Ego de Guardiola é o principal obstáculo do Bayern

  • por João Rabay
  • 8 Anos atrás

O Bayern de Munique anunciou a contratação de Pep Guardiola ainda em janeiro. Àquela altura, os bávaros, comandados por Jupp Heynckes, ainda esperavam pelos confrontos contra o Arsenal pelas oitavas de final da Champions League e já lideravam com folga a Bundesliga.

Guardiola teve quase seis meses para observar a equipe em campo e estudar o elenco. Nesse tempo, o Bayern de Heynckes confirmou o que se previa no campeonato nacional, sendo campeão antecipado e batendo vários recordes. Na Europa, atropelou sem dó o Barcelona, com 7×0 no placar agregado, e copou a taça em Londres sobre o Borussia Dortmund. Sem falar no título da Copa da Alemanha.

Bayern campeão da UCL: o que mudar num time quase perfeito?

Bayern campeão da UCL: o que mudar num time quase perfeito? (Foto: Reprodução)

Guardiola assumiu, então, com a responsabilidade de continuar um trabalho praticamente perfeito. Mas, em vez de manter o time que ganhou tudo na temporada anterior, adicionando seus conceitos, o que seria a coisa mais lógica a se fazer, Pep tem mostrado que faz questão de revolucionar o Bayern e o futebol.

Vejamos a escalação-base do Bayern da temporada passada: Neuer; Lahm, Boateng, Dante e Alaba; Javi Martínez, Schweinsteiger, Kroos, Müller e Ribéry; Mandzukic. Lembremos que Robben, que parecia destinado a deixar Munique após a temporada, aproveitou a lesão de Kroos para garantir seu lugar na história do Bayern e complicou a vida de Guardiola, que teria que encaixar também Mario Götze no 11 titular.

Qualquer um imaginaria que Guardiola deixaria a linha defensiva – menos vazada da história da Bundesliga – intacta, se ocupando de encontrar alternativas no setor ofensivo recheado de opções. Mas o treinador não gosta muito de fazer o simples e ser apenas um coadjuvante.

A vontade de fazer diferente falou mais alto, e Pep testou, durante a pré-temporada, formações com Rafinha na lateral direita, colocando Lahm na esquerda e Alaba no meio-campo ou Alaba na esquerda e Lahm como volante, além de Javi Martínez na zaga – posição na qual ele já jogou com frequência, mas declarou não ser sua preferida.

O meio de campo também é alvo da criatividade maluca de Guardiola. A falta de um volante de ofício parecia não fazer sentido nos amistosos, mas o erro foi comprovado na derrota para o Borussia na Supercopa da Alemanha. Os comandados de Jürgen Klopp dominaram o meio de campo e aproveitaram os espaços para marcar. O protagonismo de Gündogan na partida não foi mero acaso.

Pep e Thiago: bom jogador, mas contratação desnecessária

Pep e Thiago: bom jogador, mas contratação desnecessária

A contratação de Thiago Alcântara é outro indício de que a vontade de ser diferente de Guardiola pode criar obstáculos ao Bayern. O espanhol, que é muito bom jogador, chega para brigar por vaga no setor mais concorrido da equipe. Thiago tem talento, mas não fez mais no futebol do que Kroos e Müller, muito menos do que Schweinsteiger, Robben ou Ribéry. Sem falar em Götze, que chegou contundido e ainda não jogou. Guardiola tem Thiago como menina dos olhos e parece querer montar o time em volta dele. Como reagirão os campeões de tudo na temporada passada ao ficarem no banco para a nova contratação jogar? Além disso, a ausência de um volante é consequência dos malabarismos de Pep para escalar Thiago.

É claro que Guardiola faz por merecer o status de um dos melhores técnicos do mundo. Foi o grande responsável por implantar o Tiki Taka no Barcelona e formar um dos melhores times da história. Sem ele, Messi provavelmente não teria começado a jogar como falso 9 e dificilmente teria chegado a um nível tão avassalador.

Mas não podemos ignorar que Guardiola ficou tão viciado em fazer grandes inovações que insistiu que o Barcelona não precisava contratar zagueiros, escalando a defesa várias vezes com volantes ou laterais na zaga. O Barça chegou a jogar com três zagueiros, mas sem nenhum que fosse de fato da posição. A fragilidade defensiva, causada pela negligência de Guardiola, custou caro nas duas últimas temporadas. Na Bundesliga é difícil perder o título, mas no mata-mata europeu o buraco é mais embaixo.

Guardiola é, de fato, um grande treinador. E tem um grande time nas mãos. É difícil imaginar que essa união possa dar errado. Mas Pep vem fazendo força para isso. Seu ego e sua vontade de aparecer como treinador revolucionário que inventa conceitos são os maiores obstáculos do Bayern 2013/14. Para passar por isso, a receita é simples: zagueiro jogando como zagueiro, lateral jogando como lateral, volante jogando como volante. Não é preciso complicar algo tão simples.

Comentários

Jornalista. Doente por futebol bem jogado e inimigo de jogadores que desistem da bola para cavar falta e de atacantes "úteis porque marcam os laterais".