Se é Portaluppi, é losango – o novo velho Grêmio de Renato

  • por Raniery Medeiros
  • 7 Anos atrás

renato capa

Por: Eduardo Papke Rocha

O inconfundível sotaque carioca segue no comando do tricolor dos pampas, porém adornado por uma mística inexplicável e inexorável. O carioca da gema Vanderlei Luxemburgo cedeu seu lugar a Renato Portaluppi, carioca por opção. E em sua bagagem originária do Rio de Janeiro, Renato trouxe seu inconfundível losango, despachando o antiquado meio-campo em quadrado de seu antecessor.

A áurea em torno do ídolo segue inabalável. Porém, Renato persegue algo mais auspicioso. O ídolo quer a canonização, tornar-se uma entidade divina, transcendental. E sua busca só terá fim quando o pedregoso caminho resultar em títulos.

O clima de fim de festa entre Luxemburgo e vestiário/direção cessou com a pomposa chegada de Renato. Se o casamento estava desgastado, Renato pôs torcida e clube em lua de mel. Se há exigências em ser ídolo, há benefícios. A cobrança será lenta, quase que imperceptível e, caso resultados não floresçam, gradual.

As engrenagens do tricolor dos pampas seguem emperradas, carecem de graxa para bom funcionamento. Com Portaluppi como mecânico, a solução será motivação como elemento principal. O perfil do treinador promete sacolejar o clima desalentador do vestiário e resgatar o tradicional DNA aguerrido do clube.
Renato permanece fiel ao seu losango. O esquema, originário da Itália, segue o mesmo, porém estrategicamente modificado.

No Grêmio, Renato Portaluppi organizou um 4-4-2 em losango com tripé astuto de volantes. Para quem gosta de desdobramentos em quatro faixas de campo, é um 4-3-1-2 (embora os volantes não estejam alinhados, o que contradiz o princípio deste tipo de descrição tática). O posicionamento dos carrilleros tricolores é mais à frente do que o natural.

O vértice inicial segue uma incógnita: ou Renato opta por Adriano, típico volante “quebrador” que atua somente na fase defensiva, ou Souza, volante de passadas largas e com qualidade no passe. Na segunda linha, à frente, ficam Zé Roberto (esquerda) e Riveros/Souza (direita); Elano é o enganche, fazendo a conexão com o ataque formado por Kléber/Vargas e Barcos, na teoria.

*Obs: Devido à lesão de Zé Roberto, Souza deve assumir seu posto. Vargas, igualmente lesionado, perde posição para Kléber.

Há uma compensação para guarnecer o meio-campo “solto” (contra o Botafogo, com Zé Roberto e Souza como carrilleros e, contra o Fluminense, com Zé e Riveros quando o lado esquerdo ficou exposto em demasia). Os laterais, Pará (direita) e Alex Telles (esquerda), ficam mais fixos, formando a ultima linha com Bressan e Werley, e Adriano, plantado à frente. O time atua com lateral-base, sem avançar, ou com avanços conservadores. Entretanto, com volantes de ofício (Souza/Ramiro/Biteco e Riveros), Renato libera o lateral que se encontra no flanco atacante e prende o lateral oposto. Adriano segue na proteção à zaga, o cão de guarda, flutuando no meio-campo para ser o primeiro combatente.

A transição defensiva tricolor é ágil. Recompõe-se com dinâmica interessante, sem deixar brechas – em parte por laterais estarem presos formando a linha defensiva ao lado de zagueiros e Adriano executar função estritamente defensiva. A dinâmica fica à mercê dos carrilleros, que possuem presença ofensiva e precisam realizar a recomposição com velocidade.

 Transição defensiva com tripé de volantes fechados e estreito. Sete jogadores recompondo frente a linha defensiva.

Transição defensiva com tripé de volantes fechados e estreito. Sete jogadores recompondo frente a linha defensiva.

Realizada a transição defensiva, é formado o posicionamento defensivo – simples e extremamente trivial. Sete jogadores o compõem em boco baixo: primeira linha defensiva formada por laterais e zagueiros; tripé de volantes recuados; enganche e avantes não participam defensivamente. A marcação tende a ser estreita e compacta, mas não é constante – há momentos lúcidos e apagões. A marcação é solta próximo ao meio-campo e apertada a partir dos três quartos da área defensiva. Falta ao Grêmio maior sincronia entre volantes e laterais na marcação para não ceder espaço e avanços. Essa aparente falha, no entanto, pode ser estratégica, pois o tripé de volantes é fechado, com volantes próximos, mas que não basculam no sentido da bola.

Grêmio postado no losango compacto, linhas próximas, sem brechas entre elas e estreito, com jogadores próximos quanto a largura. Sete jogadores agrupados, o tripé de volantes congestionando a entrada da grande área.

Grêmio postado no losango compacto, linhas próximas, sem brechas entre elas e estreito, com jogadores próximos quanto a largura. Sete jogadores agrupados, o tripé de volantes congestionando a entrada da grande área.

