O Gigante Sereno e a Glória do Galo

  • por Ordep Jose Trindade Serra
  • 8 Anos atrás

Começo pela saudade. É impossível principiar de outro modo: a justiça exige a homenagem ao amável gigante negro que foi uma das glórias do nosso futebol. Deixem-me esclarecer: quando o chamo de gigante não me refiro a sua estatura física. Falo de outra dimensão em que Djalma Santos se impunha de modo misterioso. Na verdade, não é minha a expressão. Relembro o que me dizia um velho amigo palmeirense, um seu grande admirador, que o viu em campo muitas vezes – e agora o vê no céu:

– Ele crescia no jogo de um modo fantástico, assombroso. Entenda bem, rapaz: sua técnica é que assustava o adversário. Era uma combinação elegante de força e perícia. 

Homem robusto, com certeza. Uma rocha. Mas se impunha pela qualidade. Nunca foi desleal. Tinha o segredo da precisão, que traz a calma. Crescia na cancha, tomando para si o espaço do adversário. Na hora do aperto, ele era um monstro de serenidade. 

Essa virtude foi decisiva para a primeira seleção brasileira campeã do mundo. Na Copa de 1958, Djalma Santos entrou apenas na final, substituindo De Sordi – e, por essa única partida, foi reconhecido o melhor lateral direito do campeonato inteiro. Com a façanha, ainda ajudou a derrubar um dogma racista, um preconceito estúpido: esfarrapou a lenda de que o Brasil não ganhava a Copa por causa da fraqueza psicológica de seus atletas negros. Djalma Santos desmoralizou a estúpida alegação: escalado de última hora, entrou tranquilo na disputa e jogou com soberba, com artística segurança. Campeão nato, destemido, brilhante. 

Na última partida da Libertadores deste ano de 2013, ele foi homenageado com um minuto de silêncio antes de começar a partida. Rezei nesse tenso minuto. Pedi ao gigante Djalma Santos que desse força ao Galo, que o fizesse crescer em campo, bem do seu jeito. E torci muito, solidário com a multidão atleticana que fazia pulsar o Mineirão. 

Não nego que em Minas o Cruzeiro tem a minha preferência. Aliás, preferência é pouco: tenho paixão pelo clube celeste. No entanto, estou agora aplaudindo o Galo. Como tive de explicar a alguns amigos – nem sei quantas vezes – dá-se que acima de tudo eu torço pelo futebol brasileiro. Bem, não é só isso: nunca torço apenas contra, por puro ódio a um rival. Não gosto de ódio, não cultivo. 

Na Libertadores, o Galo foi o time brasileiro que resistiu. Eu gostaria de ver dois dos nossos clubes na finalíssima. Isso bem podia ter acontecido. O Corinthians possivelmente chegaria lá, se não fosse garfado pelo apitador Amarilla num verdadeiro assalto a bico armado. No fim, só ficou um dos nossos. Passei, então, a torcer pelo Galo. Meus companheiros cruzeirenses não se conformam, falam que eu desatinei. E meus amigos atleticanos duvidaram de minha sinceridade. Mas juro pela virtude da sagrada Raposa que fui um bom torcedor do Atlético. Voltarei a ser no mundial interclubes.

Confesso que minha experiência de torcedor provisório do Galo não foi fácil. Envolveu sofrimento demais. Na primeira partida da final, amarguei uma bela decepção. Eu esperava que o Atlético vencesse, ou pelo menos empatasse. Sei que o Olímpia tem pós-graduação em Libertadores, que tinha o apoio de sua galera no Defensores del Chaco, que os paraguaios são bons de bola e de catimba etc. etc. Mas estava convicto – e ainda estou – de que o time atleticano de Minas é melhor. Dava pra ganhar. Apoiado nesta confiança, comecei a assistir o jogo bem tranquilo. Do meio pro fim, penei barbaridade. 

No dia seguinte, no pequeno círculo filosófico que frequento, dominava a perplexidade. 

Alberto, um dos heroicos guardiões do condomínio onde moro, estava desolado. Ele é fã de carteirinha do Gaúcho, acredita que sem este craque a Seleção Brasileira não tem a menor chance de ganhar a Copa do Mundo. Vive clamando aos céus, rogando a todos os santos para que curem a cegueira de Felipão. Na ressaca daquela terrível partida, foi rodeado de perguntas irônicas e observações maldosas: 

– Cadê o gênio dos pampas que você tanto louva? Entrou numa garrafa?

