O Podre Padrão (e as Garras do Galo)

  • por Ordep Jose Trindade Serra
  • 6 Anos atrás

Já andei escrevendo nesta coluna sobre desmandos relacionados com a Copa do Mundo de 2014 e seu ensaio geral recém-concluído, a Copa das Confederações. Voltarei a tratar do assunto, pois ele não se esgotou. Começo pelo bizu da Fonte Nova, o estádio baiano que virou arena com nome de cerveja e tem acumulado à sua volta uma saga de despautérios, desde a clamorosa véspera da (re)inauguração, com trapalhadas na venda dos ingressos e torcedores apanhando da polícia pelo desacerto alheio.

Bem sei que este estrupício da Boa Terra não é um fenômeno isolado. Reconheço que pelo Brasil afora têm acontecido abusos até piores, no mesmo contexto. Mas começo pela arena baiana porque neste caso posso dar um testemunho. Fui um dos autores de um documento encaminhado ao Governador do Estado da Bahia e entregue, também, ao Secretário responsável pelas obras da Fonte Nova antes que elas começassem. O documento foi elaborado em seguida a um seminário em que o assunto foi seriamente discutido por engenheiros, urbanistas, técnicos de diversas áreas, além de representantes de movimentos sociais e lideranças populares.

O texto do “Manifesto a favor da Fonte Nova” principia citando parecer de um engenheiro especialista no assunto, com a afirmativa de que a estrutura principal do estádio era perfeitamente aproveitável; argumenta, em seguida, que era descabida a eliminação sumária de um complexo olímpico, a ser substituído, como se projetava, por uma arena exclusiva de futebol, justo em tempos de preparação para os próximos Jogos Olímpicos – ainda mais sendo Salvador cogitada para subsede desses Jogos, como palco de certames em algumas modalidades. O documento (tenho cópia) lembra que não era exigência da FIFA a retirada da pista de atletismo, retirada essa que implicaria (implicou) na demolição total do estádio. Segue-se no seu texto a proposta de reabilitar as funções multiuso do Complexo Olímpico da Fonte Nova, o único do gênero no Estado.

Ao mesmo tempo, o Manifesto pedia respeito ao tombamento determinado pelo Processo 464-T-1952, consoante decisão tomada pelo Conselho do IPHAN em 12 de maio de 1959: dá-se que a Vila Olímpica da Bahia, sita na Fonte Nova, com o estádio e os anexos, ficava claramente nos limites do bem tomado. Por fim, o documento reitera que seria perfeitamente viável uma reforma capaz de atender ao requerido para a Copa do Mundo com custo de execução muitas vezes inferior ao do projeto de demolição dos equipamentos existentes para construção de um estádio novo.

O ofício foi protocolado na Governadoria em 11 de maio de 2010 e entregue em mãos, na mesma data, ao Secretário do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte do Estado da Bahia. São signatários o Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura, o Instituto dos Arquitetos do Brasil, o Sindicato dos Engenheiros, o Sindicato dos Arquitetos, a Associação Brasileira dos Engenheiros Civis, a União pela Moradia Popular, o Movimento Vozes de Salvador, o Fórum “A Cidade Também é Nossa” (que congrega vinte e seis entidades), a Federação das Associações de Bairros de Salvador e outras organizações de peso.

O Governo da Bahia simplesmente ignorou esse documento. Na prática, mandou às favas renomados técnicos, instituições respeitadas, sociedade civil. Fez-se a demolição que privou Salvador de sua única piscina olímpica, de seu único complexo esportivo com padrão olímpico. Assim o governo Jaques Wagner desferiu um golpe sério no atletismo baiano. “Justificou” a medida estúpida com a alegação de que era preciso atender às exigências da FIFA. Ato contínuo, ergueu a nova arena segundo o figurino imposto, para gáudio das empreiteiras. O orçamento da obra foi rapidamente inflado, e continua a crescer.

Belo trabalho, realmente. A dezenove dias da Copa das Confederações, parte do teto do estádio desabou. Consertaram num corre-corre. Verificou-se, depois, que o viaduto de saída está trincado, precisando de sérios reparos. Ainda está em conserto.

