FIFA e a bagunça nas eliminatórias africanas

  • por Rogério Bibiano
  • 6 Anos atrás

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As Eliminatórias para a Copa movimentaram o planeta bola no último mês de junho. Algumas seleções já estão com o passaporte carimbado para o Brasil, outras muito próximas do sonho e umas tantas já eliminadas, refazendo planos para 2018.

Na Zona Africana não é diferente, mas as emoções no continente não se resumem ao futebol e aos resultados dentro de campo. As Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2014 na África são as que mais possuem casos de “tapetão”.

Os casos africanos que estão indo para o tribunal desportivo da Fifa, em geral, ocorrem pela utilização de atletas irregulares. Mas em uma Eliminatória envolvendo seleções ainda há casos dessa natureza?

Bagunça e desleixo por parte da Confederação Africana de Futebol e também da Fifa. Ao contrário de outras confederações mundo afora, a CAF não possui em seu principal canal de informações um simples quadro informando os assuntos disciplinares. A Fifa tem enorme parcela de culpa nisso, pois como organizadora principal do evento e com (muita) grana na mão, não aprimora ou cobra ações neste sentido.

Os primeiros casos de tapetão nas Eliminatórias Africanas

O tapetão na África começou desde a primeira rodada das eliminatórias no continente. No grupo E, na primeira rodada, Burkina Faso e Congo empataram sem gols. Entretanto, Burkina Faso utilizou de forma irregular o zagueiro Herve Zengue. Nascido em Camarões, o atleta já havia sido alvo de polêmica pouco antes da Copa Africana das Nações, quando a Namíbia questionou sua naturalização. Entretanto a CAF, através do seu tribunal, julgou tudo normal, diferente do que fez a Fifa. Zengue foi casado com uma burkinabé e teria (algo também não esclarecido), uma dupla-cidadania devido ao casamento. A Fifa alterou o placar, dando ao Congo a vitória por 3×0.

A escalação do camaronês Herve Zengue, custou à Burkina Faso, pontos preciosos nestas Eliminatórias - foto: reprodução

A escalação do camaronês Herve Zengue, custou à Burkina Faso, pontos preciosos nestas Eliminatórias – foto: reprodução

Pelo mesmo grupo E e também na primeira rodada, Níger e Gabão empataram sem gols. No tapetão, Níger ganhou os pontos e foi declarada vencedora do confronto, por 3×0. Isso porque escalou o camaronês naturalizado, Charly Moussono, que em 2006 havia jogado o Mundial de Beach Soccer por Camarões. Assim, como na situação de Burkina Faso, a CAF havia liberado o atleta em suas competições. Já a Fifa julgou-o inelegível, com os gaboneses perdendo pontos importantíssimos.

Charly Moussono disputou um Mundial de Beach Soccer, competição oficial da Fifa, por Camarões. Naturalizado gabonês, disputou uma CAN em 2012 pelas Panteras. Sua escalação também trouxe prejuízos para Gabão.

Charly Moussono (22) disputou um Mundial de Beach Soccer, competição oficial da Fifa, por Camarões. Naturalizado gabonês, disputou uma CAN em 2012 pelas Panteras. Sua escalação também trouxe prejuízos para Gabão – foto: reprodução

No grupo D, o tapetão revertou por completo um jogo. Na bola, o Sudão venceu, 2×0, mas a vitória foi dada à Zâmbia, 3×0. O meia Saif Ali, escalado para o jogo, estava suspenso devido à expulsão em jogo pela Copa Africana das Nações de 2012, contra a própria Zâmbia. Os sudaneses não foram informados da situação nem pela CAF e muito menos pela Fifa e inocentemente escalaram o atleta.

Ante Zâmbia, em setembro de 2012, nas Eliminatórias, o sudanês Saif Ali, deveria ter cumprido suspensão por expulsão ainda na CAN em janeiro do mesmo ano. Escalado, foi o bode expiatório para a punição ao Sudão - foto: reprodução

Ante Zâmbia, em setembro de 2012, nas Eliminatórias, o sudanês Saif Ali, deveria ter cumprido suspensão por expulsão ainda na CAN em janeiro do mesmo ano. Escalado, foi o bode expiatório para a punição ao Sudão – foto: reprodução

2013 chega e no ano-chave das Eliminatória para a Copa, a bagunça continua

Após alguns meses de aparente calmaria, sem “viradas de mesa”, mas com muitos jogos tendo seus mandos de campo alterados devido à falta de segurança, em função de guerras civis (casos de Mali, República Centro-Africana), no mês de junho, o que parecia estar decidido em campo, novamente teve o “tapetão” como definidor de resultados.

 Presidente Francois Bozize, da República Centro-Africana, conclama o exército a combater movimento rebelde. As guerras civis no continente Africano prejudicam o povo, o esporte e a vida num todo

Presidente Francois Bozize, da República Centro-Africana, conclama o exército a combater movimento rebelde. As sangretas guerras civis, motivadas por diversos fatores, no continente Africano, vitimam milhares de vidas inocentes. Mundo afora, pouco se comenta – foto: AP

A Etiópia em uma semana estava garantida matematicamente na próxima fase. Estava! A seleção escalou Minyahil Teshome quando este deveria cumprir suspensão automática pelo acumulo de dois cartões amarelos na vitória sobre Botsuana, 2×1. Contando com a pressão da África do Sul e da própria Botsuana, com interesses matemáticos no resultado do jogo, a Fifa considerou o apelo das Zebras, revertendo a placar para 3×0. A decisão do grupo fica para setembro, com a Etiópia ainda na ponta da chave.

