato à loucura”.

Meu irmão Olympio, que chegou há pouco do Rio de Janeiro, fala de amigos cariocas cruelmente divididos: no próximo domingo eles gostariam de estar, ao mesmo tempo, dentro e fora do Maracanã, durante o grande jogo. Querem assistir a já histórica final desta inesquecível Copa das Confederações e participar, simultaneamente, dos protestos que a rodeiam. Há gente que comprou o ingresso com muita antecedência e pretende ir ao estádio no meio dos manifestantes, mas percebe com toda a clareza ser quase impossível a aventura: quem fizer isso correrá um grande risco de ser barrado. Dez mil policiais vão postar-se nas cercanias do estádio, enquanto sete mil e quatrocentos soldados das forças armadas patrulharão as áreas próximas. Clima de guerra, que não diminui o entusiasmo dos torcedores. Parece que o aumenta.

Haja coração!

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Graduado em Letras pela UNB, Mestre em Antropologia Social pela UNB e Doutor em Antropologia pela USP. Professor Associado do Departamento de Antropologia da FFCH / UFBA. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA; Prof. participante do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA. Membro da Associação Brasileira de Antropologia, da SBPC, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia. Membro fundador do Grupo de Pesquisa “Encruzilhada dos Saberes”. Fundador e Coordenador do Grupo Hermes de Pesquisa e Promoção Social e do Movimento Vozes de Salvador. Produção principal em Antropologia da Religião, Antropologia das Sociedades Clássicas, Etnobotânica, Teoria Antropológica. Tradutor de textos científicos e literários. Escritor premiado três vezes em concursos nacionais de literatura, com obras de ficção (conto, novela).