19 anos de união com a Seleção Brasileira

  • por Igor Leal da Fonseca
  • 8 Anos atrás

Quem me conhece pessoalmente ou me acompanha no Facebook, sabe: sou um crítico voraz da Seleção Brasileira, de uma forma que só encontra paralelo nas críticas ao Flamengo, meu clube de coração. Em ambos os casos, sou o mais cético dos torcedores, talvez por já ter visto tanta coisa acontecer, tantas reviravoltas, que só me permito extravasar e comemorar um minuto depois de tudo já ter acabado. Afinal, quem morre de véspera é peru. Isto posto, vou tentar explicar o meu sentimento ontem no Maracanã. 

Assisti incrédulo, mas feliz, ao baile que o Brasil deu na Espanha. Carregarei para sempre na memória a imagem e o som de 73 mil pessoas cantando, a plenos pulmões, o Hino Nacional e mostrando praqueles caras que estavam lá embaixo que seriam 73 mil + 11 mãos evitando gols e pés ou cabeça empurrando a bola para o gol, mesmo se ela teimosamente insistisse em não entrar. Ontem foi um daqueles jogos que, ao fim do Hino Nacional, tive a quase certeza – quase, certeza só depois do apito final – que não perderíamos a peleja, nem que tivéssemos que jogar durante o resto da vida. Mas para contar a história desse sentimento, é preciso voltar quase 20 anos no tempo, mais precisamente ao dia 9 de Julho de 1994.

Eu já era um adolescente quando a Copa do Mundo visitou os EUA. Já tinha visto – e perdido – em 1986 e 1990, estava na hora de ganhar. Mas, logo quando saiu o sorteio das chaves, o primeiro problema: um dos jogos das quartas estava marcado para o dia 9 de Julho, dia do casamento do meu primo mais velho. E como todo adolescente que se preze, eu tinha duas tabelas: uma para preencher corretamente com os resultados dos jogos e outra para fazer projeções de confrontos. E nessas projeções, se o Brasil passasse em primeiro no seu grupo e depois passasse das oitavas, jogaria no dia do casamento, exatamente na hora prevista para a noiva adentrar a igreja. Fechei-me em copas e procurei esquecer, não iria sofrer por antecipação. 

Começa a Copa do Mundo, a competição vai avançando e, no dia 4 de Julho, vem a confirmação: o Brasil enfrentaria a Holanda pelas quartas da Copa do Mundo de 1994. Era jogo imperdível e a chance de “vingar’’ uma derrota de 20 anos antes. Comunico, então, o problema e a solução aos familiares. O problema: teremos jogo do Brasil bem na hora do casamento. A solução: não irei ao casamento.

Protestos, brigas e discussões marcaram aquela semana, mas me mantive irredutível: não deixarei de ver a partida.

No dia do casamento, casa cheia de tias, tios e primos se arrumando. Eu nem em casa fiquei, passei o dia todo na rua, para não ficar com dor de consciência e também para não correr o risco de ceder às chantagens emocionais. Faltando pouco menos de uma hora para o jogo, voltei para casa. E logo veio a primeira chantagem emocional, da parte do meu primo: ele era o primeiro primo a casar, seria importante a presença de todos os primos no casamento, etc. Não tive como negar o pedido dele, quem me conhece sabe que sou um cara muito família. Calculamos tempo, horários e tudo mais e chegamos à conclusão que daria para eu ver o primeiro tempo todo em casa e ir para a igreja durante o intervalo, veria mais da metade do segundo tempo num boteco próximo, só entrando na igreja após a noiva, e ouviria os 20 minutos finais num radinho de pilha, dentro da igreja. Ou era assim ou não era nada. A contragosto, minha mãe aceitou o trato, desde que eu prometesse discrição máxima dentro da igreja. Feito.

Começa o jogo, eu sozinho em casa, o pessoal já tinha se dirigido à igreja. Primeiro tempo sem maiores emoções, assim que acabou eu me dirigi ao portão para pegar o táxi do vizinho que me levaria à igreja. Ruas completamente desertas, fomos “voando’’ e chegamos quando os times voltavam ao gramado. O Brasil tinha 30 minutos para definir a vida, os 30 a que eu tinha direito de assistir fora da igreja. E parecia que seria assim, com 2×0 antes dos 20 minutos do segundo tempo, gols de Romário e Bebeto. Mas as tais “reviravoltas’’ que eu mencionei acima deram as caras no jogo e rapidamente a Holanda diminuiu, com Bergkamp fazendo 2×1 um minuto após o gol de Bebeto. A noiva já entrava na igreja e trato era trato, eu tinha que entrar também.

