O Sucesso das Copas

  • por Ordep Jose Trindade Serra
  • 8 Anos atrás

Gente, confesso: fiquei muito feliz. Exultei. E dei muita risada de quem criticou minha euforia. Eu me refiro à gloriosa final da Copa da Confederações, em que, recentemente, a seleção brasileira derrotou a espanhola por três a zero. Eita número bonito!

Ao dizer, na véspera, que o Brasil ia ganhar, fui olhado por alguns como um pobre tonto, um homem delirante, alucinado pela mais vã das esperanças. Me perguntaram o que eu tinha bebido. Respondi com sinceridade: tinha tomado um pouco de suco de melancia no almoço, no Restaurante Porto dos Sabores. Um engraçadinho ponderou que já tinha ouvido falar em melancias alucinógenas. Eu propus um trato: se o Brasil ganhasse, ele pagaria meu almoço e o assistiria sem comer nada, bebendo só suco de melancia. Pena que ele não topou. Disse que não queria ficar maluco como eu. Tudo bem: de qualquer modo, o pobre homem já está sendo punido: por temor à cobrança implacável, teve de afastar-se dos ótimos pratos do Porto dos Sabores. E deve desculpas a suas melancias.

Meu amigo Roberto, que trabalha na portaria do condomínio onde moro, já se arrependeu do palpite errado. Ele havia dito que o Brasil não tinha a menor possibilidade de vencer a Espanha. Logo no dia seguinte à partida, nós nos encontramos e ele teve de se penitenciar. A gozação se espalhou entre seus colegas. Em todo o caso, ele reage muito bem, como verdadeiro gentleman que é. Não se incomodou nem um pouco com o apelido de Roberto del Bosque.

Outro que reagiu com sabedoria foi o Espanha, dono de um bar muito frequentado nas redondezas. Quando a turma chegou para as comemorações, encontrou cerradas duas das três portas da ilustre casa alcoólica e um cartaz afixado numa delas, avisando que o estabelecimento estava fechado para gozadores. Isso lhe atraiu uma enorme clientela, assim que a notícia se espalhou: uma verdadeira multidão de gozadores baianos dirigiu-se logo a seu estabelecimento. Agora as três portas estão de novo abertas, mas o poster da Roja foi tirado da parede. É que um gaiato desenhou lágrimas no rosto de Iniesta. Em todo o caso, o sabido Espanha teve um grande lucro.

Jiló me surpreendeu. Ele também achava que a vitória espanhola era inevitável e o declarou solemente. No entanto, ao ser desafiado por seu irmão Chico Teoria, reagiu com vigor, dizendo que nunca aposta contra o Brasil – entre outras coisas porque não gosta de perder. Pois é, já não se fazem pessimistas radicais como antigamente. Por essas e outras a doidinha da mulher dele vive dizendo que Jiló é um doce.

Embora eu tivesse grande esperança no triunfo brasileiro, quando soou o apito para o começo da partida senti um frio na espinha, fiquei ansioso, me preparei para noventa minutos de tensão. Mas aquela maravilhosa blitz incial – o ataque bravio que resultou no primeiro gol – me convenceu imediatamente: era nossa a fúria, para eles ficava o temor.

É certo que também tivemos nossos momentos de pânico. Vocês por certo se lembram do lance mais perigoso: Hulk perdeu a bola no ataque, Thiago Silva tentou matar a jogada no meio, mas falhou – e deixou David Luiz entre dois espanhóis sedentos de vingança -; então Pedro hispano (não o erudito lisboeta, seu xará boleiro) recebeu o passe de Mata e ficou cara a cara com o imperador de nosso arco. O quase matador bateu rasteiro, com segurança, já vendo o gol bem desenhado. Nesse dramático instante, porém, numa volta por cima inesquecível, o bravo David Luiz surgiu feito um raio e tirou de carrinho, a um metro da linha fatal. A bola subiu com o toque mágico de sua perna e passou raspando o travessão. Vibramos todos, aliviados, aclamando o herói cabeludo. Com marcial sabedoria, Anderson, nosso craque dos ringues, comentou:

– Amigos, podem crer, agora pra eles não tem mais jeito. De um golpe assim não há quem se recupere. O Golias foi derrubado. Ainda vai lutar, mas tá na cara que já perdeu.

