Bahia e modernidade tática: passado, presente e futuro!

No atual momento da temporada, o Bahia se mostra um time muito diferente daquele que foi vice-campeão estadual, perdendo de 7×3 para o Vitória. Finalmente, volta a jogar um futebol vistoso, com muita organização tática e modernidade. Talvez possa brigar por algo maior na competição se mantiver a regularidade, com bons resultados. Na prancheta, é um time muito moderno e equilibrado entre ataque e defesa, sob o comando do técnico Cristóvão Borges. A modernidade tática no Bahia não é algo recente. Times do passado já montaram formas de jogar futebol modernas para suas respectivas épocas. Entre estas equipes, vale destacar a de 1959, que foi campeã da Taça Brasil diante do Santos de Pelé, e a de 1988, que conquistou o Campeonato Brasileiro contra o Internacional.

Bahia de 1959.

O Bahia de 1959 contava com jogadores técnicos, talentosos e tinha uma proposta bastante ofensiva, com muita intensidade na frente e movimentos coordenados no meio-campo. Em números, a formação utilizada era um 4-2-4 com dois pontas abertos, um centro-avante na referência e um ponta-de-lança que circulava por todo o ataque. O time ficou famoso por conseguir derrotar o temido Santos de Pelé e Pepe. A experiência de seus atletas também foi fundamental para essa conquista.

Os pontas Marito e Biriba eram altamente habilidosos, ótimos finalizadores e com movimentação variada, podendo buscar a linha de fundo para cruzar para Léo Briglia ou tentar infiltrações em diagonal, entrando na área para concluir e dar o último passe. O ponta-de-lança Alencar se movimentava intensamente, buscando os lados do campo, arrancando no corredor central, recuando para acelerar as transições entre as intermediárias, penetrando no corredor central e se aproximando de Léo Briglia mais à frente, sendo que este também abria espaços para as investidas de Alencar na direção do miolo de zaga adversário. Léo era um excelente cabeceador, com boa movimentação dentro da área, chutes certeiros, qualidade na execução da parede e na abertura de brechas para as chegadas de Alencar e as diagonalizações dos ponteiros, normalmente puxando um zagueiro adversário com seus deslocamentos para zonas próximas.

No meio-campo, Flávio era um volante mais marcador, que participava da saída de bola pelo centro, organizava o primeiro passe, dando qualidade à transição ofensiva e armava o jogo de trás com enfiadas de bola e lançamentos para o campo de ataque. Mário flutuava nas duas metades da cancha com total liberdade para encostar no quarteto ofensivo, buscar tabelinhas e aparecer para definir e trabalhar a pelota na articulação. Era um jogador ágil, com rápidas projeções, e que tinha ativa participação do setor ofensivo, que funcionava com alta rotatividade, trocas de passes, inversão de posicionamento e muita profundidade.

Os quatro homens da linha de defesa apresentavam notável força física, poder de marcação, excelente posicionamento e muita pegada, dando total segurança lá atrás e liberando os atacantes para explorarem toda sua qualidade na criação de jogadas individuais. Sem sombra de dúvidas, um time inesquecível na história do Tricolor de Aço, unindo duas coisas que muitos consideram inimigas no futebol: o talento e a tática.

 

Bahia de 1988 num 4-2-3-1 primitivo.

Sob o comando de Evaristo de Macedo, o Bahia teve um dos ataques mais arrasadores do Brasil na década de 1980, principalmente em 1988, ano do título da Copa União. Puxando para conceitos estratégicos mais recentes, o esquema seria uma espécie de 4-2-3-1, mas não com as características do “esquema da moda” em dias atuais. Zé Carlos e Marquinhos infernizavam pelos lados do campo, Bobô era o dono do meio-campo e Charles era um goleador nato.

