O título da fé

Por Wagner Sarmento

Quem ousaria crer que, nos acréscimos do segundo tempo, no pênalti a favor do Tijuana, bola na marca de cal feito navalha cheirando o pescoço, a derrota iminente viraria classificação heroica numa defesa histórica de Victor?

Quem poderia acreditar que, após sair perdendo por 2×0 no jogo de ida contra o Newell’s Old Boys, após um apagão no time e no estádio na partida de volta, uma vitória simples bafejando o gosto amargo da derrota, o segundo gol viria qual luz no fim do túnel e que, depois de duas cobranças seguidas desperdiçadas na disputa de pênaltis, o fantasma da eliminação teimando em assombrar e engolir, haveria forças pra outro triunfo improvável?

Quem, depois de mais uma vez sair perdendo no primeiro duelo, desta vez pro Olimpia, tendo que abrir mão do estádio que fora o templo do impossível, seria capaz de manter imaculada a fé num time sem tradição internacional e que enfrentava um tricampeão da Libertadores?

Por 90 minutos, 60 mil vozes responderam, gritaram, repetiram: “Eu acredito”.

Quando a vida tentava atraiçoar a esperança, eles faziam questão de asseverar que aquilo tudo não era à toa. Tinha uma razão de ser. Jô respondeu que sim. Não bastava. Leonardo Silva decalcou a certeza. Não bastava.

Por mais 30 minutos, 60 mil vozes insistiram. O apito final mostrou que, naquele jogo, o ceticismo era cavalo paraguaio.

Cuca não estava sozinho no seu fervor.

Cuca não estava sozinho no seu fervor.

A partida mais importante da história do Atlético seria decidida nos pênaltis. O que alguns chamam de loteria, o Galo chamou de destino.

Quem, depois de tudo, ousaria duvidar? A fé de Cuca, a fé dos jogadores, a fé dos 60 mil que lotaram o Mineirão, agora era a fé de um país inteiro. Quando Victor, já na primeira cobrança do Olimpia, acreditou que o impossível estava perto de acontecer, ninguém mais foi maluco de negar. A trave derradeira era o destino respondendo que aquele era o título de quem não deixou de crer, mesmo quando teve todas as razões pra pensar que não dava mais.

Cuca, de joelhos, a fé estampada na camisa, desabou campeão. Os olhos fechados, beijando a grama, nem precisavam ver pra acreditar.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.