A inesquecível Juventus da temporada 1997/1998

  • por Raniery Medeiros
  • 6 Anos atrás

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Para os muitos jovens que hoje enxergam a Premier League como o grande campeonato do mundo, tenham a certeza de que o charme de outrora pertenceu ao Calcio. Os grandes craques que lá atuavam davam um show a cada partida.

Sempre tive um carinho especial pela Lazio de Signori e Casiraghi. No entanto, era a Juventus quem mais me chamava a atenção naquela década de 90 (leia-se a partir de 1994).

Era impressionante o modo como a equipe de Turim se portava em campo. Toques elegantes, suaves e objetivos em direção ao gol. Foi pensando justamente na Vecchia Signora que resolvi falar e dissecar um pouco do que foi a Juventus da temporada 1997/1998. Foi um dos melhores times do Calcio que vi jogar na década supracitada. Opinião bastante particular. Mas fique sempre com a sua opinião, caro leitor. Afinal o intuito aqui não é gerar verdade absoluta, mas informações relevantes sobre uma parte da história do futebol. Vamos lá!

O TIME

Marcello Lippi chegou em 1994 para ser o comandante de uma equipe que não vencia um campeonato italiano desde 1986. Em 1995, o time saiu da fila. Em 1996, com a ajuda de craques como Ravanelli, Vialli, Del Piero e Deschamps, a Juventus venceu a Liga dos Campeões. Na temporada 96/97 a equipe voltou a vencer o Calcio, já com Vieri no ataque e sob a batuta de craques como Davids e Zidane (o maestro). O time chega novamente à final da Liga dos Campeões, mas sucumbe diante do Borussia Dortmund. A temporada 97/98 traz com ela a saída de craques como Boksic e Vieri, mas o jovem Filippo Inzaghi foi contratado junto à Atalanta para suprir a ausência do último. Essa temporada foi de um esplendor técnico e tático ímpar no mundo do futebol, mesmo que, por vezes, a retranca entrasse em ação. Mas do que adianta saber atacar e não possuir a mesma eficiência lá atrás?

FORMAÇÃO TÁTICA

Para entender aquela Juventus, é preciso ter em mente que o elenco tinha muita rotatividade, fosse por lesões ou escolhas táticas de Marcelo Lippi. O time que postei acima não era o que sempre entrava em campo. Porém, durante a temporada, foi o mais utilizado.

O esquema definido era o de atacar com qualidade e o de defender com obediência e vontade. No 3-4-1-2 de Lippi, Di Livio e Pessotto eram fundamentais no equilíbrio tático. Tinham total liberdade para atacar e auxiliavam na recomposição da defesa marcando, por muitas vezes, os laterais adversários. Jogo compactado, passes curtos e muita velocidade com Del Piero lá na frente.

formação tática 1Time base 97/98: Peruzzi; Birindelli, Montero e Iuliano; Di Livio, Deschamps, Davids e Pessotto; Zidane; Del Piero e Inzaghi. Esquema base: 3-4-1-2.

Na recomposição, os alas e os volantes voltavam. Um time com 7 ou 8 defensores, que não se permitia ser surpreendido em bolas longas.

juve rani 2Notem como os três zagueiros estão bem postados e os quatro homens de meio-campo voltam para auxiliar a defesa. Para fazer gol naquela Juventus, a grande “sacada” eram as triangulações.

A flexibilidade do elenco permitia que um dos alas recuasse e montasse o 4-4-2. Zidane era o cérebro do time e municiava Del Piero e Inzaghi. O esquema foi montado para que o francês brilhasse.

Deschamps e Davids possuíam funções defensivas. No entanto, quando os alas ficavam, os dois tinham total liberdade para auxiliar o ataque.

juve rani 3Davids, em uma das suas chegadas ao ataque. O Holandês recebe de Del Piero e se lança por trás da linha de zagueiros do Milan, que tentaram deixar Inzaghi (meio) em impedimento. Lá em cima, dá pra perceber que Di Livio também encontrava-se em boa condição para o arremate.

O capitão Conte dava segurança ainda maior aos alas para que os mesmos pudessem ajudar constantemente no ataque. Contudo, não ficava preso somente na ideia de marcar. Aparecia com muita qualidade dentro da área.

ZAGUEIROS E VOLANTES? QUALIDADE NÃO FALTAVA

Lippi tinha quantidade em demasia. Ferrara, Montero e Iuliano formavam a trinca de zagueiros. Iuliano com boa força ofensiva e sendo, muitas vezes, um lateral.

O eterno ídolo Ferrara não atuou tantas vezes na temporada. Deu lugar a Birindelli. A equipe não perdia no aspecto tático e/ou técnico, já que o mesmo exercia dupla função em campo.

Os volantes eram de extrema qualidade e sabiam sair para o jogo. Conte e Deschamps guarneciam a defesa para dar maior segurança aos jogadores de frente. Tacchinardi, Davids, Di Livio, Torricelli, Pessotto e o próprio Ferrara (que atuava também de volante) tinham maior liberdade para ir ao ataque.

juve rani 4No clássico contra o Milan, a Juventus utilizou diversas vezes seu lado esquerdo. O lance ilustrado na foto acima mostra Pessotto recebendo passe de Del Piero (marcado no círculo) e fazendo a jogada de ultrapassagem. Inzaghi já está sozinho dentro da área para finalizar.

A função deles era a de se aproximar ao máximo dos homens de frente para dar maior movimentação. Como a Juve gostava de marcar em cima, os espaços eram preenchidos milimetricamente.