Com a bola, era um time muito agudo. O lado mais forte do ataque era o direito, com o apoio de Tarantini, que dava verticalidade e profundidade com boas passagens pela beira do campo. Zé Carlos geralmente ia até o fundo e fazia cruzamentos para a grande área, mas também centralizava e tinha liberdade de flutuação por outras zonas do gramado, enquanto Tarantini mergulhava no corredor que era aberto durante essas centralizações. O volante Paulo Rodrigues recuava e ficava bem próximo dos zagueiros para receber a pelota e organizar a saída de bola, usando sua incontestável qualidade no passe e sua ótima visão de jogo. Gil era um volante de transição que aparecia como elemento surpresa com infiltrações em alta velocidade, trocas de passes dinâmicas com Bobô e boas aparições para pegar os rebotes e sobras de bola, vide o gol marcado na semifinal contra o Fluminense. Marquinhos partia da esquerda e tentava jogadas por dentro com Bobô e/ou Charles, que, por sua vez, saía bastante de seu posicionamento original, flutuava na faixa da meia-cancha, fazia o pivô, ajudava na armação e abria nas regiões ponteiras.

Na transição defensiva, Zé Carlos voltava no flanco direito acompanhando o lateral esquerdo adversário, Bobô também auxiliava na marcação, podendo dar o bote nos volantes ainda na intermediária ou ficar mais aberto para combater o extremo mais agudo e perigoso da outra equipe. Por determinadas vezes, o Bahia buscava marcação em bloco alto, com Marquinhos praticamente alinhado com Bobô e Zé Carlos. Mais precisamente, isso acontecia quando o adversário estava organizando sua saída pro jogo, ainda no campo de defesa. Os volantes também se adiantavam para dar mais compactação. Assim, a meia-cancha forçava o erro rival e ganhava mais recuperação de bola. Quando a outra equipe conseguia entrar no campo de defesa baiano, Marquinhos já não apresentava grandes esforços na recomposição, principalmente pelo fato de ser a principal “válvula de escape” para os contra-ataques, de modo que a transição defesa-ataque passava pelos seus pés. Ele carregava o “piano” de forma veloz, mostrando bom controle de bola e habilidade técnica individual. Os volantes faziam quase que um duplo pivôt à frente da linha de defesa ou então abriam para dar o combate no lado em que o adversário estava com a bola sob seu domínio. O atacante Charles também tinha participação sem a bola, “apertando” os zagueiros na saída de bola. Assim, o Bahia ganhava mais tempo para se recompor lá atrás e encaixar a marcação.

Individualmente, um dos grandes destaques foi o meia Bobô, que desempenhava uma função tática importantíssima. Partindo do centro da cancha, era o articulador de jogadas, com movimentação aprofundada, migrando para as beiradas para tabelar e municiar as ações ofensivas no setor. Recuava para ajudar os volantes na saída de bola e partia com a bola, vindo de trás, mais precisamente da intermediária. Tinha muita agilidade, visão de jogo, passe refinado e intensidade na movimentação, assim como Marquinhos e Zé Carlos.

 

Bahia de Cristóvão Borges

O Bahia atual se posiciona a partir de um 4-3-2-1/4-3-3, que possui variação pro 4-1-4-1 sem a bola. A modernidade não está nos números do esquema, mas sim nas formas de aplicação e execução do mesmo. É uma equipe com muita verticalidade nos mais variados fundamentos técnico-táticos e tem uma estratégia trabalhada com muita intensidade, flexibilidade e  equilíbrio, coisas que são imprescindíveis no futebol moderno. É um time sem grandes talentos nem craques, mas com total dedicação e empenho de seus jogadores.

A cabeça-de-área possui grande flexibilidade transitória por parte dos dois jogadores que ficam no topo do médio triângulo. Rafael Miranda e Hélder têm muitíssimas funções táticas. Como é característico de sistemas com uma linha de quatro mais atrás, os dois laterais apoiam alternadamente. A cobertura destes, que é feita pelos dois volantes, também é alternada. Quando Madson sobe ao ataque pela direita, quem cobre é Rafael Miranda, enquanto pela Hélder avança para se aproximar do ataque e criar tramas perigosas. Quando Raul apoia pela esquerda ocorre o inverso, Rafael Miranda avança e Hélder fica na cobertura. Interessante mesmo é que a meia-cancha apresenta rotação, já que Hélder e Rafael não possuem posicionamento fixo, com liberdade de projeção à frente.

