O braço do destino

  • por Leandro Lainetti
  • 8 Anos atrás

Vamos voltar no tempo. Mais precisamente, exatos três anos atrás. 2 de julho de 2010. Copa do Mundo da África do Sul. No Estádio Soccer City, Uruguai e Gana enfrentavam-se por uma vaga na semifinal do torneio. No tempo normal, chances para os dois lados e placar empatado: 1×1. Gana era a última seleção africana ainda em ação naquela Copa, e com certeza tinha a torcida de todo o continente para se classificar

A prorrogação seguiu equilibrada e, ao se aproximar do fim, todos esperavam os pênaltis. Até que um lance, uma bola espirrada mudou o curso da história e a vida de dois personagens. Após falta cobrada na área e um bate-rebate, que para os torcedores ganeses e uruguaios deve ter durado quase uma vida, a bola sobrou para um jogador africano. A cabeçada, fulminante, seguia sua trajetória rumo ao gol até que um braço, um maldito abençoado braço surgiu no caminho. Aos 21 segundos dos acréscimos da prorrogação, Luisito Suárez, movido pelo desespero, fez o que qualquer ser humano faria. E como qualquer ser humano naquela situação, foi expulso.

Foto: Reuters - Como um exímio goleiro, Suárez defende a cabeçada

Foto: Reuters – Como um exímio goleiro, Suárez defende a cabeçada

Suárez, vejam bem, não tinha nada a perder, muito pelo contrário. Trocou sua participação em campo pela pequena chance do pênalti ser perdido. Com a bola na marca da cal, Asamoah Gyan, craque daquela seleção ganesa, e que já havia marcado dois gols de pênalti no Mundial, trocou a ilusão de ser herói pela realidade de ser vilão ao acertar o travessão de Muslera.

Ali, talvez tenhamos visto a maior imagem da Copa da África do Sul. Do lado de fora do campo, no túnel de acesso aos vestiários, Luisito comemorou. E como comemorou. Cerrou os punhos, sorriu, pulou, correu, enlouqueceu.

Na disputa de pênaltis, 4×2 para o Uruguai, com a famosa cavadinha de Loco Abreu fechando a série e Muslera pegando duas cobranças. Mas, naquele 2 de julho, ninguém mais poderia roubar a condição de protagonista de Suárez. Em um segundo ele mudou dois destinos. O seu e, claro, de Gyan.

Foto: Reuters - Após a disputa de pênaltis, Suárez é festejado

Foto: Reuters – Após a disputa de pênaltis, Suárez é festejado

Suárez não foi herói. Foi anti-herói. Afinal, consagrou-se ao cometer um delito. Mas quem se importa? Ao fazer o errado se transformar em certo, entrou para a história do futebol com um dos momentos mais marcantes que já vimos. Três anos depois eu digo: obrigado, Suárez, a Copa do Mundo de 2010 não teria sido a mesma sem você.

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Jornalista trabalhando com marketing, carioca, 28 anos. Antes de mais nada, não acredito em teorias da conspiração. Até que me provem o contrário, futebol é decidido dentro das quatro linhas. Mais futebol nacional do que internacional. Não vi Zico mas vi Romário, Zidane, Ronaldinho, Ronaldo. Vejo Messi e Cristiano Ronaldo. Totti é pai.