A questão da dupla-cidadania na Alemanha

CHAMADA PRINCIPAL

Mehmet Scholl, Ilkay Gündoğan, Mesut Özil, Emre Can, Serdar Tasci, Samed Yesil, Koray Kacinoglu, Robin Yalcin, Kaan Ayhan, Levent Aycicek, Ömer Toprak, Gökham Töre, Nuri Sahin, Hamit Altintop, Mehmet Ekici, Hakan Balta, Tunay Torun, Serdar Kesimal, Hasan Ali Kaldirim, Ceyhun Gülselam, Cenk Tosun, Halil Altintop, Engin Baytar, Özer Hurmaci.

Parece-lhes um trava-língua infinito? Pode ser, mas não é só isso! É uma lista de alguns jogadores profissionais de futebol que nasceram na…

– Turquia, certo? 

– Errado! 

Todos esses nomes, teoricamente tão turcos quanto Atatürk, o presidente que coordenou uma forte revolução na Turquia após o fim do Império Otomano, pertencem a jogadores que, na verdade, nasceram na Alemanha. 

– Ah, são jogadores alemães então! 

– Vamos com calma… muita calma!

Na década de 90, a seleção que chamou atenção por sua multiculturalidade foi, sem dúvida, a francesa, campeã em 1998 com jogadores como Patrick Vieira (descendente de senegaleses), Marcel Desailly (nascido em Gana), Lilian Thuram (nascido em Guadalupe), Christian Karembeu (nascido na Nova Caledônia) e o mais conhecido de todos, Zinedine Zidane (descendente de argelinos). Nos anos 2000 e 2010, a Alemanha é que nos salta aos olhos, sobretudo porque existe um estereótipo de alemão muito bem construído – alto, loiro e de olhos claros – que não segue exatamente os traços físicos de jogadores como Gündogan e Özil, símbolos de atletas alemães-turcos.

OZIL E GUNDOGAN

Foto: Reprodução – Ozil e Gundogan: Os maiores expoentes atuais dos Deutsch-Türken

Todos os 10 primeiros citados na lista inicial são jogadores que defenderam, defendem ou podem vir a defender a seleção alemã, os restantes são selecionáveis turcos. 

– Mas tu disseste que todos nasceram na Alemanha! 

– Sim, e também disse para termos muita calma. Para analisar a questão desses jogadores, que, antes de tudo, são pessoas, humanos, devemos lançar uma mirada ao passado.

Os turcos residentes ou nascidos na Alemanha são conhecidos por Deutschtürken, literalmente “alemão-turcos”, e representam um caso muito interessante de migração, identidade social e cidadania nacional. Primeiramente, para que possamos entender essa relação, devemos saber que a Alemanha, ao contrário de países como o Brasil, determina seu critério de nacionalidade a partir do jus sanguinis e não do jus solis, ou seja, para que alguém seja determinado alemão, ele deve ter uma procedência sanguínea e não simplesmente ter nascido na Alemanha.

Uma vez entendida essa parte, partimos para a questão turca. Logo no pós-segunda guerra mundial, a Alemanha necessitava mão de obra básica para reconstruir o país, por isso tinha interesse em firmar contratos de trabalho (Anwerbeabkommen) com outras nações, a exemplo de Tunísia (alô, Sami Khedira!), Espanha (alô, Mário Gomez!), Itália, Grécia, Marrocos, Portugal, Iugoslávia e… Turquia. O acordo partiu de uma iniciativa turca e foi assinado em 1961, sendo a Turquia o primeiro país de maioria muçulmana a participar desse tipo de contrato.

Foto: Reprodução - Gomez e Khedira: Mais exemplos de filhos de imigrantes que jogam pela seleção alemã.

Foto: Reprodução – Gomez e Khedira: Mais exemplos de filhos de imigrantes que jogam pela seleção alemã.