Não é tudo. Três geradores ficaram instalados do lado de fora, infernizando o trânsito nos arredores. E no interior da arena há outros problemas: mais gastos serão necessários a fim de eliminar os numerosos pontos cegos da obra “perfeita” – obra que o contribuinte terá de pagar durante quinze anos.

É o tal legado.

Em compensação, o ingresso para jogos na nova arena passa a custar setenta reais, ou seja, mais que um décimo do salário mínimo. O estádio ficou imune a povão. Seletivo, como se diz.

Sim, eu sei que pelo Brasil afora houve coisas piores: basta lembrar a reforma bilionária do Maracanã, também com demolição irresponsável de importantes equipamentos esportivos. Ou a construção do elefante branco de Brasília. E de tantos outros. Além dos desperdícios, houve ainda a brutal remoção de numerosas famílias que em diversos pontos do país perderam suas casas para a satisfação da FIFA e o lucro de empreiteiras vorazes. Mas a coisa não acabou por aí.

Li há pouco, no site Pública, uma interessante matéria postada por Andrew Jennings, com data de 28 de junho deste ano de 2013 [leia aqui]. O artigo trata das luxuosas suítes disponibilizadas, através dos pacotes Vip Hospitality, no Maracanã e em outros grandes estádios brasileiros, desses que foram construídos (ou adaptados) para a Copa do Mundo de 2014, de acordo como o tal padrão Fifa. O usufruto das suítes nababescas por todo o campeonato custa a bagatela de 2,3 milhões de dólares, ou mais. Quem comercializa tamanho luxo é a Match, que mantém estreitos laços com o presidente da FIFA e um sobrinho seu. A Match editou um folheto de propaganda que distribuiu entre 250 privilegiados, pessoas e empresas que se contam entre os mais ricos do mundo. O Secretário Geral da Fifa, Jerôme “Pé na Bunda” Walcker, tem lá seu papel no negócio: ele anuncia que a Maison Taittinger terá exclusividade no fornecimento de champanhe para o desfrute dos interessados.

O folheto mostra dois ricaços assistindo ao jogo numa suite privativa, enquanto outros seis comem e batem papo, sem mostrar interesse pelo que se passa no gramado. Não é devaneio do publicitário: ele sabe que esse é o máximo atrativo para o grosso do seu público alvo. Ficar gostosamente reclinado em poltrona especialmente acolchoada, bebericando champanhe, comendo do bom e melhor, mimado por hostesses, garçons e outros serviçais prestativos, com ares de blasé, alheio ao jogo que se desenrola, aí está a graça, o supremo deleite para esta espécie de gente. Prosseguindo sua descrição, Jennings assinala que “no Studio Bossa Nova são 14 visitantes bebendo, comendo e conversando – mas apenas dois entretidos com o futebol”.

Se isto lhe parece inverossímil, caro leitor ou querida leitora, lembre-se do que acontece nos camarotes de luxo montados no carnaval de Salvador, onde gente do mesmo tipo – embora muito menos endinheirada – tem a seu dispor, além de mirante, lounge, salas de massagem, salão de beleza, webzone, lanchonete, bar, restaurante, palco destinados a shows particulares, telões e até boate com djs especialmente contratados. Esses camarotes podem ser descritos como pequenos clubes provisórios voltados para a rua, mas bem destacados dela, oferecendo a visão do cortejo carnavalesco e a possibilidade de ignorá-lo tranquilamente. Neles se pode ouvir música de outro tipo, dançar em espaços fechados, eventualmente olhando para o que se passa na rua e gozando o fato de estar acima, perto e longe ao mesmo tempo. O mais importante é o gozo da exclusão, o sentir-se especial. Mas eu não diria que essa gente desfruta, aprecia ou mesmo conhece o carnaval de Salvador.