– Na certa era um sósia dele que estava em campo. Um clone mal fabricado, ruinzinho de bola.

– O mesmo que jogou no Flamengo. 

O Príncipe Alberto – que tem esse apelido por ser um homem muito elegante – não se abalou com os remoques. Apenas sorriu com sabedoria e retrucou:

– Esperem pra ver.

Mais tarde, eu pus o problema do eclipse gaúcho para meu amigo Chico Teoria, que nunca se aperta. Ele declarou: 

– Homero explica.

E fez silêncio por um longo momento. Por fim, depois que saboreou os olhares intrigados da turma, ele se dignou a esclarecer: 

– Está na Ilíada. É um flagelo que os deuses enviam contra os mortais e muitas vezes atinge aqueles que se elevam muito, por que sofrem o risco da soberba. Chama-se Áte.

Aquiles e Pátroclo, personagens da Ilíada

Aquiles e Pátroclo, personagens da Ilíada | Imagem: Reprodução

É assim mesmo: um paroxítono, como estou pronunciando. Uma espécie de demônio feminino, muito sutil. Pensem em um herói extraordinário, forte e valente, um atleta perfeito, invicto, ou um rei poderoso, com todas as qualidades; no meio da luta ou da assembleia, Áte pousa na cabeça desse tremendo super-homem e dá-lhe uma leseira instantânea: logo-logo, ele perde o tino, bobeia, dana-se a fazer bestagem. 

– Diabos! – gemeu Cláudio – acho que essa demônia paroxítona atacou o time do São Paulo. 

A teoria de Chico abalou os nervos da turma toda. Priscila, emérita flamenguista, quis logo saber se Homero ensina algum descarrego contra Áte. Chico negou com gravidade. 

Nesse mesmo dia, nossa amiga iniciou uma pesquisa que a tem levado a dezenas de terreiros baianos. Ao despedir-se da turma, a apressadinha deixou atrás de si um belo tapete de risadas. 

Eu também fui vítima de gozação. Dos meus companheiros cruzeirenses, o que é pior. 

Quando lamentei o azar dos atleticanos com aquele gol do Pittoni no apagar das luzes, no Defensores del Chaco, Celestino atacou:

– Quem tem pena de galo é peteca.

Nada como um dia depois do outro: no fim nós triunfamos, o Príncipe Alberto e eu. O sofrimento foi grande, porém valeu a pena. O Gaúcho saiu da garrafa, São Victor fez outro milagre, o time todo lutou com heroísmo na rinha do Mineirão. O Galo cantou vitória.

Dessa vez, meu caro compadre Riobaldo não conseguiu pregar-me a peça já esperada: no anterior triunfo de seu Atlético ele telefonou de madrugada a sete amigos cruzeirenses soltando um longo cocoricó. Fui o sétimo. O compadre velho de guerra alegou, depois, que na última quinta festiva estava rouco. Mas eu sei que o prudente silêncio tem outra explicação: foi arte de sua amada impossível, a bela Deadorina, que ameaçou cortar-lhe a crista. A essa altura os dois devem estar brigando amorosamente nas profundezas do Grande Sertão. Cá na Bahia eu amanheci em paz, com um tremendo apetite de raposa. 

O Galo que se cuide.

Comentários

Graduado em Letras pela UNB, Mestre em Antropologia Social pela UNB e Doutor em Antropologia pela USP. Professor Associado do Departamento de Antropologia da FFCH / UFBA. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA; Prof. participante do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA. Membro da Associação Brasileira de Antropologia, da SBPC, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia. Membro fundador do Grupo de Pesquisa “Encruzilhada dos Saberes”. Fundador e Coordenador do Grupo Hermes de Pesquisa e Promoção Social e do Movimento Vozes de Salvador. Produção principal em Antropologia da Religião, Antropologia das Sociedades Clássicas, Etnobotânica, Teoria Antropológica. Tradutor de textos científicos e literários. Escritor premiado três vezes em concursos nacionais de literatura, com obras de ficção (conto, novela).