Os primeiros turcos que chegaram ao país vinham com o status de trabalhadores e não tinham o projeto de viver na Alemanha indefinidamente – o próprio tratado inicialmente só permitia uma estadia de até dois anos, de indivíduos solteiros e sem permissão para trazer a família consigo. Entretanto, o acordo foi mudando, assim como as perspectivas dos operários que chegavam ao país. Os integrantes do que viria a ser chamado de “erste Generation” (primeira geração) de imigrantes nunca realmente abandonaram a ideia de retornar à Turquia, o que fez com que muitos não tivessem intenção de aprender o idioma alemão. Assim, parte desses estrangeiros vindos de zonas rurais, sem emprego e sem preparação técnica, desistiu da ideia de regressar, admirados pelas condições sociais e econômicas do novo país. Pouco a pouco, foram trazendo suas famílias para a Alemanha, constituindo progressivamente o que seria chamado de “zweite Generation” (segunda geração).

Após a reunificação alemã, em 1991, já se contavam 1.780.000 turcos no país. Em 2001, eles já eram 1.998.534, dos quais 746.651 (37,6%) eram nascidos na República Federativa Alemã. Segundo o Ministério de Relações Exteriores (Auswärtiges Amt), é possível comprovar que os turcos são a maior população estrangeira vivendo atualmente na Alemanha, com aproximadamente 2 milhões e 500 mil pessoas, sendo que mais da metade já possui cidadania alemã (Deutsche Staatsangehörigkeit).

Em 1999, uma nova lei de imigração foi firmada (die Beauftragte der Bundesregierung für Ausländerfragen). Segundo a mesma, a partir de 2000, filhos de imigrantes turcos nascidos na Alemanha recebem a dupla-nacionalidade, a qual podem manter até, no máximo, os 23 anos de idade. Quando completos, a pessoa deve decidir (processo chamado Optionsmodell) entre a nacionalidade alemã ou a turca. Em ambos os casos, ao escolher uma, o indivíduo perde automaticamente a outra.

Foto: Reprodução - Qual nacionalidade escolher? Sahin optou pela turca.

Foto: Reprodução – Qual nacionalidade escolher? Sahin optou pela turca.

Esse “choque de civilizações”, nos moldes do livro de Huntington, criou uma espécie denova cultura, os Deutschtürken. Hoje, nas cidades germânicas, é possível ver nas ruas a bandeira “turco-alemã”, uma bandeira não-oficial, contando com as três cores (negro, vermelho e amarelo) da Alemanha e com a meia-lua característica da Turquia (e dos países islâmicos) ao centro. A cultura alemã-turca aparece em diversos aspectos da sociedade: o cinema é um ponto muito interessante, tendo em Fatih Akin seu maior representante. O diretor, nascido em Hamburg, é responsável por trabalhos como Auf der anderen Seite (“Do outro lado”, tradução minha), nos quais a conexão Turquia-Alemanha é sempre ressaltada. Outro fenômeno da mídia foi a série Turkisch für Anfänger (Turco para Iniciantes), que recentemente ganhou um filme, que relata a história de uma menina alemã que passa a viver com uma família turca, no momento em que sua mãe encontra um novo namorado.

Infelizmente, muitas dessas expressões culturais carregam ideias pejorativas ou piadinhas de mal gosto. Da mesma forma, os jogadores turco-alemães que optam por defender a Turquia são severamente atacados pela mídia alemã. Enquanto Mesut Özil ganhou o Prêmio Bambi (nomeação anual, concedida pela imprensa), sendo considerado símbolo de “integração bem-sucedida”, mesmo afirmando que “não dava importância para a escola”, jogadores como Nuri Şahin são alvos de matérias como a da RP-Online, escrita após sua venda para o Real Madrid, duas temporadas atrás:


“Ele não apenas se decidiu contra o Dortmund e a favor do Real Madrid. Não, ele também se decidiu contra os alemães e a favor da seleção turca”.

