La Bombonera Parte II – Corrupção, medo e um jogo emocionante

  • por Leandro Lainetti
  • 8 Anos atrás

Logo que saímos da visita à Bombonera, eu e minha namorada fomos almoçar ali perto, no Caminito, uma estreita rua de restaurantes e lojas, quase que exclusivamente voltada para turistas. Enquanto procurávamos um lugar para comer, topamos com uma banquinha no meio da rua que anunciava a venda de ingressos para o jogo, que seria no dia seguinte, às 18h15, horário local.

Curiosamente, pouco antes da viagem, eu havia lido o “La Doce”, livro do jornalista argentino Gustavo Grabia, que conta toda a história, desde a fundação, da torcida organizada do Boca Juniors. Uma das partes do livro fala sobre os pacotes de ingressos para turistas e achei que aquele fosse o caso. Sem confiar muito, fomos almoçar. Apesar da vontade de ir ao jogo, estava desconfiado, achando que seria furada.

Mas minha namorada, sabendo como sou, argumentou que deveríamos ir. Ao retornarmos ao “guichê”, fomos atendidos por um sujeito bem simpático e malandro. Ele falou que seria a reestreia de Bianchi, primeiro jogo oficial do ano, que Riquelme seria reapresentado no jogo (o que acabou se confirmando no fim daquele mesmo dia), usou mais alguns argumentos futebolísticos e também falou que, antes, jogaríamos um animado futebol em La Boca com bebidas e comidas.

Foto: Leandro Lainetti - Camarote central onde Riquelme assistiu ao jogo

Foto: Leandro Lainetti – Camarote central onde Riquelme assistiu ao jogo

Eu já estava decidido e aquilo não me influenciou em nada, mas foi interessante testemunhar as artimanhas usadas para convencer os gringos que não sacam muito de futebol.

Um preço e o medo

Sem saber realmente a procedência dos ingressos, pagamos um preço ligeiramente salgado. O fizemos em reais, mas eles aceitavam pesos ou dólares. Duas entradas mais o ônibus de ida e volta custaram R$ 333,00, sendo que pagamos R$ 100,00 adiantados como sinal. O combinado era que o ônibus nos pegaria no hotel no dia seguinte, às 15h30, praticamente três horas antes do jogo. Saímos de lá com um recibo bem duvidoso e sem a certeza do sucesso daquela empreitada.

No dia seguinte, às 15h30 em ponto, estávamos na recepção do hotel. Após 30 minutos de atraso, um microônibus estacionou na entrada. Sim, era o nosso. Um farol quebrado, parachoque amassado e um ar condicionado que não funcionava. Apenas quatro cadeiras ocupadas, todas por brasileiros animados. Fizemos um tour por boa parte de Buenos Aires. Passamos por diversos hotéis para buscar outros turistas – italianos, japoneses, holandeses, suecos e, claro, mais brasileiros – até o veículo encher e rumar para o estádio.

Foto: Leandro Lainetti - Antes do jogo, espaço destinado à La Doce permanece vazio

Foto: Leandro Lainetti – Antes do jogo, espaço destinado à La Doce permanece vazio

Por volta de 17h, 1h30 antes da partida, chegamos em La Boca. O ônibus parou próximo a uma quadra de futebol de salão e o rapaz que nos acompanhava, que não era o mesmo do dia anterior, nos deixou lá e foi embora. Na quadra, diversos garotos, todos com pelo menos uma peça de roupa do Boca, jogavam uma animada e desorganizada pelada. A movimentação no entorno da quadra, repleta de sujeitos estranhos, chamou minha atenção. Dentro dela, turistas e mais turistas, que vieram em outros ônibus, se aglomeravam atrás de um dos gols.

Pelo que percebi, o nosso grupo foi o último a chegar. Assim, surgiram mais quatro homens que iriam nos guiar até o estádio. Com a ajuda de outros, eles dividiram todos em novos grupos e começaram a partir. Novamente, meu grupo ficou por último. Ao nosso lado, os europeus divertiam-se com extrema facilidade, riam e não faziam questão de guardar as excelentes câmeras que traziam penduradas aos pescoços. Talvez um misto de ingenuidade e desconhecimento do ambiente em que estavam.

Foto: Leandro Lainetti - Pouco antes do apito inicial, a organizada já tomou conta de seus lugares

Foto: Leandro Lainetti – Pouco antes do apito inicial, a organizada já tomou conta de seus lugares

O tempo passava e nos preocupávamos cada vez mais. Até que, às 17h30, nosso grupo, em torno de 20 pessoas, foi autorizado a partir. Quando chegamos perto da Bombonera, algumas roletas já estavam montadas no meio da rua, mas não podíamos passar, pois ainda não havíamos recebido nossos ingressos. Assim, fomos convidados a entrar num pequeno e suspeito galpão enquanto aguardávamos os bilhetes. A todo instante, ao menor sinal de que um de nós iria sair, mesmo que fosse apenas para olhar a rua, eles nos mandavam ficar lá dentro, sempre alertando que a polícia não deveria perceber a nossa presença. Lembrando do livro de Grabia, aquilo apenas me incomodava mais.

