Simbiose Felipão

  • por Eduardo Jenisch Barbosa
  • 7 Anos atrás

A simbiose entre o velho e o novo Felipão

Felipão

A “Família Scolari” de 2002 trouxe de volta ao Brasil a hegemonia no futebol. A Copa do Mundo conquistada na Ásia diante da Alemanha teve como principais destaques a defesa, que foi ficando cada vez mais consistente ao longo da competição, homens de meio que davam suporte para o ataque brilhar e o trio ofensivo formado por Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo e Ronaldo. Além, é claro, do comandante daquele grupo: Luiz Felipe Scolari. A Seleção fez 100% de aproveitamento e o penta veio com autoridade.

Estou lembrando este título por dois fatores: um óbvio, é a coincidência de datas que uniu o mesmo técnico comandando a mesma seleção em uma final. No dia 30/06/2002, Oliver Kahn buscou no fundo das redes dois chutes precisos de Ronaldo. Exatamente onze anos depois, o Fenômeno estava no estádio, como comentarista, mas quem enfrentava mais uma decisão com a Canarinho era Felipão. Maracanã cheio para um Brasil e Espanha que prometia ser sensacional.

A Seleção de 2002 conquistou o Mundial sendo consistente dentro de campo, jogando com garra e tendo um ambiente familiar fora dele. Scolari conseguiu unir aquele grupo em prol de um objetivo maior e todas as forças convergiram para que o foco principal fosse atingido.

Foto: reprodução - Cafu ergue a Copa do Mundo 2002.

Foto: reprodução – Cafu ergue a Copa do Mundo 2002.

Agora, o outro fator: onze anos depois estava assistindo ao apenas mediano “O Grande Gatsby”, novo filme de Leonardo Di Caprio, quando um diálogo me chamou a atenção. Dizia: “Nós não podemos repetir o passado”, falou desesperado o amigo do protagonista, escutando como resposta: “Sim, nós podemos”.

A reação do personagem foi a mesma de grande parte da crônica esportiva quando Felipão foi anunciado como o novo técnico da Seleção depois da queda de Mano Menezes. E argumentos convincentes foram apresentados, como o momento ruim do técnico, a necessidade de modernizarmos o nosso futebol para concorrer com as principais forças mundiais, além de um carimbo de ultrapassado na testa de Scolari, este deveras precipitado.

Foto: reprodução - Cena de "O Grande Gatsby".

Foto: reprodução – Cena de “O Grande Gatsby”.

Eu não entrei nesta onda pessimista, muito menos no otimismo. Limitei-me a dizer que Felipão não é o tipo de profissional que deve ser subestimado. Ele, nas primeiras coletivas, afirmou que era obrigação brasileira ganhar a Copa do Mundo em casa. Refutou qualquer comparação com grupo de 2002, mas, ao dizer que era muito possível ganhar o título, retrucou o “não podemos repetir o passado” da crítica com um simbólico “sim, nós podemos”.

Scolari, mesmo com seu estilo ranzinza, tem um carisma inegável e uma imagem justa de vencedor atrelada à sua personalidade. Prova disso é que sua contratação teve aprovação de grande parte dos brasileiros. O Bigodudo cativa. Claro que quando digo repetição dos fatos é em relação à conquista da taça. Agora o Mundial será no Brasil, o futebol passa por outro momento. É um diferente contexto histórico, mas o comandante é o mesmo.

Se no campo o técnico tem que se modernizar e escalar conforme o panorama atual do esporte, fora dele a essência pode ser a mesma que deu certo onze anos atrás. Scolari é mestre em criar ambientes favoráveis à conquista de títulos. Por mais que seja clichê falar, ele transforma o grupo em uma família. Com seu jeitão de nono italiano, o treinador cativa e comanda seus atletas. Ganha os jogadores ao defendê-los diante da imprensa e opinião pública e cobra com muita veemência internamente. Sabe a hora de xingar, mas também a hora do afago. Um paizão chato, podemos resumir assim.

Foto: reprodução - Felipão com Rivaldo em 2002.

