Tinha que ser com você

Magrão

Foto: Aldo Carneiro.

Tinha que ser com você.

Quando você chegou ao Sport, em 2005, os clubes brasileiros não davam a menor importância a essa competição que você hoje disputa pela primeira vez. Mas com apenas duas partidas, você já conseguiu torna-la parte de sua história. E também já conseguiu entrar na história dela.

Logo você, tão criticado nos últimos tempos. Tão açoitado pelas suas falhas recentes, tão minúsculas diante de todos os capítulos gloriosos que você escreveu ao longo desses últimos oito anos vestindo a camisa rubro-negra.

Havia de ser pra você.

O time carregava uma vantagem de 2×0 que não era de apenas dois gols: era também moral e psicológica. A vitória na Ilha do Retiro transformou o então favorito Náutico em franco-atirador, e o Sport, time de Série B, em nome certo na próxima fase do torneio.

Uma péssima atuação coletiva, no entanto, quase pôs tudo a perder. Um time que não conseguia criar jogadas e nem mesmo contra-atacar de forma organizada, sua principal característica nos jogos fora de casa. A derrota foi por 2×0, mas poderia ter sido maior.

Seria mais uma dor, para uma torcida que se acostumou a sofrer nos últimos anos: um calvário absolutamente desnecessário, tendo em vista o poder econômico e a tradição desse clube. Mas a noite era apenas de nervosismo, não de dor. E em campo, não havia ninguém mais habilitado do que você para nos proteger de todos os males.

Não era noite de Marcos Aurélio e seus potentes e precisos chutes; nem tampouco dos passes açucarados de Lucas Lima. Mesmo diante desse cenário complicado, a torcida do Sport já sabia: até quando o time joga mal e nada parece funcionar, nunca é tempo de desesperar. Porque você está sob as traves, guardando nossa meta.

Assim como guardou em 2008, salvando o Leão contra alguns dos mais poderosos adversários do Brasil e entrando de vez na história do clube.

Assim como guardou em 2009, conduzindo o rubro-negro em uma campanha continental que poderia ter sido ainda mais brilhante caso a diretoria tivesse investido seriamente na qualidade do seu plantel.

Como guardou também em 2011, garantindo inúmeros pontos preciosos para consolidar nossa volta à Série A, ou em 2012, quando vinha evitando que o Sport desse vexames ainda maiores e sendo um dos melhores goleiros do campeonato, até se lesionar.

Como guardou ontem, aos 36 anos de idade: fazendo defesas importantíssimas durante o jogo, evitando que nossa eliminação viesse já no tempo regulamentar. E conduzindo o confronto até aquele que seria o seu momento. Afinal, sempre foi assim: você sempre foi nossa última carta na manga, nosso último e mais decisivo trunfo.

Magrão e o pênalti decisivo.

Magrão e o pênalti decisivo.

Após 180 minutos, era chegada a hora da decisão. Na marca da cal, a primeira cobrança era do Náutico. E lá estava você, sereno, sobre a linha do gol, apenas esperando o apito do juiz para voar em direção à bola. A vantagem psicológica de começar na frente numa disputa de pênaltis não era suficiente para você, tão determinado em salvaguardar suas cores e sua torcida, tão suas. E não satisfeito, você foi lá e defendeu outra batida, para a desgraça dos rivais, tão acostumados a parar e sofrer em suas mãos. Ainda não satisfeito em ser, já àquela altura, o grande nome da já iminente classificação, pegou também a quarta cobrança, decidindo a peleja, sacramentando o resultado e vingando todos os sarros da fatídica derrota que nos relegou à Segundona e garantiu os rivais na (fase nacional da) Sul-Americana.

Hoje, você está mais perto de parar do que de continuar jogando, nas suas próprias palavras. E, convenhamos, não são muitos os apelos para que você desista da ideia: seu substituto tem enorme potencial e é cria da casa (aprendeu muito com você, sem dúvida). Mas ontem, você mostrou aos seus críticos que não se pode subestimar seu talento, sua experiência e, principalmente, seu poder de decisão. Se é esse o atributo que separa os grandes dos medíocres, você ontem provou porque é esse gigante idolatrado pela torcida rubro-negra.

Muito obrigado por tudo, Magrão. E aproveite seus últimos dias de jogador com a certeza de que a sua bela história com a camisa do Sport jamais será esquecida. Nós não deixaremos isso acontecer.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.