Don Juan

  • por Leandro Lainetti
  • 8 Anos atrás

Amor à camisa é artigo de luxo no mercado. Tão raro quanto dirigentes competentes no Brasil. Mas, vez ou outra, acabamos encontrando exemplos de que ainda existem cavalheiros à moda antiga por aqui. Apaixonados, românticos, são capazes de realizar gestos que provam todo o seu amor por determinado time.

O último caso é de Juan, zagueiro do Internacional, e revelado nas categorias de base do Flamengo, clube pelo qual atuou entre 1996 e 2002. Depois de sólida carreira na Europa, com passagens por Bayern Leverkusen e Roma, e convocações para a seleção brasileira, ele voltou ao Brasil. Nunca escondeu o desejo de jogar novamente no rubro-negro mas, devido à alta pedida salarial (500 mil reais), acabou seguindo o caminho para Porto Alegre.

Domingo, dia 21, no confronto entre as duas equipes, o destino resolveu colocar aquela pitada de ironia que, volta e meia, surge em nossos gramados. Aos 46 minutos do segundo tempo, quando o jogo se encaminhava para o empate, a bola sobrou no meio da área rubro-negra, encontrou a testa de Juan e foi morrer no fundo do gol. A cena, que eu repugno, tem sido cada vez mais corriqueira. Um jogador marca um gol contra o ex-clube e por amor – ou respeito – abdica da comemoração com seus próprios companheiros e torcida. O maior momento do futebol fica relegado aos cantos pelo seu autor. O gol, se comemorado, vira uma afronta, um tapa na cara, uma traição equivalente a pegar a mulher na cama com outro.

Foto: Luiz Munhoz / Agência Estado - Juan no exato momento em que pede desculpas à torcida do Flamengo

Foto: Luiz Munhoz / Agência Estado – Juan no exato momento em que pede desculpas à torcida do Flamengo

Juan, porém, foi adiante. Não comemorou o gol e, acreditem, se dirigiu à torcida rubro-negra para pedir suas sinceras desculpas. Na entrevista pós-jogo, disse que ficou triste com o gol mas que era profissional. Afirmou também que era uma vitória estranha. Uma vitória que veio com um gol seu, para alegria da massa colorada.

A reflexão aqui é a seguinte: até onde o amor por um clube pode entrar em campo quando você defende a camisa de outro? Pedir desculpas, para Juan, é respeito e amor aos flamenguistas, mas não seria desrespeito com os colorados? Claro que nenhum jogador precisa beijar e declarar amor a cada clube que defender, longe disso. Nem é proibido de torcer por quem amou desde a infância. Mas ser profissional constitui respeitar quem paga o seu salário.

Sobre o amor, evoco os exemplos de Juninho, jogando de graça no Vasco, além de Maxi Rodríguez, Sebá Dominguez e Lucas Bernardi, jogadores do Newell’s que doaram dinheiro para o clube melhorar a estrutura das categorias de base.

Amor verdadeiro não custa 500 mil. Amor verdadeiro não tem preço.

Ou tem, Don Juan?

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Jornalista trabalhando com marketing, carioca, 28 anos. Antes de mais nada, não acredito em teorias da conspiração. Até que me provem o contrário, futebol é decidido dentro das quatro linhas. Mais futebol nacional do que internacional. Não vi Zico mas vi Romário, Zidane, Ronaldinho, Ronaldo. Vejo Messi e Cristiano Ronaldo. Totti é pai.