No caso das suítes de luxo das novas arenas feitas para a Copa, uma coisa é certa: o tipo de gente a que elas se destinam obviamente não se interessa por futebol. Quem se dispõe a pagar dinheiro grosso para fazer-se presente nesse tipo de espaço “exclusivo” apenas quer mostrar-se bem destacado no evento “global” que eletriza multidões. E quando se mostra alheio ao que ocorre em campo julga-se superior, sente-se especial. Esnoba o espetáculo e a paixão alheia com falsa superioridade. Comparado com o mais humilde dos torcedores, com o geraldino que sofria e se deleitava nos velhos estádios, esse VIP não passa de um boneco idiota. Faz o papel de um eunuco no harém, de nariz empinado, a dar-se ares de grandeza.

As arenas “padrão fifa” podem fazer com que muitos amantes do futebol fiquem impedidos de assistir o espetáculo predileto, ao tempo em que atraem uma súcia endinheirada – quando nada por um breve momento. Não creio que o esporte lucre com isso.

Mas chega de falar nesse rebotalho que se julga elite e na roubalheira em que viceja. Vou passar agora a outro assunto, muito mais interessante. Um causo daqueles.

Ontem acordei tarde, depois de uma noite de muitas emoções. Estava sozinho em casa. Pelo menos era o que eu imaginava, pois minha mulher tinha saído, e meu irmão, que está de visita, também. Mas logo vi que havia mais alguém em casa: minha simpática faxineira, Dona Maria. Ela me olhou com uma expressão de espanto que me lembrou Iniesta no fim do jogo Brasil x Espanha. Logo percebi que algo de incomum tinha acontecido. Ela me disse com voz trêmula:

– Telefonaram para o senhor.

– Quem foi que ligou? – indaguei.

– Não sei. Não acredito. Deus é mais.

– Não sabe nem acredita? Como assim? – Tornei a perguntar.

Dona Maria benzeu-se e explicou vagamente.

– Ligou uma criatura.

Mudei a pergunta:

– Está bem. O que foi que a criatura disse?

– Cocoricó.

Foi minha vez de ficar intrigado. Mas não demorei a formular uma hipótese. Para certificar-me, indaguei de novo:

– A senhora reparou no sotaque?

Dona Maria me olhou, então, com um ar de lady inglesa perdida num baile funk. mas foi britanicamente objetiva:

– Não era de granja. Voz muito forte.

Foi então que o telefone tocou de novo e eu atendi já bem preparado, mantendo o fone um pouco distante do ouvido. O canto triunfal durou uns trinta segundos. Quando acabou, eu disse serenamente:

– Bom dia, Riobaldo. Parabéns pela vitória de ontem. A festa ainda deve estar rolando aí em Minas, não é?

Do outro lado, soou uma risada satisfeita.

– Você viu? Maravilha!

Confirmei que tinha assistido a partida e ele retrucou num tom cético:

– Obrigado, mas não acredito. Sei que você é da raposa. Estou ligando para todos os meus amigos que têm esse mau gosto. Você foi o sétimo. E de todos é o mais fingido, não quer admitir que ontem foi argentino. Recebeu o castigo de São Vítor. É tempo de se converter, tenha fé no Galo.

Eu não me abalei. Fiz só uma perguntinha:

Já ligou para Deadorina?

– A voz do outro lado ficou trêmula:

– Inda não. Sou homem de coragem, você sabe, mas daquela fera tenho medo. Ela pegou a febre azul, nosso amor é impossível.

E desligou. Nem tive tempo de mandar um abraço para o velho Rosa.

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Graduado em Letras pela UNB, Mestre em Antropologia Social pela UNB e Doutor em Antropologia pela USP. Professor Associado do Departamento de Antropologia da FFCH / UFBA. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA; Prof. participante do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA. Membro da Associação Brasileira de Antropologia, da SBPC, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia. Membro fundador do Grupo de Pesquisa “Encruzilhada dos Saberes”. Fundador e Coordenador do Grupo Hermes de Pesquisa e Promoção Social e do Movimento Vozes de Salvador. Produção principal em Antropologia da Religião, Antropologia das Sociedades Clássicas, Etnobotânica, Teoria Antropológica. Tradutor de textos científicos e literários. Escritor premiado três vezes em concursos nacionais de literatura, com obras de ficção (conto, novela).