Análise tática: Brasil 3×0 Espanha

  • por João Vitor Poppi
  • 8 Anos atrás

Muito melhor do que o esperado

A seleção brasileira começou a construir a vitória no hino nacional, cantado a plenos pulmões. Algo inimaginável há três meses atrás. O orgulho pela camisa verde e amarela na arquibancada foi reflexo do que os jogadores fizeram dentro do campo, também pela parte técnico-tática, mas ainda mais pela ”alma” mostrada pelos jogadores. Um time com a cara de Luiz Felipe Scolari.

Atuando no 4-2-3-1, que variava com Oscar se desprendendo do meio para subir a marcação, a seleção se dispôs como um bloco. Compactada. Fazia a passagem do campo defensivo para o ofensivo (e vice-versa) em conjunto. A linha de quatro defensiva se adiantava, aproximando-se dos meio campistas. Essa postura facilitou muito os momentos de marcação sobre a Espanha, pois as coberturas ficavam mais fáceis, as puxadas para o ataque mais rápidas, ou seja, tudo era realizado com maior rapidez e segurança, pois os espaços entre as linhas eram mínimos. Viu-se erros de passes da seleção espanhola.

Encaixe na marcação e muita disposição para reprimir a qualidade espanhola

Encaixe na marcação e muita disposição para reprimir a qualidade espanhola


O Brasil forçou a Espanha a entrar em um tipo de jogo em que ela não conseguiu mostrar suas características marcantes. Luis Gustavo colou em Iniesta e Paulinho vigiou Xavi; Fred e Oscar pressionaram, por dentro, Busquets e os zagueiros; Neymar e Hulk partiam para cima dos laterais adversários. Casillas ou a retaguarda eram forçados a darem o chutão, por falta de opção, quando o Brasil, com muita disposição e força física, retomava a posse de bola e buscava o ataque, praticamente da meia cancha. A marcação brasileira não dava tempo para os espanhóis pensarem. Foi um massacre em 15 minutos.

Casillas não tem a opção do toque. É forçado a dar o ''chutão''

Casillas não tem a opção do toque. É forçado a dar o ”chutão”


Os passes longos eram destinados para Neymar e Hulk, que souberam usar bem os espaços à frente dos laterais. Os pontas, Pedro e Mata, não foram firmes na marcação lateral. Por ali o Brasil conseguia fazer ultrapassagens e buscar a diagonal para infiltrar-se na zaga adversária.

A escolha de Del Bosque por Mata, no 4-3-3, foi um equívoco. A Fúria perdeu força pelos lados, com o meia/ponta do Chelsea muitas vezes centralizando e realizando poucos deslocamentos. Torres se via obrigado a sair da área, o que não rendia resultado positivo. A compactação brasileira tirou o passe vertical da Espanha, que, exceto aos 41 minutos em chute de Pedro, com David Luiz salvando em cima da linha, não teve infiltração na defesa adversária. 

Busquets, por vezes, ficou entre os dois zagueiros para dar maior segurança aos flancos espanhóis, que possuem fraco poder de marcação. A estratégia não deu certo e ainda acarretou em outro problema. A Espanha, que já tinha perdido território para o Brasil, ficou com a cabeça de área fragilizada. Não conseguiu controlar o jogo e nem ter posse de bola . Xabi Alonso, com sua distribuição de jogo e precisão no passe longo, fez muita falta.

Busquets entre os zagueiros.  Espaço na cabeça de área para o Brasil partir em direção ao gol

Busquets entre os zagueiros. Espaço na cabeça de área para o Brasil partir em direção ao gol

Algo a se destacar são os momento em que a Seleção anotou seus gols na competição. Na final não foi diferente. Fred abriu o placar com menos de dois minutos de jogo. Neymar ampliou aos 44 minutos, quando o jogo já estava equilibrado. O terceiro veio com dois minutos do segundo tempo. São gols em que o adversário está em primeira marcha, verificando as possibilidades do jogo ou encaminhando pro vestiário, e o Brasil engata a quinta marcha para abalar as estratégias adversárias. O pênalti desperdiçado por Sergio Ramos tirou qualquer fio de esperança dos espanhóis buscarem o empate. 

Com a vitória encaminhada e um começo de desgaste físico, o Brasil reteu suas linhas, passou a atuar no 4-4-1-1, como gritava e gesticulava Felipão à beira do campo. Oscar passou a compor a linha de quatro do meio pela esquerda, para Neymar buscar o contra-ataque por dentro, como aconteceu na expulsão de Piqué.

Linha de quatro no meio e Neymar por dentro. Brasil buscou o contra golpe

Linha de quatro no meio e Neymar por dentro. Brasil buscou o contra golpe

A grandiosa atuação do Brasil é merecedora de elogios. Tão importante quanto elogiar é sempre ressaltar que não se pode entrar em ”oba-oba”. Para conquistar o mundo pela sexta vez será necessário manter a humildade, a disposição mostrada no Maracanã e buscar evoluir a cada jogo, pois no futebol não existe perfeição.

Comentários

Acadêmico de Jornalismo. Analista Tático. Redator na DPF e na Vavel Brasil.