O primeiro-volante Fahel aprofunda a movimentação, aproxima-se dos zagueiros na saída de bola (não exatamente como um terceiro zagueiro, já que fica à frente dos zagueiros na maioria das situações) e fica contido para matar os contra-ataques. É um volante alto, forte fisicamente, bom na bola aérea defensiva e faz o pivôt-defensivo com excelência, dando proteção à defesa. Também lança bolas longas para o campo de ataque e ocupa a segunda metade da cancha por algumas vezes, apesar de ser um volante com características de contenção.

Nas extremidades, Marquinhos Gabriel e Wallyson diagonalizam com muita freqüência, buscando o comando de ataque, cortando jogadas pra finalizar, explorando o pivô central-vertical de Fernandão e abrindo corredor para Madson e Raul, que são bons e velozes nas jogadas de linha de fundo e nas investidas pelas pontas. Fernandão é limitado no aspecto de mobilidade, porém ajudar a dar mais volubilidade para os pontas e para os jogadores que vêm de trás, fazendo a parede e dando profundidade e apoio para essas investidas. Além disso, tem bom posicionamento entre os zagueiros e inteligência para cabecear, geralmente ficando no segundo pau e subindo com o lateral adversário, que costuma ser “baixinho”, quando este centraliza para compor a linha defensiva dentro da área. Um bom exemplo disso foi no jogo contra o Flamengo, na Arena Fonte Nova, em Salvador.

Sem a bola, se fecha com duas linhas de quatro de altíssima compactação, com muita proximidade entre si, lotando as zonas intermediárias do gramado e diminuindo os espaços para as penetrações adversárias. O encaixe de marcação é zonal e com blocos altos, que, por muitas vezes, exercem um pressing/marcação-pressão na saída de bola rival, com o adiantamento das linhas para áreas próximas ao grande círculo central. A recomposição dos ponteiros é assídua, acompanhando os laterais oponentes e dobrando a marcação pelos lados do campo. Essa marcação busca forçar o erro para que o contra-golpe seja fatal, principalmente com as saídas de Marquinhos Gabriel e Wallyson nas costas dos laterais adversários. Fahel é o volante que fica entre as linhas, à frente dos zagueiros, porém com boa proximidade em relação aos mesmos, facilitando o trabalho coletivo na marcação.

Uma movimentação interessantíssima do ataque baiano é o deslocamento de Marquinhos Gabriel para o setor de armação e as aproximações de Wallyson com Fernandão. Assim, forma-se um losango no meio-campo e Marquinhos fica como um ponta-de-lança. A cobertura de Hélder no lado esquerdo permite a intensa flutuação de Marquinhos por outras faixas. No Campeonato Baiano, ele chegou a ser o responsável pela hibridação tática da equipe, ora como meia-central, ora como ponta. Essa sua versatilidade impressiona bastante, principalmente pelo fato de que quando ele circula por outras zonas, carregando marcadores consigo, destrói a marcação adversária, pois Raul mergulha imediatamente no corredor.

É nesse ritmo de modernidade e futebol eficiente que o Bahia pretende seguir no Brasileirão. Muitos o consideram um “cavalo paraguaio”, mas o futebol é um esporte imprevisível e tudo poderá acontecer daqui pra frente. Só o destino sabe qual será a classificação do Tricolor de Aço ao término da temporada. Independente disso, as estratégias modernas estão atingindo o futebol nordestino positivamente. O Vitória de Caio Junior é outro exemplo disso, assim como o inovador Campinense que conquistou a Copa do Nordeste 2013 sob o comando de Oliveira Canindé.

Comentários

Natural de Recife-PE e futuro jornalista esportivo. É colunista de futebol nordestino no BOL Esporte/ Portal Terceiro Tempo e colabora com o Doentes Por Futebol. Gosta bastante de análises técnico-táticas.