M T foi escalado de forma irregular. A própria federação etíope admitiu o erro que custou, o adiamento da classificação para a próxima rodada das Eliminatórias, em setembro - foto: reprodução

Minyahil Teshome foi escalado de forma irregular. A própria federação etíope admitiu o erro, que custou o adiamento da classificação para a próxima rodada das Eliminatórias, em setembro – foto: Getty Images

Na antepenúltima rodada do grupo I, uma apática Camarões caiu em campo ante Togo, 2×0. Uma soma de fatores tirava os Leões Indomáveis da liderança para um complicado segundo lugar no grupo. Entretanto, os camaroneses descobriram que o togolês Alaixys Romao havia tomado dois cartões amarelos e por esta razão não poderia jogar contra Camarões. Resultado pós “tapetão”: Camarões 3×0, novamente na liderança do grupo e à frente da Líbia, por um ponto de vantagem.

Experiente Alaixys Romao não deveria ser escalado. Federação togolesa não manifestou-se oficialmente e provavelmente ciente do erro, aguardava silenciosamente o desenrolar dos fatos - foto: reprodução

Experiente Alaixys Romao não deveria ser escalado. Federação togolesa não manifestou-se oficialmente e provavelmente ciente do erro, aguardava silenciosamente o desenrolar dos fatos – foto: reprodução

O grupo I tem chamado a atenção pelos fatores extra-campo. No jogo Líbia 2×0 Togo, em Trípoli, os donos da casa venceram e ficaram próximos da fase decisiva. No entanto, Togo reclamou da hostilidade presente fora de campo, com ameaças que incluíram armas, tiros e total falta de segurança. A Fifa ainda não se manifestou sobre os incidentes. O fato é que até mesmo a eliminação dos líbios não está descartada, assim como é quase certeza que, caso avancem à fase seguinte, a Líbia tenha seu mando modificado para um campo neutro ou um estádio sem público.

Após passar por uma guerra civil, os líbios obtiveram o direito nos dois últimos jogos das Eliminatórias, de atuarem com portões abertos, entretanto, conduta suspeita pode tirar este direito por mais um bom tempo - foto: reprodução

Após passar por uma guerra civil, os líbios obtiveram o direito, nos dois últimos jogos das Eliminatórias, de atuarem com portões abertos e o apoio dos seus fanáticos torcedores, entretanto, conduta suspeita pode tirar este direito por mais um bom tempo – foto: reprodução

Para completar a bagunça que envolve o futebol africano, tendo a Fifa como uma espectadora inerte, no último dia 04, a entidade máxima do futebol suspendeu Camarões do seu quadro de filiados, provisoriamente e indeterminadamente, como diz o próprio comunicado oficial da entidade. Após uma série de situações envolvendo a disputa pelo controle da Federação Camaronesa de Futebol (Fecafoot) – clique e veja aqui – o presidente e candidato à reeleição Mohammed Iya foi preso acusado de desviar 10 milhões de dólares da Sociedade de Desenvolvimento do Algodão, entidade da qual ocupava o cargo de diretor-geral.

Mohammed Iya, preso sob acusação de desviar dinheiro de órgão público camaronês, foi reeleito em eleição também considerada fraudulenta. A Fifa não quer saber e em apoio ao mandatário, suspendeu Camarões do quadro de filiados - foto: reprodução

Mohammed Iya, preso sob acusação de desviar dinheiro de órgão público camaronês, foi reeleito, mesmo na prisão, em eleição também considerada fraudulenta. A Fifa não quer saber e em apoio ao mandatário, suspendeu Camarões do quadro de filiados – foto: reprodução

Mesmo preso, Iya foi reeleito no dia 20 de junho, em eleições controversas, tendo inclusive recebido os cumprimentos do mandatário-mor da Fifa, Josep Blatter. A justiça comum camaronesa anulou o processo eleitoral e o governo nomeou o Ministro dos Esportes, Adoum Garoua, para conduzir um processo de moralização do futebol camaronês. A Fifa entendeu a medida como arbitrária e suspendeu os Leões Indomáveis de todas as competições. A suspensão acabará assim que as autoridades camaronesas permitirem a entrada do comitê de normalização na sede da Fecafoot, sem entraves, como sugere o comunicado oficial da Fifa.

Presidente da Confederação Africana de Futebol,o camaronês Issa Hayatou é figura muito próxima de Sepp Blatter. Na sua gestão o continente africano evoluiu futebolisticamente, mas com a grana investida pela Fifa, resultados poderiam ser melhores - foto: reprodução

Presidente da Confederação Africana de Futebol,o camaronês Issa Hayatou é amicíssimo de Sepp Blatter. Na sua gestão o continente africano evoluiu futebolisticamente, mas com a grana investida pela Fifa, resultados poderiam ser melhores – foto: reprodução

Assim está o futebol africano: sob a batuta da Fifa. A entidade que orgulhosamente gasta milhões para o desenvolvimento do futebol na África não faz o básico para seus afiliados em termos administrativos e pune com a mesma tranquilidade. Da mesma forma, parecem não conversar com a CAF, o que tem ocasionado decisões contraditórias das duas entidades. Nessa última situação, com Camarões, um dos países de maior tradição futebolística do continente, a Fifa claramente defende um corrupto. E assim, a bagunça está oficializada e reinando na África.

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Natural de Telêmaco Borba-PR e criado em meio à "boemia futebolística", com horas de papo sobre futebol, samba e cervejas na pauta. Influência do pai, que também adorava futebol, e da mãe, que sempre apoiou a iniciativa. Técnico em Eletrônica, formado desde 1999, e fanático por futebol, futsal, futebol de praia, society e todo esporte que tenha no futebol a sua essência.