Sete anos da Libertação Colorada

  • por Bráulio Silva
  • 5 Anos atrás

Sete era o número da camisa de Tinga. Colorado desde a infância, pelos caminhos tortuosos da vida, o jogador se destacou como profissional atuando no maior rival. Depois de uma passagem pelo futebol português, o agora volante desembarcou no time do coração justamente numa época de virada para os colorados.

O Colorado foi o rei do Brasil nos anos 70. Três títulos nacionais (1975, 1976 e 1979) fizeram com que o time gaúcho mantivesse o maior número de conquistas do Brasileirão por muito tempo. O título da Libertadores quase veio em 1980. O vice-campeonato naquele ano marcou a despedida do ídolo Falcão, que foi vendido para o futebol italiano e se transformou no Rei de Roma.

A sequência dos anos foi terrível para os colorados. O maior rival ganhou o Brasileirão em 1982, a Libertadores e o Mundo em 1983. A supremacia colorada já havia sido colocada em cheque com o bom momento gremista. No Sul, as gozações eram imensas. Afinal, o único time gaúcho que havia conquistado a América e o Mundo era o Grêmio.

Nos anos 90, o Colorado viveu a maior crise de sua história. Mesmo com bons times, os títulos teimavam em não surgir. Para piorar, o rival – sempre ele – conquistou o bi da Libertadores em 1995. A sina de ver o Grêmio sempre em alta e o Inter patinando para ganhar algo parece ter mudado a partir de 2003.

Fernando Carvalho assumiu o comando do time e as coisas passaram a mudar. Após o quase rebaixamento em 2002, a lição foi aprendida e o clube se reestruturou de forma completa. Com jovens no elenco, o time quase beliscou uma vaga na Libertadores de 2004. Em 2005, o título brasileiro não veio por detalhes. No principal jogo daquele tumultuado campeonato, o personagem inicial da coluna, Tinga, sofreu um pênalti diante de Fábio Costa, que não foi assinalado pelo árbitro Márcio Resende de Freitas.

O ano de 2006 começou com o Inter na Libertadores. Na primeira fase, quatro vitórias e dois empates. Esses resultados garantiram o Colorado como dono de uma das melhores campanhas, decidindo a maioria dos jogos em casa.

Nas oitavas, uma pedreira logo de cara: o Nacional. O time uruguaio estava no mesmo grupo dos gaúchos na primeira fase do vice-campeonato em 1980, uma triste lembrança para os colorados. Na casa do adversário, vitória por 2×1, com direito a um golaço de Rentería. Na volta, o empate sem gols foi o suficiente para avançar de fase.

Nas quartas, o confronto foi mais equilibrado. Em Quito, o time conheceu a primeira derrota na competição ao perder de virada para a LDU. Na volta, em jogo duríssimo em que só a vitória interessava, o Inter bateu os equatorianos por 2×0, gols de Rafael Sóbis aos 6’ e Rentería aos 41’, ambos no segundo tempo.

Numa semifinal de Libertadores depois de 17 anos, o Inter queria exorcizar os fantasmas que tanto assombravam seus torcedores. Contra o Libertad-PAR, o time foi inteligente para segurar o empate fora de casa. No Beira-Rio, não deu outra: vitória por 2×0, novamente com os dois gols no segundo tempo.

A final seria contra o São Paulo, o então campeão e dono de mais dois títulos. O adversário era treinado por inimigo íntimo, afinal Muricy Ramalho foi o comandante do Colorado até 2005. No mata-mata, os paulistas eliminaram Palmeiras, Estudiantes-ARG e Chivas-MEX. Com a melhor campanha, os gaúchos iriam decidir em casa.

No primeiro jogo, uma vitória histórica. Mesmo no Morumbi, o Inter foi o senhor das ações desde o princípio. Talvez pela expulsão de Josué antes dos 10 minutos. Ou pela lesão de Mineiro, que sentiu o tornozelo também logo no início. O fato é que o Inter pouco se importou com a mística e atropelou o São Paulo em pleno território inimigo. Ou, como disse o locutor Pedro Ernesto durante a partida: O Inter rasgou a camisa do São Paulo e pisou em cima. Com dois gols de Rafael Sóbis, o garoto que tem cara de gaúcho, jeito de gaúcho e sangue de gaúcho.

Faltava o jogo de volta, que seria disputado no Beira-Rio. O São Paulo, que precisava da vitória para levar o jogo a prorrogação, partiu pra cima desde o início e foi acumulando chances. A mais clara delas caiu nos pés de Diego Lugano, que chutou fora. Aos 30’, o gol. Jorge Wagner cobrou falta e Rogério soltou nos pés de Fernandão, que abriu o placar. A América nunca esteve tão perto.

No segundo tempo, pressão do São Paulo, que igualou o marcador logo no início com gol de Fabão. O time de Abel Braga sentiu o golpe e ficou acuado no campo de defesa. Num contra-ataque aos 20 minutos, a bola foi alçada na área e Fernandão cabeceou para Rogério fazer excelente defesa. No rebote, o camisa 9 cruzou e Tinga, o garoto de infância colorada, só escorou para as redes.

Na comemoração, o camisa 7 acabou expulso. O Inter teria agora pouco mais de 25 minutos para segurar o ímpeto do tricampeão da América e do Mundo. E assim foi, sem sustos, até o momento em que Junior chutou uma bola fraquinha e Clemer soltou nos pés de Lenílson, que empatou a partida. Naquele momento, o título estava indefinido. Os gaúchos preocupados com a defesa, e o São Paulo todo no ataque. A última chance surgiu aos 46’. Após cruzamento, o atacante Alex Dias cabeceou firme, para excelente defesa de Clemer, que se redimiu da falha minutos antes.

A tensão que envolvia o estádio só foi diluída com o apito final do argentino Horácio Elizondo. O Inter conquistava a América pela primeira vez.

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Paulistano, casado e com 33 anos. Apaixonado por futebol e pelo São Paulo FC. De memória privilegiada, adora relatar e debater fatos futebolísticos de outrora. Ex-estudante de jornalismo, hoje gerencia uma drogaria no município de Barueri, além de escrever para a Doentes por Futebol.