Sentei-me num banco próximo ao altar (exigência dos familiares também Doentes Por Futebol) e logo depois a Holanda empatava, com gol de Winter. Faltavam quinze minutos para o fim da peleja e eu, desesperado, temia perder a prorrogação, que naquele momento já dava como certa – lembram do tal ceticismo? Pois é.

Já torcendo para o casamento acabar logo e sendo alvo de perguntas com o teor futebolístico – “Quanto tá? Como estamos no jogo?’’ – acabei tomando uma mini repreensão do padre. Mas logo depois o momento mágico: Branco sai da esquerda para o meio, o juiz marca a falta de Overmars e o resto é história. 3×2 Brasil, numa das maiores narrações que tive o prazer de ouvir José Carlos de Araújo fazer. Sem pensar duas vezes, soltei o grito de ‘’GOOOOOOOOOOOOOOOOLLLLL’’, alto, muito alto, dentro da igreja. Tomei um pé de ouvido da minha mãe seguido de uma bronca, mas o que importava era que o Brasil estava na frente e próximo da semifinal. Não lembro do que aconteceu nos minutos restantes daquela partida.

Branco

Quando a bola cruzou a linha, foi impossível não gritar gol dentro da igreja.



O Brasil acabou campeão oito dias depois e eu tomei meu primeiro porre, mas foi naquele dia 09/07/1994 que estabeleci um vínculo eterno com a Seleção Brasileira, vínculo esse que me causou febre de 39º depois da semi em 98 e uma consequente ordem médica me proibindo de ver a final, ordem essa devidamente ignorada em nome do futebol. Vínculo que também me deu madrugadas e começos de manhã inesquecíveis em 2002, decepção em 2006, conformismo em 2010. Vínculo esse que ontem foi renovado por mais um ano.

Agora corta para os dias atuais.

Depois da Copa de 2010, o Brasil despencou. Mais de três anos sem vencer uma seleção top, fracasso na Copa América, fracasso nas Olimpíadas, demissão de treinador, contratação de outro que havia acabado de rebaixar um clube no Brasileirão e outros tantos problemas eram mencionados como causas de um eventual fracasso do Brasil na Copa das Confederações. No começo do torneio era praticamente certo que a Espanha viria ao Brasil apenas para passear e confirmar sua superioridade técnica no futebol atual.

Começa a competição e já na estreia a Espanha faz uma exibição de manual contra o Uruguai, um passeio que não se traduziu em números. Do lado do Brasil, uma estreia tranquila contra o Japão.

Na segunda rodada, estive no Maracanã para ver Espanha x Taiti, numa das tardes mais divertidas que o futebol me proporcionou. Fui um dos 71 mil que cantou “Ih, vamos virar Taiti’’, mesmo com o jogo já com placar elástico a favor da Espanha. Vibrei como poucas vezes na vida na hora que Torres chutou o pênalti no travessão. Soltei alguns dos melhores “UUUUUUUUUUUUUUUUHHHHHHHHHHHHHHH’’ da minha vida nas poucas vezes em que o Taiti chegou perto do gol da Espanha. Quando saí do Maracanã, dei como encerrada minha participação em estádio no torneio. Ainda teríamos alguns jogos, mas o próximo jogo no Maracanã era a decisão e como eu não tinha ingressos, me resignei. Vi pela TV a vitória contra a Itália e no boteco a vitória contra o Uruguai, numa partida que a “faca no dente’’ foi a tônica do jogo. A presença na final era um grande avanço em relação ao treinador anterior e dei-me satisfeito por isso. Achava que o Brasil seria presa fácil para os espanhóis e foi nesse clima que marquei de ver a decisão com alguns num boteco.

Porém na sexta as coisas começaram a mudar. Miraculosamente e graças a essa maravilha chamada internet, eu consegui comprar ingressos para a decisão. Faria minha estreia em jogo de Seleção Brasileira no estádio, numa final e contra a atual campeã do mundo. Era coisa boa demais acontecendo em tão curto espaço de tempo. Não ousei sonhar com vitória, seria pedir demais.

Cheguei ao Maracanã por volta das 16 horas e fiquei passeando por fora do estádio. Fui dar um abraço num amigo na São Francisco Xavier, senti o clima da torcida, temi pela integridade física dos manifestantes e finalmente entrei no Maior do Mundo. Apesar da reforma e da total descaracterização, em poucos lugares do mundo eu me sinto tão à vontade quanto no Mário Filho. Apesar de ser majoritariamente composto de concreto e nós sermos de carne e osso, a partir do momento que você passa a roleta surgem propriedades magnéticas raramente encontradas na natureza.