Um pequeno parêntese aqui: segundo Özil, nunca houve outra nação em questão além da Alemanha, no que tange a escolha futebolística. Já Şahin optou pela Turquia por ter jogado nas categorias Sub-17 e Sub-21 com os turcos (lembrando que um jogador pode defender as categorias inferiores por outro país, mas não pode ter defendido as seleções principais de duas nações diferentes, a não ser em casos especiais, como, por exemplo, a dissolução da Iugoslávia).

É claro que esses exemplos não bastam. Diversos preconceitos cercam os Deutschtürken. De fato, 60% deles afirmam já ter sofrido discriminação por sua origem. Ainda que os imigrantes turcos compareçam à escola com tanta frequência quanto outros imigrantes, a taxa de desemprego entre eles é de 20,2%, 10,2% maior que a taxa de desemprego geral. Além disso, 69% dos imigrantes turcos acreditam ser tratados como cidadãos de segunda classe.

De qualquer forma, é notável a lealdade dos Deutschtürken ao país alemão. Perguntados se defenderiam a Alemanha contra um possível ataque militar de países como Líbia ou Iraque, 48% afirmaram postar-se ao lado do país germânico, contra 21% que prefeririam não participar do embate. É interessante notar que, apesar do preconceito sofrido muitas vezes pelos Deutschtürken, apenas 8% deles responderam “sim” à pergunta “você considera a sociedade alemã injusta?“, enquanto 48% dos alemães tiveram a mesma resposta. Muito disso está relacionado às experiências vividas na Turquia, país com problemas sociais obviamente muito mais sérios que os da Alemanha.

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Foto: http://www.ran.de/de/fussball/nationalmannschaft/1010/News/deutsch-tuerken-im-zwiespalt.html – Bandeira turco-alemã

Desde 2005, o termo “pessoa com histórico migratório” (Migrationshintergrund) foi introduzido nos departamentos de estatística e vem se fazendo cada vez mais presente nos discursos políticos, midiáticos e pelas autoridades policiais. É classificado assim o cidadão que obedecer a um dos seguintes critérios: ser estrangeiro nascido em outro país mas vivendo na Alemanha; ser estrangeiro naturalizado; ser descendente; ou ter um dos pais obedecendo a um desses critérios (ou seja, a pessoa pode nunca ter deixado o solo alemão, mas ainda assim será considerado como possuindo histórico migratório). A terminologia difere da de outros países europeus, como Inglaterra e França. O pior é que o termo foi criado com uma boa intenção: a de substituir o termo “estrangeiro” (Ausländer), que em si pode ser considerado exclusivo: o sufixo aus significa “de fora”. Em 2007, uma declaração do então governador do estado de Hassen chamou atenção:

“Temos muitos jovens criminosos com histórico migratório”.

Em 2010, uma frase dita pelo ex-presidente alemão, Christian Wulff, chamou atenção e abriu muitas discussões pelas terras germânicas: “o Islã pertence à Alemanha”. Por muito tempo, o Estado alemão ignorou a presença de “trabalhadores convidados” e o fato de ser um “país de imigração”. Imaginamos a integração como uma via de mão-dupla, que envolve a pessoa que quer se integrar e a sociedade disposta a aceitá-la, com todas suas peculiaridades, costumes, etc. Na Alemanha, muitos imigrantes aceitaram seus papéis econômicos, mas não abriram mão de seus hábitos e tradições – e nem deveriam! A deutsche Gesellschaft (sociedade alemã) esperava uma assimilação, ou seja, que os imigrantes aceitassem uma “cultura-guia” (deutsche Leitkultur) e a seguissem ao pé da letra – aliás, no ano de 2012 foi criada uma “cartilha de integração” bilíngue, explicando passo a passo características das tradições alemãs.

Os imigrantes mantiveram muito do seu próprio estilo, misturado com alguns costumes alemães, mostrando que o “tipicamente turco” é tão inexistente quanto o “tipicamente alemão” ou o “tipicamente brasileiro”. O “típico” passou a ser apenas um conceito vagando no ar, uma categoria dentro da qual certas atividades e costumes são compreendidas, mas que, nos dias atuais, está combinada a diversos fatores.