Disse e ficou tranquilo por todo o resto do jogo. Nem mesmo na hora do pênalti ele se abalou. Olhou com desprezo para o Sérgio Ramos e profetizou:

– Ele vai errar. Está grogue. Seu time todo está.

Dito e certo. Depois da confirmação de sua sentença, Anderson passou a ser considerado por Chico Teoria e por quase todo o mundo um emérito comentarista de futebol.

Outro que assistiu a partida com absoluta tranquilidade foi o meu cunhado Joel. Ele tem uma equipe de consultoras, por coincidência todas jovens e bonitas, suas personal trainers em importantes domínios existenciais. Joel fez com elas uma enquete e foi amavelmente convencido de que o Brasil ia ganhar. Minhas fontes paulistanas garantem que antes mesmo de começar a partida ele já estava comemorando, em muito boa companhia.

Quanto a mim, tive muita alegria mas também sofri alguns percalços por conta dessa gloriosa partida. Primeiro, um probleminha no âmbito doméstico. Criamos uma gata de rua que foi adotada por minhas filhas muitos anos atrás. As meninas a chamaram de Chá, não sei bem por que. Troquei-lhe o nome recentemente: passei a chamá-la de Messalina. Acreditem, o diabo da gata se apaixonou pelo Hulk. Não pode ver a imagem desse atleta no tevê, numa revista ou num jornal, que entra no cio. Minha mulher diz que é castigo porque andei embirrando um pouco com o craque paraibano, preferia o Lucas lá na frente. Já me arrependi: reconheço que Hulk é um grande jogador. Mesmo assim o castigo continua.

O outro problema que enfrentei foi o debate com alguns conhecidos curiosamente politizados, muito sisudos, mas, a meu ver, profundamente equivocados na sua leitura do mundo e do Brasil. Eles ficaram irritados com o entusiasmo que essa vitória esportiva suscitou no povo. Censuraram minha alegria, reprovaram o júbilo popular.

Vocês se lembram: no começo, a Copa das Confederações atraiu antes crítica e protestos do que entusiasmo. Aos poucos, porém, o sucesso crescente da Seleção Brasileira fez com que a gente se empolgasse. Este fenômeno foi considerado por alguns um grave desvio, uma traição ao movimento que há pouco tomou as ruas do país. Pois bem, eu participei e participo do movimento. Fui às ruas também, de cara pintada e tudo. Gostei de ver o povo reclamando, a grande massa a protestar, entre outras coisas, contra a Fifa, contra os brutais esperdícios da Copa. Mostrei minha indignação, me alegrei com a atitude da moçada. No entanto, como muitos que lá estavam, continuei e continuo torcedor. Não vejo incompatibilidade entre as duas coisas. Já para os conhecidos de que falei, ao vibrar com a vitória de nosso futebol revelei-me um perfeito alienado.

(Me permitam um pequeno parênteses: na passeata de que participei, tive um momento engraçado. Fui com minha mulher e alguns amigos, cartazes em punho. Como sempre acontece nessas ocasiões, por um momento nos desgarramos. Nesse breve instante em que me isolei, passou por mim uma linda moça que me olhou carinhosamente e dirigiu-me um belo sorriso. Eu me senti muito lisonjeado. Então ela disse a uma amiga: – Tá vendo? Eu devia ter trazido meu avô! – Instantes depois reencontrei minha mulher e segui em frente, abraçado com ela. Regina é bem mais moça do que eu e muito bonita. A terna jovem me aplaudiu: – Olha lá, o vovô se deu bem! – Creio que agora ela tem mais um argumento para levar aos protestos o seu ancestral de minha geração).

Fechado o parênteses, torno a meus críticos. No dia seguinte ao jogo, vendo, na academia que frequentamos, o jornal matutino da tevê com as imagens da torcida esfuziante – no Maracanã e em diversos lugares do país -, um deles lamentou com profunda tristeza:

– Quanta falta de consciência, quanta insensatez! Deviam estar nas ruas lutando para mudar o país, mas em vez disso vibram com uma ilusão, uma falsa vitória. Se contentam com o circo.