Dei uma volta pelos stands, tentei – e não consegui, para minha frustração – tirar uma foto com o Bebeto, vi turistas se esbaldando e finalmente me dirigi ao meu lugar, atrás de um dos gols, a poucos metros do gramado.

Logo assim que me localizei, as equipes entraram em campo e, para minha surpresa, o Hino da Espanha foi pouco vaiado. Nos comportamos com grande educação e aplaudi a “não vaia’’, apesar de ainda ouvir algumas isoladas. Então, foi a vez do Hino Nacional do Brasil. Ver mais de 70 mil pessoas berrando-o a plenos pulmões é uma lembrança que carregarei comigo pelo resto da vida. O primeiro gol do jogo foi marcado ali, naquele mágico momento, o que veio aos 2 minutos de jogo, marcado por Fred foi apenas para dar autor a esse tento na súmula. 

Após o jogo, Fred declarou: ”Já fiz muita coisa boa deitado. Faltava o gol’’. Eu adapto: as duas melhores coisas da vida são feitas quando estamos deitados: sexo e dormir. Então nada mais justo que o gol – o orgasmo do futebol – fosse marcado deitado. Brasil 1×0 Espanha.

O Brasil seguiu encurralando os espanhóis no seu campo, numa avalanche verde e amarela empurrada por 73 mil vozes, mãos e pés. Mas nada de sair 2×0 e no finalzinho do primeiro tempo a Espanha encaixa um contra ataque e Mata passa na medida para Pedro, que bate certinho por baixo de Júlio César. 73.541 pessoas prenderam a respiração e se prepararam para o pior, exceto uma delas: como se tivesse saído de um buraco no gramado, o guerreiro David Luiz surge na cobertura de Júlio César e, miraculosamente, evita o empate.

Sinto muito, Pelé, mas ontem tivemos o “não gol’’ mais comemorado da História da Seleção Brasileira. E para completar o momento, no ataque seguinte o Brasil faz boa trama, Neymar foge do impedimento e recebe na medida de Oscar. A pérola brasileira domina e enche o pé esquerdo, no ângulo de Casillas. Brasil 2×0, a poucos metros desse que vos escreve.

Agradeço aos céus pelo primeiro tempo ter terminado pouco depois, por que as emoções estavam à flor da pele. Quinze minutos para dar uma respirada e para os espanhóis arrumarem a casa, na tentativa de voltar ao jogo. 

Mas já na volta do intervalo, Hulk passa para Neymar, que finge que não é com ele e deixa na medida para Fred. Tal qual um jogador de sinuca, o 9 da Seleção bate “de chapa’’, colocando com açúcar, afeto e endereço, no canto inferior esquerdo de Casillas. Gol de quem sabe muito dessa nobre arte chamada futebol. Brasil 3×0.

Ainda houve uma penalidade para a Espanha, que Sergio Ramos chutou para fora, demonstrando um misto de medo da muralha chamada Júlio César e daqueles 73 mil que o xingavam e vaiavam. Daí em diante, foi apenas festa, aos gritos de “É Campeão’’, “Está chegando a hora’’, “Vou festejar o teu sofrer, o teu penar’’, “O campeão voltou’’ e “Quer jogar, o Brasil vai te ensinar’’.

Depois de 24 anos e Emirates Stadium demais, o Brasil volta a conquistar um título dentro do seu país, no lugar que é a sua casa: o Maracanã.

Seja bem vindo de volta, Pentacampeão do Mundo. Estávamos com saudades!

Brasil 2013

24 anos depois, o Maracanã vê um título do Brasil

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33 anos, morador do Rio de Janeiro. Rubro Negro de coração, apaixonado pelo Maracanã, tem no Barcelona o exemplo de clube para o que entende como futebol perfeito, dentro e fora do campo. Estudioso da memória do futebol, tem nessa sua área de maior atuação no site, para preservar a memória do esporte. Dedica especial atenção aos times mais alternativos, equipes que tiveram grandes feitos, mas que não são tão lembradas quanto as maiores do mundo. Curte também futebol do centro e do leste da Europa, com uma coluna semanal dedicada ao assunto. Um Doente muito antes de fazer parte desse manicômio, sua primeira memória acadêmica é uma redação sobre o Zico, na qual tirou 10 e a mesma foi para o mural da escola. Nunca trabalhou com futebol dessa forma, mas adora o que faz junto com o restante do pessoal e se pergunta o porquê de não ter começado com isso antes. Espera recuperar o ''tempo perdido''. Acha Lionel Messi o melhor que viu jogar e tem em Zico, Petkovic e Ronaldo Angelim como heróis.