A parcela de culpa de Vadão

Foto: João Lucas Cardoso/Globoesporte.com - Vadão não resistiu ao mau começo de Brasileirão e foi demitido do Criciúma

Foto: João Lucas Cardoso/Globoesporte.com – Vadão não resistiu ao mau começo de Brasileirão e foi demitido do Criciúma

O experiente técnico Osvaldo Alvarez, o Vadão, é o mais um desempregado do futebol brasileiro. Mesmo conquistando o Campeonato Catarinense com o Criciúma, troféu que o Tigre não erguia desde 2005, o treinador não suportou a pressão do fraco início de Campeonato Brasileiro e foi mandando embora na última sexta-feira (23).

Pode-se dizer que Vadão deixa Santa Catarina pela porta da frente, afinal boa parte da torcida é grata por seu trabalho e a imprensa credita esse péssimo momento do time ao elenco montado pelo diretor executivo do clube, Cícero Souza.

Mas será que é tão correto assim blindar Vadão das críticas? Apesar do título estadual neste ano, o Criciúma nunca foi um time que enchesse os torcedores de orgulho, mesmo com o elenco completo.

Pensando nisso, levantei alguns pecados capitais que fizeram com que essa demissão acontecesse antes mesmo do término do primeiro turno do Campeonato Brasileiro:

TREINAMENTOS: essa é, possivelmente, a única crítica uníssona entre torcedores e imprensa. Sempre agarrado ao argumento de que “os principais clubes do mundo não fazem coletivo”, Vadão fez poucos treinos. O resultado é visto em campo e vai além dos placares dos jogos. O Criciúma não tem compactação em campo, apresenta distanciamento entre os setores e tem pouca movimentação, ou seja, sempre perde o jogo territorial. Além disso, os homens de ataque não marcam e a bomba explode nos meio-campistas, que correm dobrado para cobrir os espaços. Curiosamente, boa parte dos jogadores que se lesionaram recentemente atua no meio-campo.

Esse alto número de desfalques pode até servir de argumento de defesa para o técnico, mas não pode ser a causa fundamental do problema. O time bem treinado mantém um padrão trocando uma ou dez peças, o que não ocorreu com os comandados de Vadão.

INSISTÊNCIA (OU PERDA DELA): o volante Amaral nunca foi unanimidade entre torcedores e imprensa, porém era peça constantemente utilizada por Vadão. Com a chegada de Serginho, Amaral perdeu espaço, mas, com os problemas físicos do ex-atleticano, o jogador voltou ao time titular sem nunca convencer. Enquanto isso, o jovem Bruno Renan, cria do Grêmio e que estava no futebol ucraniano, pouco entrou em campo (e, quando apareceu, foi na lateral direita). Até mesmo Henik, que perdeu espaço no último ano, poderia ter sido aproveitado.

Mas se Vadão foi complacente com as contínuas falhas de Amaral, não se pode dizer o mesmo em relação ao goleiro Bruno. Grande destaque do time no título estadual ao lado do atacante Lins, o garoto lapidado por anos no clube finalmente recebeu sua oportunidade em 2013 e vinha dando conta do recado. Após algumas falhas, a exigente torcida cobrou mudanças na meta e Vadão, ignorando as boas atuações e olhando apenas as bobeiras, sacou-o do time na importante partida diante da Portuguesa para dar lugar a Hélton Leite, que acabou trazendo mais problemas ao gol do que antes. É de se estranhar que um técnico de tamanha experiência tenha cedido com tanta passividade à pressão da torcida.

Foto: Fernando Ribeiro/Criciúma E.C. - Destaque no início do ano, Bruno perdeu espaço no Brasileirão

Foto: Fernando Ribeiro/Criciúma E.C. – Destaque no início do ano, Bruno perdeu espaço no Brasileirão

SISTEMA DE JOGO: Vadão só teve convicção de que esquema tático utilizar no Criciúma durante o Campeonato Catarinense, no qual jogou no 4-3-3, chamando a atenção com os velozes Fabinho e Lins pelos flancos. Com o início do Brasileirão e os resultados ruins, o técnico chegou à conclusão de que jogar dessa maneira era prejudicial para o time e passou a testar vários esquemas. O 4-3-1-2 e o tradicional 4-2-2-2 foram os mais utilizados. O resultado disso tudo, além do óbvio desentrosamento, foi a previsibilidade que o Criciúma obteve. Até mesmo no título estadual as jogadas já eram poucas: bola aérea, jogadas laterais e contra-ataques.

Segundo a Foot Stats, dos 20 gols do Criciúma na Série A, seis foram de cabeça e 15 foram de dentro da área. O mesmo site também passa um dado interessante sobre o lateral-direito Suéliton, um dos destaques do time no Campeonato Catarinense. No Brasileirão, ele acertou somente nove cruzamentos e errou 58. Curiosamente, ele é o segundo jogador que mais concluiu cruzamentos no Criciúma, atrás apenas do lateral esquerdo Marlon, que acertou 29. Em teoria, Suéliton tem a sombra do menino Ezequiel, que voltou ao clube após passagem frustrada por Portugal, mas nem ao menos entrou em campo com Vadão.

Claro que jogar toda a culpa do insucesso do Criciúma na Série A no técnico seria injusto, até porque não é ele quem está contratando os Daniel Carvalhos e Morais da vida. Mas é necessário compreender que o orçamento de um clube que sobe da segunda divisão é infinitamente menor do que de um time que entra querendo o título nacional, logo as contratações precisam ser mais pensadas e menos arriscadas. Cícero Souza é quem está contratando? Sim, mas nenhum diretor executivo seria capaz de contratar jogadores sem a bênção do técnico. A conclusão óbvia é que uma fatia do bolo da responsabilidade pelo mau desempenho do Criciúma na Série A precisa ser entregue a Vadão.

Comentários

Uma mistura maluca de pessoa. Academico de jornalismo, catarinense de origens italianas e espanholas, mas apaixonado pela bola que rola na terra da Torre Eiffel e pela gorduchinha que pinta os gramados cheios de chucrute da Alemanha. Não escondo minha preferência por times que tem uniformes nas cores amarelas e pretas, mas sempre com análises bem embasadas... ou não. Mas acima de tudo, sou um Doente Por Futebol.