Paraná Clube em: “Dormindo com o Inimigo”

O padrão usado pelo Paraná nas próximas partidas selará um casamento sórdido: o de um clube de futebol com seu braço armado.

O padrão usado pelo Paraná nas próximas partidas selará um casamento sórdido: o de um clube de futebol com seu braço armado.

Que existe, em quase todos os clubes de massa do Brasil, uma certa promiscuidade entre diretores e torcidas organizadas, não é novidade para ninguém. Há inúmeros episódios a evidenciar essa dinâmica suja, que traz uma série de problemas a todos os clubes e, principalmente, a todos os torcedores que frequentam estádios no país. No entanto, talvez poucos fatos tenham sido tão significativos para escancarar a triste realidade que atravanca o desenvolvimento do nosso futebol quanto a inacreditável novidade que veio ontem de Curitiba: nos próximos dois jogos contra Sport e Guaratinguetá, o Paraná Clube estampará em seu uniforme de jogo a marca da torcida organizada Fúria Independente.

O acerto ocorre dentro de um contexto de forte criminalização das organizadas no Brasil. Que não é lá muito injusta, é bom que se diga: em todo os estados brasileiros em que há clubes de massa e rivalidades, manchetes de jornais lamentando a violência entre torcidas organizadas tornaram-se rotina. Isso implica em algumas consequências negativas: os estádios (e seus entornos) deixaram de ser ambientes seguros, e ir a um jogo de futebol com mulher e/ou filhos tornou-se uma missão espinhosa. Assim, quem perde, no final das contas, é o próprio clube: primeiramente, na arrecadação da bilheteria e, numa visão mais ampla, em associar sua identidade a uma instituição amplamente relacionada a baderna, depredação de patrimônio, agressões físicas e até assassinatos.

Produtos licenciados da Fúria Independente vendidos livremente nas lojas: há que se definir o caráter jurídico das torcidas organizadas.

Produtos licenciados da Fúria Independente vendidos livremente nas lojas: há que se definir o caráter jurídico das torcidas organizadas.

Se essa associação não é muito boa para as agremiações, por outro lado, é extremamente benéfica às torcidas organizadas. Com o respaldo dos clubes, elas ganham um ar de respeitabilidade que não condiz de todo com suas práticas. E assim, se veem livres para marcar presença não só nos estádios e nas ruas, mas também nas prateleiras de algumas das principais lojas relacionadas a material esportivo – muitas vezes, sem sequer pagar os royalties pelo uso da marca dos clubes por que “torcem”. Seus produtos licenciados geram grande fascínio principalmente entre o público infantil e adolescente, que comumente se deixa iludir pela “festa” nas arquibancadas, sem compreender a fundo o modus operandi dessas instituições e a conexão direta entre elas e a violência. Dessa forma, as cifras de R$ 50 mil, por apenas duas partidas, alcançadas pelo acordo entre Paraná Clube e Fúria Independente servem como uma pequena amostra do poder aquisitivo de uma torcida organizada – que, neste caso, nem é das maiores do Brasil.

No próximo sábado, o Paraná Clube e a Fúria Independente consumarão um envolvimento que poucas vezes se havia visto na história do país, e que mostra nitidamente todas as faces da relação visceral que existe entre clubes e organizadas, marcada por medo, ameaças, dependência mútua e um visível conformismo – também mútuo – em deixar tudo como está. Enquanto a violência se apodera do nosso futebol, espanta as famílias dos estádios e enfeitiça nossas crianças com uma festa que na maioria das vezes não passa de exaltação a si mesma ou ao crime propriamente dito, o Poder Público se omite na resolução deste que é um dos maiores obstáculos à recuperação do nosso esporte nacional.

Comentários

Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.