Nada mais injusto. No mesmo estádio, com uma estrondosa vaia que atingiu em cheio a Presidente do país e o nefando Blatter, o povo manifestou de maneira contundente a rejeição do grande engodo. Os torcedores deixaram claro que não engolem os desperdícios, os abusos da Fifa, a porcaria geral em volta da Copa, assim como não engolem a corupção, os desmandos dos maus políticos, a precariedade dos serviços públicos, a injustiça tributária, a imobilidade urbana etc. Quem se interessa de fato pelo avanço das mudanças positivas que os protestos de rua podem trazer está obrigado a pensar claro. É tremenda besteira alijar do processo a multidão dos torcedores, exigir o fim do entusiasmo, sufocar orgulho e a alegria que o futebol nos traz.

O sucesso da seleção resgata nossa auto-estima em um domínio importante. No esporte mais popular do mundo, em que sempre reinamos, o Brasil vinha sendo depreciado, humilhado. Estava no vigésimo segundo lugar do ranking da Fifa. Sempre achei isso injusto. Tivemos maus momentos, é verdade, mas ficamos nessa rabeira principalmente porque nosso time jogou menos vezes do que outros escretes. E o que aconteceu em pouco tempo, nesse último período, foi espetacular: o vigésimo segundo colocado no tal ranking derrotou sem piedade a turma de cima da tabela. Derrubou as boas equipes do México e do Japão, venceu quatro seleções detentoras de Copas do Mundo, entre elas a atual campeã da UEFA e do Mundial. Com todo o seu merecido prestígio, a Invencível Armada naufragou no Maracanã. Não venham me dizer que foi acaso, golpe de sorte, um pequeno acidente de percurso. O Brasil de fato jogou melhor, venceu com todos os méritos, de forma indiscutível. E ainda com a equipe em formação. Foi uma bela vitória. Porque diabos devia a gente ficar encorujado?

A Copa das Manifestações fez crescer a auto-estima do povo brasileiro. A das Confederações também. Auto-estima é um capital importante para quem se empenha em melhorar o país. Como diz Anderson, luta-se melhor de cabeça em pé.

Alegria é fundamental. Quem reprova o povo porque se alegrou com um belo triunfo em seu esporte predileto não é sincero quando diz que luta pelo incremento da qualidade de vida da população. Alegria é um componente decisivo da qualidade de vida – que, sem ela, simplesmente não existe. E é um poderoso combustível da esperança.

Me desculpem, graves senhores: não vou me penitenciar por meu entusiasmo, não me arrependo nem um pouco de ficar contente com grandes vitórias no esporte que amo. Não aceito censura por desejar a Copa do Mundo. A imensa maioria dos torcedores que nutrem esse desejo também aspira a uma democracia efetiva, com justiça social, governo limpo. E repele, como bem mostrou, os abusos, a roubalheira e a irresponsabilidade predominantes na montagem da Copa. Temos políticos imundos, cartolas abomináveis, mas provamos, mais uma vez, que temos futebol de primeira. Quem não gosta, paciência. Deixem a gente celebrar.

Comentários

Graduado em Letras pela UNB, Mestre em Antropologia Social pela UNB e Doutor em Antropologia pela USP. Professor Associado do Departamento de Antropologia da FFCH / UFBA. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA; Prof. participante do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA. Membro da Associação Brasileira de Antropologia, da SBPC, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia. Membro fundador do Grupo de Pesquisa “Encruzilhada dos Saberes”. Fundador e Coordenador do Grupo Hermes de Pesquisa e Promoção Social e do Movimento Vozes de Salvador. Produção principal em Antropologia da Religião, Antropologia das Sociedades Clássicas, Etnobotânica, Teoria Antropológica. Tradutor de textos científicos e literários. Escritor premiado três vezes em concursos nacionais de literatura, com obras de ficção (conto, novela).