Carta Aberta a Rogério Ceni

  • por Bráulio Silva
  • 7 Anos atrás

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Tenho quase 32 anos e vejo você defendendo o meu time desde os 12. Quando começou, como um goleiro promissor, vindo logo a se tornar um reserva de luxo. 

Por muitas vezes era chato. Queria cavar seu espaço no time pois sabia que tinha qualidades e sabia da responsabilidade de substituir Zetti. Aliás, você apareceu no São Paulo jogando com calças compridas imitando o cara que vestiu a camisa 1 antes de você.

Foto: Gazeta Press / Em 95 Ceni jogava de calças e  já fechava o gol

Foto: Gazeta Press / Em 95 Ceni jogava de calças e já fechava o gol

Para muitos, você não alcançaria o nível de seu antecessor no clube, mas sua carreira no time que amo já começou vitoriosa. Aquele elenco recheado de jogadores que queriam ser alguém na vida. Aquele time que tinha Denílson, Bordón, Caio, Juninho e Rogério. Mas que também tinha Pereira, Pavão, Nelson, Catê, que um dia caíram no esquecimento.

O time que ganhou a Copa Conmebol com maestria, que jogou dois jogos no mesmo dia, ganhando do Grêmio pelo Brasileirão e do Sporting Cristal pela Copa Conmebol. Aquele time que na final ganhou por incríveis 6×1 do temido Peñarol. 

E o primeiro gol? Lembro que antes daquele chute certeiro contra o União São João, você ficou no quase contra o Flamengo. Era muito treinamento. E o centésimo? Uma falta perfeita na acanhada Arena Barueri.  E até aqui são 111 gols, muitos atacantes não possuem esses números!

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Lembro que você forçou a saída do clube em duas oportunidades. Na primeira, por querer seu espaço e achar que não poderia mais continuar sendo reserva. Afinal, perdeu a chance de disputar as olimpíadas de 96, justamente por ficar muito tempo na reserva de Zetti.

Mesmo assim Zetti procurou algo amigável. Recebeu uma proposta do Santos e abriu caminho para a sua ascensão. Na época, Zetti dizia que estava velho pra defender o nosso time em alto nível. 

A segunda é mais nebulosa. Aquela historinha chata que envolveu o Arsenal. O que lembro é que foi na fase final de uma competição importante, que poderia nos levar de volta à Libertadores. Ali, você já era o maior ídolo do time, pois Raí tinha se aposentado, Leonardo estava voltando da Europa, Kaká ainda não tinha se firmado e o França era o matador.

Foto: Lance / Rogério brigou com a diretoria em 2001 e ameaçou sair do SPFC.

Foto: Lance / Rogério brigou com a diretoria em 2001 e ameaçou sair do SPFC, contratando a advogada Gislaine Nunes.

Você contratou a Gislaine Nunes, convocou coletiva, disse que jogaria em algum rival. Mas ficou. Foi suspenso pela diretoria por 28 dias. Voltou, ocupou seu espaço e retomou a popularidade. Brigou com o antigo presidente (Paulo Amaral), virou – indiretamente – cabo eleitoral dos opositores.

Em 2002 conquistou a Copa com a seleção. Mas quando falamos dela, parece que estamos entrando em outro mundo com você. Além dessa ausência nas Olimpíadas de Atlanta em 96, teve o episódio dos carecas em 97. Onde você se mostrou um dos mais revoltados. O título em 2002 contrastou com a injusta reserva em 2006. Teve a breve titularidade na época do Leão. Tão criticada por uns e defendida por outros.

Foto: Reprodução / Rogério foi titular da seleção com Emerson Leão em 2001

Foto: Reprodução / Rogério foi titular da seleção com Emerson Leão em 2001

Voltando ao São Paulo, sei que você sofreu DEMAIS em 2004. Foi xingado por parte burra da torcida, que um ano e meio depois teve que lamber seus pés após a partida contra o Liverpool. A maior em importância, mas não é sua melhor atuação.

São mais de 1000 jogos. Sei lá quantos jogadores estiveram do seu lado, mas sei dos jogos que te fizeram virar ídolo. No mesmo ano em que te xingaram, foi majestoso diante do Rosário Central. A defesa que fez durante o jogo, num contra-ataque do adversário, foi uma das que mais vibrei no estádio. Sem contar a disputa de pênaltis. Ah, o Gaona!

Foto: Reprodução / Em 2004, parte da torcida protestou no Pacaembu. Os alvos? Rogério e Luis Fabiano

Foto: Reprodução / Em 2004, parte da torcida se vestiu de amarelo no Pacaembu. Os alvos? Rogério e Luis Fabiano

Antes disso, outras duas partidas merecem ser citadas: a semi-final do Rio-SP de 2001. O chute do Roni e a defesa impossível. E depois, novamente brilhando nos pênaltis. Na mesma época tem aquele jogo contra a Lusa em São José do Rio Preto. Deu pena do Ricardo Oliveira. Tentou de todas as formas balançar as redes e não conseguiu. Uma pena que as memórias daquele jogo não estejam disponíveis em vídeo na internet…

Mas aí veio 2005 e tudo mudou. Os seus gols saíram em profusão. Os títulos, que eram raros, vieram aos montes e você entrou para a história com três brasileirões, uma libertadores e um mundial. Sempre como capitão e como principal jogador do time.

Foto: Reprodução / Com a Libertadores no dia em que definitivamente entrou para a história do SPFC

Foto: Reprodução / Com a Libertadores no dia em que definitivamente entrou para a história do SPFC

Só que um dia a idade chega. O corpo não vai responder mais como antes Seu profissionalismo é exemplar. Sua dedicação também. Seu amor pelo São Paulo, uma vida inteira dedicada ao clube.

Foto: Gazeta Press / Já em 2013 Ceni reclama a marcação de um pênalti contra o Tricolor

Foto: Gazeta Press / Já em 2013 Ceni reclama a marcação de um pênalti contra o Tricolor

Aqui não é uma cobrança nem um conselho. É um pedido: Rogério, você não merece ter em seu currículo um time tão medíocre no encerramento da sua carreira. Faça como fez seu antecessor e dê espaço aos seus reservas. A torcida sentirá saudades como até hoje sente falta de Zetti.

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Paulistano, casado e com 33 anos. Apaixonado por futebol e pelo São Paulo FC. De memória privilegiada, adora relatar e debater fatos futebolísticos de outrora. Ex-estudante de jornalismo, hoje gerencia uma drogaria no município de Barueri, além de escrever para a Doentes por Futebol.