Foto: reprodução – Felipão com Rivaldo em 2002.

Depois de algumas semanas juntos, o ambiente entre os atletas foi ficando cada vez mais saudável. Felipão permite uma aproximação, sem exagero, dos familiares, sempre uma força a mais. O técnico sabe mexer com o brio. Paulo Vinicius Coelho, na ESPN, relatou que os jogadores estavam falando entre si sobre os jogos mais do que de costume. A resenha não era só sobre mulher, música e novela, mas sim como marcar Xavi e Iniesta.

O técnico, por vezes, demonstra certa informalidade, quando toma chimarrão com os jornalistas. É uma situação rara nos dias atuais, em que somos cercados por assessores e bajuladores dos atletas e treinadores. A imprensa ficou distante dos protagonistas do espetáculo, é tudo muito blindado. Mas uma boa roda de chimarrão tem o dom de deixar as relações mais humanas.

A mudança de postura dos jogadores foi algo essencial. Compraram a briga junto com o comandante e entraram em campo cheios de vontade. E esta raça mostrada nas quatro linhas cativou o torcedor. Nas arquibancada por onde passou o Brasil, o torcedor abraçou a causa e incentivou como se não houvesse o amanhã. Voltamos a ter uma torcida identificada com sua Seleção. É inegável o mérito de Felipão nesta mudança completa de atmosfera que vimos neste último mês.

Foto: reprodução - Exaltado, Scolari orienta seus jogadores.

Foto: reprodução – Exaltado, Scolari orienta seus jogadores.

Dentro de campo, o “ultrapassado” Felipão me parece moderno quando opta pelo atual 4-2-3-1. O que Mano Menezes não conseguiu fazer nos Jogos Olímpicos de Londres, Felipão trouxe de volta na Copa das Confederações: ambiente saudável fora e tentativa de imposição do futebol dentro de campo.

Aqui cabe um parênteses importante. Pode se discordar da forma como Felipão vê o futebol, mas, agora que chamaram o homem, deixem ele trabalhar conforme suas convicções. Ou seja, o cinco mordedor e o centroavante fixo, para focar nos aspectos mais debatidos de sua escalação.

A Seleção oscilou, é verdade, mas foi ficando cada vez mais competitiva e consistente durante a competição, culminando em uma apresentação histórica diante da Espanha, justamente reconhecida como uma belíssima seleção. E não é a derrota de domingo que apagará isso. A Fúria segue sendo um baita time. Falando sobre a peleja, o Brasil alternou marcação voraz no campo ofensivo com momentos de recuo estratégico. E, com a bola nos pés, coragem e talento para atacar. Com um padrão tático definido, possibilitou que as individualidades brilhassem. Neymar nunca atuou com tanta segurança com a camisa amarela. Isso é obra de seu talento, claro, mas também um coletivo mais organizado.

Foto: agência Getty - Neymar comemora gol frente a Espanha.

Foto: agência Getty – Neymar comemora gol frente a Espanha.

Felipão acertou antes, durante e depois da Copa das Confederações. Na entrevista, ainda no campo, após o título incontestável, o técnico deixou claro que a conquista é importante, dá confiança para o seguimento do trabalho, mas que a Copa do Mundo é que será o grande foco do seu trabalho. Tratou de celebrar, mas de frear a euforia. E assim confio na seriedade do trabalho até 2014, o que possibilitará ao Brasil chegar com grandes chances de faturar a taça. É a simbiose entre o velho o novo Felipão dando certo mais uma vez.

Óbvio que Scolari tem defeitos, já falamos e falaremos sobre eles muitas vezes, mas, depois de tanta crítica, algumas exageradas, o Doentes por Futebol rende a sua homenagem ao nosso técnico, campeão do mundo em 2002, e que fez renascer com ainda mais força o sonho do Brasil de conquistar o Mundial em sua casa. Aguardemos, entre uma roda de chimarrão e outra, os próximos capítulos.

Foto: reprodução - Thiago Silva e a Copa das Confederações 2013.

Foto: reprodução – Thiago Silva e a Copa das Confederações 2013.

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