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Com a demora dos ingressos, uma parte do grupo resolveu reclamar e foi para a calçada. Um brasileiro, de Brasília, que estava com mais cinco familiares, chamou o líder da excursão, um gordinho daqueles com cara de engraçado, que só apareceu quando chegamos ao galpão e cobrou que entrássemos. Tentando manter a calma de todos, ele garantiu que em breve estaríamos dentro do estádio, mas que tudo deveria ser feito sem chamar atenção.

Após alguns minutos, finalmente fomos liberados para entrar, mas não sem antes recebermos instruções. Iríamos de quatro em quatro e acompanhados pelo gordinho. Ou seja, mais uma divisão e mais demora. Após o terceiro quarteto, chegou a nossa vez. Quando recebi o “ingresso”, tratei logo de olhar. Em minhas mãos, estava a carteirinha de um sócio torcedor de dez anos de idade, loiro e de olhos claros, completamente diferente de mim. O combinado era devolver a carteirinha para o gordinho assim que passássemos das primeiras roletas. Ele foi na frente e passou, tranquilamente, sem nada apresentar e sem ser revistado. Nós também não mostramos nada e avançamos. Devolvemos os “ingressos” e fomos em direção à porta do estádio, uns 20 metros adiante. Ao chegar na segunda leva de roletas, o gordinho trocou meia dúzia de palavras com o fiscal, que nos mandou passar ao lado da roleta, sem girá-la e sem apresentar qualquer tipo de comprovante.

Assim que entramos, nosso guia sumiu e nos deixou lá, à nossa própria sorte, faltando dez minutos para o jogo. Na arquibancada lotada, conseguimos nos espremer em um canto e assistir ao jogo com uma boa visão do campo. Ficamos atrás de um dos gols, em frente à organizada do Boca e logo abaixo da torcida do Quilmes. A partida, simplesmente emocionante, terminou em 3×2 para o Boca Juniors, que virou após estar perdendo por 2×0 com apenas dez minutos de jogo. Quando a peleja estava 2×2, o zagueiro xeneize Carruzzo foi expulso ao cometer pênalti. Orión pegou e, pouco depois, o Boca fez o gol da vitória.

Foto: Leandro Lainetti - Visão que tínhamos durante o jogo, com a divisória entre dois setores atrapalhando um pouco

Foto: Leandro Lainetti – Visão que tínhamos durante o jogo, com a divisória entre dois setores atrapalhando um pouco

Na hora de ir embora, o gordinho surgiu misteriosamente dentro do estádio com outros homens que haviam feito parte da nossa escolta. A ordem era para que voltássemos ao galpão juntos e depois fôssemos para o ônibus. No galpão, dessa vez, todos esperamos do lado de fora. Em poucos minutos, rumamos para o ônibus, que nos esperava em uma das vias principais, e não nas estreitas ruelas de La Boca. Aqui, um último detalhe. No veículo, havia pessoas diferentes daquelas que foram na ida. Ao consultar a lista, o rapaz que nos vendeu o ingresso – que surgiu pela primeira e única vez desde o dia anterior -, percebeu que alguns nomes da lista não estavam no ônibus – os japoneses certamente não estavam. Mas isso não impediu que ele liberasse o motorista para levar todos de volta aos seus respectivos hotéis.

Quando nossa aventura acabou, às 23h, horário que fomos deixados no hotel, me senti aliviado. Principalmente por ver minha namorada tranquila novamente. E também me senti feliz, sabendo que havia presenciado um belo jogo, em um dos templos do futebol mundial, apesar de toda a tensão e dúvida que me acompanharam em todo o caminho. Certamente um dia histórico para qualquer torcedor.

Abaixo, alguns vídeos que eu fiz e outro com os melhores momentos do jogo.

Entrada do Boca Junior em campo. Em seguida, surge Carlos Bianchi, prontamente ovacionado pela torcida:

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Gol de empate do Boca, marcado pelo zagueiro Burdisso:

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Com o jogo empatado, goleiro Orión pega um pênalti. Pouco depois, Burdisso marcaria o gol da virada e da vitória:

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Melhores momentos do jogo:

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Comentários

Jornalista trabalhando com marketing, carioca, 28 anos. Antes de mais nada, não acredito em teorias da conspiração. Até que me provem o contrário, futebol é decidido dentro das quatro linhas. Mais futebol nacional do que internacional. Não vi Zico mas vi Romário, Zidane, Ronaldinho, Ronaldo. Vejo Messi e Cristiano Ronaldo. Totti é pai.