A função de carrillero/box-to-box (exercida no Grêmio por Riveros e Zé Roberto/Souza) é essencial para o losango. Convido-lhes a entender o box-to-box: “é uma referência ao jogador que faz, no meio-campo central, o ‘vai-vem’. Box significa área, em inglês, portanto a tradução é ‘de área a área’. A definição é claríssima: o jogador que sem a bola posiciona-se defensivamente à frente da própria área, e quando a equipe recupera a bola aproxima-se dos atacantes, nos arredores da área adversária. Atuar nos dois campos é prerrogativa básica desta tática individual.” [Fonte: E. Cecconi]

Por enquanto, o Grêmio ainda é um rascunho. Persistem resquícios de Vanderlei no tricolor e é cedo para constatar algo concreto de Portaluppi na equipe, a não ser o fatídico losango no meio-campo. E nesta faixa de campo reside a patologia tricolor: não criar. A equipe sofre com a abstinência de chances e Elano não é um “pifador” nato.

“O enganche atua como o elo entre o meio-campo e a linha da frente, é o jogador que opera no ‘vazio’ entre a defesa e o meio-campo da equipa contrária e tenta assim, usando esse espaço, criar situações de golo para os dianteiros e restante equipa. É um jogador que atua na altura dos três quartos do campo, alternando situações de finalização com a construção de jogo”. [FONTE: A. Borges]

Devido ao posicionamento defensivo em bloco baixo, a transição ofensiva depende dos carrilleros, pois Elano não compacta com os restantes e não recua para iniciar organização ofensiva. Corriqueiramente, Zé Roberto assume este papel e transita em velocidade entre defesa e ataque. Atuando fora de casa, a transição é ineficaz, pois ocorre em velocidade, mas com poucos homens no campo ofensivo do adversário e sem vitória pessoal dos avantes no contato direto com zagueiros.

Postado ofensivamente, o tricolor encontra imensa dificuldade em furar bloqueios. A equipe é dependente dos carrilleros para criação. O enganche, Elano, é tímido em campo, rende-se facilmente à marcação e pouco organiza, restringe-se aos três quartos do campo ofensivo. A presença ofensiva dos carrilleros é o ponto positivo, com Zé esboçando criação e Riveros presente na área adversária. Porém, o apoio conservador dos laterais frustra qualquer dobradinha entre carrillero e lateral.

A bomba sempre estoura no ataque. Kléber e Barcos formam dupla de avantes. Não há presença do típico velocista ou saca-rolha. “Saca-rolha” moderno, pois o ponta, “saca-rolha” de época, foi crucificado, morto e sepultado. Porém, o intuito segue o mesmo: jogador que desmorona defesas pétreas. Ele mexe na marcação alheia, desencaixando as peças do ferrolho e abrindo espaços.

Kléber, quando rodeia a grande área, o faz de costas, fazendo pivô e cavando faltas. As faltas, geralmente, são excelentes oportunidades, pois Elano as cobra com primazia. Essa dinâmica, porém, torna o jogo truncado, lento e fornece chance do adversário se postar defensivamente. Kléber, definitivamente, não é atacante de movimentação.

Barcos vive seu inferno astral. A bola chega mascada em seus pés, mas seus membros inferiores parecem ter se tornando “canelas” que só dominam a pelota com imensa dificuldade. Suas excursões fora da área tornaram-se improdutivas e previsíveis, uma usina nuclear para acender um palito de fósforo.

A esperança reside em Vargas, chileno que, no momento, está lesionado e em período de adaptação em Porto Alegre.

GRE-NAL

Para o Gre-Nal, Renato faz mistério. A tendência é de que a equipe seja formada com: Dida; Pará, Werley (Rhodolfo), Bressan e Alex Telles; Riveros, Souza, Elano e Maxi Rodriguez; Kleber e Barcos.

Provável Grêmio para o clássico. O esquema segue o mesmo, as peças mudam e devem alterar a dinâmica da equipe.

Provável Grêmio para o clássico. O esquema segue o mesmo, as peças mudam e devem alterar a dinâmica da equipe.

O losango deve seguir no meio-campo com Souza atuando como vértice inicial; na segunda linha, pouco à frente, ficam Elano (direita) e Riveros (esquerda); Maxi o enganche, fazendo a conexão com o ataque formado por Kléber e Barcos.

Com Souza na primeira função, o primeiro passe deve ter maior qualidade. A diferença reside no enganche Maxi Rodriguez, uruguaio com maior movimentação, se comparado a Elano. E o próprio Elano atuando como carrillero, terá fôlego?
Segue o clichê: clássico é clássico e vice-versa, imortalizou o poeta da grade área Mario Jardel.

OBS: Eduardo é estudante de Educação Física (PUCRS) e dono do blog “Nó Táctico”.

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