A dialética da escolha por uma nacionalidade joga com muitas emoções. Ao optar pela cidadania alemã, os jovens ganham diversos direitos, como o do voto, a possibilidade de viajar por toda União Europeia sem um visto, a comodidade de não ter que ir à Embaixada Turca sempre que se necessitam algo, entre outros, mas perdem o direito de votar na Turquia e têm inúmeras complicações se decidem morar lá depois (por sorte, não necessitam de visto, pois o país turco não o pede para cidadãos alemães). Porém, a cidadania burocrática tem um papel simbólico muito forte na ideia de identidade nacional e muitos jovens estão entrando na justiça para poder contar com a dupla cidadania, caso de Erdi Yurtsever, jovem alemão-turco que declarou:

“(…) para mim seria extremamente difícil, abdicar de uma parte de mim”.



Como vimos, a cultura turca se mescla à cultura alemã, o que não causa um esquecimento da originária, tampouco uma deturpação da germânica; é, sobretudo, uma mistura – não para melhor, nem para pior – dado que tal juízo de valor não pode existir na discussão cultural. A aparição da bandeira alemã-turca é um reflexo da identidade cultural dos Deutschtürken, que não devem ser tratados nem como turcos e tampouco como alemães, senão como se refere o termo: alemães-turcos. Cabe à sociedade alemã (com todos os seus elementos) mudar essa situação, eliminar a discriminação e reconhecer o direito da população turca à manutenção de ambas as cidadanias. Assim como cabe ao mundo reconhecer que é cada vez mais difícil a influência de apenas uma nacionalidade na vida de bilhões de pessoas, num universo no qual as fronteiras são ultrapassadas a cada semana, abrindo espaços e movimentando identidades, que passam a se desterritorializar e assumir formas diferentes, mescladas e multiculturais.

Desde a ótica esportiva, podemos identificar diferentes agentes e instituições que disputam os atletas. Ilkay Gündogan foi chamado para a seleção alemã pela primeira vez quando havia sido recém-contratado pelo Dortmund e não parecia tão promissor (será que Joachim Löw é um visionário ou queria garantir que uma possível promessa não acabasse jogando pela Turquia?). A seleção turca também tem seus “olheiros” na Alemanha, prontos para convocar os jogadores que lhes pareçam interessantes. A decisão é do atleta – mas esse está obviamente, permeado, pelo que diz a mídia, pela opinião de sua família, pelas restrições sociais, por seu plano de carreira. Enfim, a decisão passa por tantos aspectos que é praticamente impossível dizer que ela é individual.

Aproveitamos a atenção internacional, principalmente dos fãs do futebol, a esse tema para tentar explicá-lo, não só na esfera dos jogos, mas também nos níveis menos discutidos. É uma visão singela, de alguém que espera que o governo alemão saiba lidar com o desafio da desterritorialização da identidade social e que esses jogadores, que tanto nos encantaram nos últimos meses, continuem distribuindo beleza pelas canchas por onde passam, seja em Istambul ou Dortmund. Lembrando que, ao fim e ao cabo, elas pertencem somente ao mundo – e eles também.

BANDEIRA TURCO-ALEMÃ

PS: O material e as fontes utilizados para o artigo fazem parte de um texto acadêmico feito por mim, de nome “Deutschtürken: a questão da dupla-nacionalidade na Alemanha”. Quem se interessar pelo mesmo, pode escrever nos comentários seu e-mail ou pela página no FB www.facebook.com/bubamarafutebol. Obrigado!

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Antropólogo, fanático por relações internacionais, direitos humanos, literatura e, óbvio, Doente por Futebol. Além de colunista para o DPF, escrevo para o fã clube Borussia Dortmund Südbrasilien e no projeto latinoamericano Goltura Futebol. Jogo de segundo volante.