Inflação Maracanesca: ingresso 600% mais caro entre reinaugurações

  • por Matheus Mandy
  • 7 Anos atrás
Torcedor pagou mais barato para assistir a última reabertura do Maracanã

Torcedor pagou mais barato para assistir a última reabertura do Maracanã

No último domingo, o Estádio do Maracanã enfim foi entregue aos clubes após as obras para a Copa 2014. Fluminense e Vasco protagonizaram um grande clássico, assistido por pouco mais de 46 mil torcedores e com triunfo cruzmaltino por 3 x 1. A renda do jogo foi significativa, mais de R$ 1,5 milhão.

Voltemos sete anos no tempo, chegando a janeiro de 2006, data do jogo entre o próprio Vasco e o Botafogo, pela Taça Guanabara. O triunfo do Glorioso por 5 a 3 marcou a reinauguração do estádio, que ficou fechado para reformas visando ao Pan 2007. O público? Pouco mais de 43 mil pagantes. A renda? Incríveis R$ 370.785,00, quase cinco vezes menos do que no jogo de domingo, apesar de um público similar.

A abissal diferença se explica pelos aumentos do preços dos ingressos. Em 2006, o estudante Nilo Gama, torcedor do Botafogo, pagou R$ 5,00 (referentes à meia entrada), para assistir ao clássico entre Bota e Vasco, das arquibancadas Amarelas, hoje equivalentes aos setores Sul e Norte, que custaram R$ 30,00 (meia entrada) na reabertura de Fluminense e Vasco. Traduzindo: os ingressos, entre uma abertura e outra, aumentaram 600%.

Nilo se preparava para ir ao jogo entre Botafogo e Flamengo no próximo domingo, mas o ingresso mais barato custa R$ 50,00 (meia entrada), muito diferente dos R$ 7,00 (meia entrada) pagos por ele para ver o mesmo duelo durante o Brasileirão de 2004. Conclusão? Nilo não vai ao jogo por causa do aumento de 714%.

“Não pago. Me recuso. Pensando no meu bolso, vale mais a pena comprar o jogo no pay per view. E isso mesmo morando perto do Maracanã, sem precisar gastar dinheiro com transporte. Não lembro de absolutamente nada que tenha aumentado tanto. Para mim só se justificaria um aumento se ele seguisse, no máximo, a inflação e não é o que acontece”, esbravejou.

Para o economista Marcio Fortes de Nogueira, os números assustam. “Se você pegar qualquer coisa no supermercado, lojas de materiais de construção, você não vai ver
nenhum produto com este aumento. Alguém poderia argumentar que o Governo estaria atrás da recuperação do dinheiro investido, mas a administração do Maracanã foi repassada à iniciativa privada”, argumenta.

Nogueira ainda foi além. “A paixão por um time é algo que não dá para controlar, e em algumas vezes as pessoas acabam gastando um dinheiro com futebol além da conta, e isso pode comprometer sua renda para pagar algumas despesas, e vai virando bola de neve. Nestes casos de aumento, era necessário fazer um estudo da condição financeira do torcedor, antes de tabelar os valores. Os gastos para ver um jogo não se resumem ao ingresso. Tem também as conduções e a alimentação no estádio, que também são caras”, concluiu.

Com todos estes fatores, é notório que a média de público vem caindo, e a tendência é continuar assim, pelo menos na visão do próprio torcedor. “Não tenho a menor dúvida que aquele torcedor de geral diminuiu drasticamente sua ida a jogos do seu time. Mesmo apaixonado por meu time e pelo esporte, não acho que o preço cobrado condiz com o evento. Um pai de família que for levar seu filho ao Maracanã no próximo domingo gastará R$ 150,00 só com ingresso”, concluiu Nilo Gama, que, assim como quase todos, ficou indignado com a privatização do Maracanã: “é uma vergonha tão grande que a minha vontade é ver os jogos vazios”.

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Nascido em Santo Antônio de Pádua, Mandy começou com jornalismo em 2004 e em 2010 se formou na área. Trabalhou na Inter TV da Globo em Campos, TV Record e foi editor de esportes da Folha da Manhã, maior jornal do interior do rio. Também trabalhou na assessoria de imprensa do Instituto Federal Fluminense e de clubes do Rio de Janeiro.