Por que técnicos argentinos dão certo na Europa e brasileiros não?

  • por Levy Guimarães
  • 7 Anos atrás

A quantidade de técnicos sul-americanos na Europa sempre foi relativamente pequena. Porém, há de se observar um fato curioso. A grande maioria desses técnicos, principalmente os que se deram bem no Velho Continente, são argentinos. Desde os anos 50, a Argentina consegue emplacar treinadores importantes no cenário europeu, ao contrário do Brasil, que além de exportar poucos técnicos, tem pouco sucesso quando eles vão ao outro lado do Atlântico. 

Nos últimos anos isso tem se mostrado ainda mais evidente. O anúncio de Gerardo “Tata” Martino como o novo técnico do Barcelona confirma a boa fase e o crédito adquirido pelos técnicos argentinos no futebol europeu, em especial na Espanha. Além dele, outros dois hermanos treinam equipes de ligas de ponta da Europa: Mauricio Pochettino, no Southampton (que também teve passagem pelo Espanyol), e Diego Simeone, no Atlético de Madrid. Simeone, inclusive, já escreveu seu nome na história do clube ao conquistar a Liga Europa na temporada 2011/2012, além de ter feito uma excelente campanha no último Campeonato Espanhol, quando obteve a vaga direta na Uefa Champions League e ainda foi campeão da Copa do Rei da Espanha.

Foto: reprodução - Diego Simeone comemorando o principal título de sua carreira como treinador, a Liga Europa

Foto: reprodução – Diego Simeone comemorando o principal título de sua carreira como treinador, a Liga Europa

Voltando no tempo, podemos lembrar de outros argentinos vitoriosos comandando times europeus. Na longínqua década de 1950, Luis Carniglia conduziu o Real Madrid a 2 títulos europeus, em 1957 e 58 – ano em que também foi campeão espanhol. Um ano antes de assumir os merengues, tinha sido campeão francês pelo Nice. No mesmo período, Helenio Herrera conquistou 4 ligas espanholas: duas pelo Atlético de Madrid, em 1950 e 51, e duas pelo Barcelona, em 59 e 60. Posteriormente, foi bicampeão europeu e três vezes campeão italiano pela Inter de Milão.

Foto: reprodução - Heleno Herrera comendando a Inter, onde se consagrou definitivamente no futebol Europeu

Foto: reprodução – Heleno Herrera comendando a Inter, onde se consagrou definitivamente no futebol Europeu

Nos anos 70, Juan Carlos Lorenzo levou o Atlético de Madrid a uma inédita final de Liga dos Campeões. Já na década de 90, Jorge Valdano conquistou um Espanhol pelos merengues. No fim dos anos 90 e início dos 2000, Héctor Cúper conduziu o Valencia a duas finais de Liga dos Campeões e venceu uma Supercopa da Espanha. Treinou, ainda, a Inter de Milão, tendo altos e baixos pelos nerazzurri. Para fechar, Marcelo Bielsa, apesar de não ter conquistado nenhum título à frente do Athletic Bilbao, fez grande campanha com os bascos na Liga Europa 2011/2012, alcançando a decisão do torneio e se tornando ídolo da torcida.

Foto: reprodução - Bielsa fez campanha histórica pelo Athletic Bilbao, chegando perto de uma inédita taça europeia

Foto: reprodução – Bielsa fez campanha histórica pelo Athletic Bilbao, chegando perto de uma inédita taça europeia

Quanto aos brasileiros, talvez a única passagem realmente de sucesso possa ser atribuída a Otto Glória. Otto é até hoje considerado um dos grandes técnicos da história do Benfica: foi tricampeão português de 1968 a 70 e vice-campeão da Europa em 68, além de ter vencido 6 Taças de Portugal pelo clube (3 delas em sua passagem anterior, de 1954 a 1959). Em menor escala, Carlos Alberto Silva, bicampeão nacional pelo Porto em 1992 e 93, também pode ser citado.

Mais recentemente, experiências como Vanderlei Luxemburgo no Real Madrid, Felipão no Chelsea e Leonardo no Milan, todos rondados de grande expectativa, terminaram em fracasso.

Foto: Wikipedia - Otto Glória, até hoje tido como um dos grandes treinadores da história do futebol português

Foto: Wikipedia – Otto Glória, até hoje tido como um dos grandes treinadores da história do futebol português

Observando esses fatos, a pergunta que fica no ar é: Por que os argentinos levam tamanha vantagem sobre os brasileiros nesse quesito? Evidentemente, a questão do idioma facilita. Basta observar que a grande maioria dos títulos conquistados pelos treinadores citados foram por clubes espanhóis. Mas não é o único motivo. Afinal, vários técnicos brasileiros trabalharam em Portugal – com o benefício da língua em comum – e pouco fizeram.

Uma das razões pode estar na natureza do futebol brasileiro. O jogador nascido no país, historicamente, tem pouca disciplina tática. Destaca-se mais pela técnica e habilidade do que pela aplicação. Já o jogador argentino, apesar de muito técnico, costuma ser bastante aplicado taticamente, fato que pode ser observado em equipes históricas como a Argentina campeã do mundo em 1986 e vice em 1990 e nas equipes argentinas na Libertadores, como o Boca Juniors ao longo da década de 2000 e o Estudiantes de 2009.

Como a grande maioria dos técnicos vem diretamente dos gramados, essas características de jogador acabam influenciando o futuro treinador. E dada a alta rigidez tática do futebol europeu, é natural que técnicos argentinos se adaptem por lá com maior facilidade. Não que o técnico brasileiro possua pouco conhecimento tático, mas é um estilo que se distancia mais dos europeus do que a escola argentina.

Ademais, outros dois fatores de grande relevância – estes dando mais atenção aos brasileiros – podem ser apontados. Em primeiro lugar, a indisposição dos nossos técnicos em se atualizarem conforme a evolução tática do futebol mundial. É de se notar que boa parte dos treinadores daqui se agarram a conceitos antigos para montarem seus times, sem acompanhar o que se faz em outros centros importantes do esporte bretão. Além disso, algumas experiências recentes mostram uma visão limitada de mercado por parte dos técnicos brasileiros quando saem do país. Luxemburgo, no Real Madrid, apostou alto em brasileiros que não renderam o esperado (Robinho, Júlio Baptista e Cicinho) e em outros sul-americanos de qualidade duvidosa e que não se saíram bem. Já Felipão, pelo Chelsea, se limitou a jogadores com quem havia trabalhado na seleção portuguesa e à inexplicável aquisição do volante Mineiro.

Foto: reprodução - A aposta de Luxemburgo nos brasileiros em Madrid não deu certo, e o treinador acabou sendo mais uma experiência fracassada de brasileiros na Europa

Foto: reprodução – A aposta de Luxemburgo nos brasileiros em Madrid não deu certo e acabou sendo mais uma experiência fracassada de técnicos brasileiros na Europa

No cenário atual do futebol brasileiro, é difícil projetar um treinador do país se destacando na Europa a curto prazo – a esperança fica em torno de Roberto Carlos, que assumiu recentemente o Sivasspor, da Turquia. Enquanto isso, nos resta ver se Tata Martino dará continuidade ao bom retrospecto dos hermanos no futebol europeu.

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Estudante de Jornalismo e redator no Placar UOL Esporte, belo-horizontino, apaixonado por esportes e Doente por Futebol. Chega ao ponto de assistir a jogos dos campeonatos mais diversos e até de partidas bem antigas, de décadas atrás.