VARIAÇÃO DE ESQUEMA MEDIANTE O ADVERSÁRIO

Lippi tinha um elenco repleto de boas alternativas. No entanto, sábio que era, o treinador reformulava seus esquemas mediante os adversários. No jogo contra o Napoli, fora de casa, o esquema adotado foi o 4-3-1-2.

juve rani 5Visão panorâmica do 4-3-1-2 contra o Napoli. A imagem congelada denuncia um 4-3-3. Mas, na sequência do lance, os atacantes Del Piero e Inzaghi pressionam e Zidane (meio) recua. Isso fez com que o Napoli jogasse com bolas rifadas.

Zidane e Del Piero invertiam as posições com frequência. O Italiano puxava o zagueiro para fora da área. Enquanto isso, o gênio francês aproveitava o buraco na defesa e entrava nas costas dos adversários.

juve rani 6Del Piero sai da área e atrai a zaga do Napoli. Zidane entra como elemento surpresa. Flagrante na hora em que o atacante italiano dá o passe para Zidane. Na sequência, ele domina e fica frente a frente com o goleiro Taglialatela.

O 4-3-1-2 com Conte, Deschamps e Di Livio parecia “pesado”. No entanto, o francês tinha muita qualidade no passe. Deschamps sempre foi um jogador de boa marcação. Quando os alas da Juve prendiam, ele ia ao ataque e dava bons passes para seus companheiros, deixando-os em boa situação de gol.

juve rani 7Contra o Milan, Deschamps teve total liberdade para provar que sabia chegar à frente e dar bons passes. O atleta encontrou Inzaghi, que, inteligentemente, caiu nas costas de Maldini (número 3).

Já o capitão Conte (atual técnico da Juventus) era o equilíbrio motivacional dentro de campo. Um autêntico líder. Na temporada 97/98, aventurou-se várias vezes ao ataque e fez seus golzinhos e deu várias assistências. O lado “camaleão” da Juve permitia que ele entrasse quase como um lateral.

juve rani 8Conte (jogador marcado no círculo) entra na defesa da Sampdoria. À sua direita, ele tinha Di Livio para a jogada de ultrapassagem. Notem que, com isso, Del Piero e Inzaghi puxavam a marcação e atenção dos zagueiros e Zidane (marcado no quadrado) entra sozinho na defesa adversária. Várias vezes isso aconteceu naquela temporada.

Il conduttore

Zinédine Zidane era o conduttore do time. Grande parte das jogadas ofensivas começavam em seus pés. Melhor! Através do seu cérebro.O francês, ainda com um pouco de cabelo, ditava o ritmo de ataque. É para cadenciar? Vou esperar o time se postar. Acelerar? Tapa de primeira na bola e ritmo frenético para que Del Piero seguisse com a gorducha em velocidade. A armação passava por seus pés e, hábil que era, chamava a bola de “você”. A redonda respondia: senhor?!

Zidane tinha a total confiança de Lippi. Flutuava facilmente pelas interfaces do ataque e chegava muito bem em gol. Suas tabelinhas com Del Piero eram uma arma letal contra defesas bem postadas. O improviso e o drible seco desmontaram muitos esquemas táticos. Pensando o jogo antes de receber algum passe, Zizou fez seus golzinhos (sete no total). Mas foi a sua técnica refinada e as assistências friamente calculadas que fizeram da Juventus a campeã italiana.

juve rani 9O drible com a marca Zidane. O “Roulette” aperfeiçoado por ele. No futsal de antigamente, fazia-se com apenas um pé. Zizou foi um dos pioneiros a girar com os dois, dando maior velocidade e dinamicidade.

ATAQUE VELOZ E MATADOR

Del Piero e Filippo Inzaghi fizeram uma parceria de muito sucesso. O primeiro tinha em suas arrancadas uma arma essencial para o esquema. O segundo, através do bom posicionamento, dava opções para seus companheiros o encontrarem sempre sozinho.

Juntos, fizeram 39 gols no Calcio 97/98, sendo que o camisa 10 levou uma pequena vantagem: 21 a 18. Vários fãs só puderam vivenciar o futebol do artilheiro da Juve, na temporada supracitada, sem suas arrancadas quase imparáveis e um Inzaghi sem muita noção de posicionamento. Mas sempre fazendo seus gols decisivos.

A movimentação era intensa e constante. Quando um afastava-se da área e ia em direção à esquerda, o inteligente matador já partia para o bom posicionamento dentro da superfície adversária. Era um caos marcar os dois.

juve rani 10Essa imagem mostra a presença de área do camisa 9. O uruguaio Fonseca cruza da direita e o atacante se antecipa à defesa do Bologna para fazer o gol de um autêntico centroavante.

A constante movimentação da dupla rendeu muitos gols e confusão na mente dos adversários. Nessa imagem, no jogo contra o Empoli, o camisa 10 recebe a bola centralizado. Enquanto isso, Inzaghi caiu pela esquerda e atraiu a marcação de dois marcadores. A jogada começou com Zidane e terminou nessa bela assistência.

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Bem! Essa foi a Juventus que me encantou. Muitos dos lances ainda estão guardados na minha memória. Claro que tive a ajuda de alguns vídeos para relembrar muitas coisas. Foi prazeroso.

Para não deixar escapar. A Juventus teve a seguinte campanha: 34 jogos / 21 vitórias / 11 empates / 2 derrotas – Sendo: 67 GP e 28 GC. / Artilheiro: Del Piero, com 21 gols.

A equipe conquistou o título do Calcio e chegou à final da Champions League, porém perdeu para o Real Madrid (1×0). Vale muito a pena ver a movimentação desse time, as variações táticas e os dogmas implementados na “era” Lippi. Calcio, que saudade dos bons tempos. Abraço!

O texto também foi postado no Painel Tático, do Victor Oliveira.

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